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Casal de advogados deixa carreira estável no Brasil com três filhos, ela vira operária de fábrica e lavadora de pratos, ele troca o terno pela construção civil
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 25/08/2026 às 09:01
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Paula e José deixaram carreiras de advogados no Brasil, recomeçaram em trabalhos pesados no Canadá e, quatro anos depois, conquistaram residência permanente e novas oportunidades para os três filhos.
Em 2018, os advogados brasileiros Paula Affonso e José Arlan tomaram uma decisão que mudaria completamente a rotina profissional e familiar. Paula tinha 39 anos quando contou sua história à BBC News Brasil, em 2022, e havia deixado no Brasil uma carreira estável no serviço público federal. O marido, José Arlan, também advogado, abandonou o ambiente profissional no qual estava habituado.
Com os três filhos, o casal desembarcou no Canadá disposto a recomeçar, mesmo sabendo que seus diplomas não garantiriam imediatamente empregos equivalentes aos que tinham no Brasil.
Quatro anos depois, a fotografia da família era completamente diferente daquela dos primeiros meses. Paula havia passado por fábrica de alimentos, cafeteria, comércio e funções administrativas enquanto estudava Marketing.
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José trocara os ternos pelo trabalho na construção civil. Nesse intervalo, os cinco conseguiram a residência permanente canadense, compraram uma casa com piscina e dois carros, enquanto os gêmeos Jabes e Carolina, que chegaram ao país aos 14 anos, concluíram o ensino médio e foram aceitos em universidades. O filho caçula, Davi, desembarcou aos 5 anos sem falar inglês e, aos 8, já aparecia nos vídeos da mãe ensinando vocabulário e pronúncia.
Paula deixou uma carreira estável no serviço público federal
O recomeço chama atenção porque Paula não saiu do Brasil sem qualificação ou experiência profissional. Ela era advogada e possuía uma carreira estável no serviço público federal. José Arlan também era advogado. O casal, portanto, fazia parte de um perfil de imigrante qualificado que muitas vezes precisa aceitar uma perda temporária de status profissional ao desembarcar em outro país.
No Canadá, o diploma brasileiro não significou uma continuidade automática na advocacia. Profissões regulamentadas podem exigir processos específicos de reconhecimento, formação complementar e licenciamento.
Em vez de esperar que surgisse imediatamente uma oportunidade equivalente à antiga carreira, Paula decidiu utilizar os estudos como porta de entrada para construir uma trajetória canadense.
Ela voltou para a faculdade e começou praticamente do zero
Paula ingressou em um curso de Marketing no Fanshawe College, em London, na província de Ontário.
O plano exigia investimento financeiro significativo. A reportagem da BBC apontava que, naquele período, um curso de dois anos em uma faculdade canadense poderia chegar a aproximadamente R$ 150 mil, sem incluir documentação, passagens, aluguel, móveis, roupas de inverno e demais despesas da mudança.
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A família possuía uma reserva construída durante os anos de carreira no Brasil, o que permitiu financiar essa primeira etapa.
Isso, porém, não significava que pudessem simplesmente consumir as economias enquanto estudavam. Era necessário trabalhar.
De advogada, Paula virou operária colocando pepperoni em pizzas
Um dos primeiros empregos de Paula estava muito distante da advocacia. Ela passou a trabalhar como operária em uma fábrica, permanecendo cerca de oito horas em pé durante o turno e colocando pepperoni em pizzas. O expediente começava ainda de madrugada.
Depois dessas oito horas, a rotina não necessariamente terminava.
Paula relatou que chegava a emendar outras quatro horas como assistente de marketing em outra empresa, enquanto continuava frequentando o curso.
A jornada ilustra a diferença entre a imagem idealizada de emigrar para um país rico e aquilo que muitas famílias encontram durante os primeiros anos.
Ela também lavou pratos e trabalhou em loja de lingerie
A fábrica não foi seu único trabalho durante o recomeço. Paula também trabalhou como lavadora de pratos em uma cafeteria e como balconista de uma loja de lingerie. Em outros momentos, atuou nas áreas administrativa e jurídica.
Não havia uma progressão linear.
A prioridade era manter a família financeiramente organizada, estudar e acumular experiência profissional canadense suficiente para abrir oportunidades melhores.
Paula resumiu posteriormente que nunca viveu como turista no Canadá. Nos primeiros anos, a preocupação estava em preservar recursos e atravessar a fase de adaptação.
José trocou os ternos de advogado pelo macacão da construção civil
A transformação profissional também atingiu José Arlan. No Brasil, ele trabalhava como advogado. No Canadá, entrou para a construção civil.
A mudança significava não apenas outra profissão, mas um cotidiano fisicamente muito mais exigente.
Paula contou à BBC que, no inverno, José trabalhava completamente protegido contra o frio, deixando praticamente apenas os olhos expostos. No verão, enfrentava temperaturas que podiam chegar perto dos 40 °C e chegou a voltar para casa desidratado.
Em alguns momentos, ele cogitou abandonar o projeto migratório e retornar ao Brasil.
Construção civil acabou oferecendo uma remuneração que o convenceu a permanecer
O esforço físico tinha uma contrapartida. Segundo Paula, José percebeu que profissões como construção, eletricidade, marcenaria e operação de máquinas podiam ser bem remuneradas e socialmente valorizadas no Canadá, mesmo sem a exigência de um diploma universitário tradicional.
A descoberta mudou sua percepção sobre a nova carreira. O antigo advogado decidiu continuar trabalhando no setor mesmo depois das dificuldades dos primeiros períodos.
A trajetória expõe uma característica recorrente entre imigrantes qualificados: a profissão exercida após a mudança nem sempre corresponde à formação acadêmica construída no país de origem.
Os primeiros seis meses foram praticamente trabalho, estudo e casa
O recomeço também teve um custo emocional. Além da rotina intensa, havia distância da família, adaptação cultural, idioma e o inverno canadense.
Paula contou que os domingos eram particularmente difíceis porque, no Brasil, eram associados aos encontros com pais, irmãs e amigos. Depois de três meses no Canadá, uma música brasileira tocando enquanto limpava a casa foi suficiente para provocar uma crise de choro.
A experiência deixa claro que casa, carros e residência permanente vieram depois.
Antes deles houve uma fase em que o objetivo era simplesmente construir as condições necessárias para permanecer no país.
Em 2020, Paula finalmente concluiu o curso de Marketing
Dois anos depois de chegar, Paula concluiu sua formação canadense. Ela se formou no Fanshawe College em 2020. A partir daquele momento, sua capacidade de trabalhar e buscar novas oportunidades profissionais aumentou.
A rota de estudos seguida pela família estava ligada ao sistema canadense que permite, quando os requisitos são cumpridos, que determinados graduados de instituições elegíveis solicitem uma autorização de trabalho após a formação, o chamado Post-Graduation Work Permit.
As regras migratórias canadenses passaram por diversas alterações desde a mudança da família, portanto as condições existentes em 2018 e 2020 não devem ser tratadas como automaticamente válidas para novos candidatos em 2026.
O Canadá concedeu residência permanente à família
O esforço resultou no principal objetivo migratório. Paula, José e os três filhos conseguiram se tornar residentes permanentes do Canadá em 2021.
Eles fizeram parte de um movimento muito maior.
Dados oficiais do Immigration, Refugees and Citizenship Canada mostram que 11.425 brasileiros receberam residência permanente em 2021, colocando o Brasil na sétima posição entre os principais países de origem dos novos residentes permanentes naquele ano.
Ao todo, o Canadá admitiu 405.999 novos residentes permanentes naquele período.
Quatro anos depois, a família tinha casa com piscina e dois carros
Quando Paula conversou com a BBC em 2022, o cenário material também havia mudado. Depois de quatro anos no país, a família possuía uma casa com piscina e dois carros.
Para Paula, entretanto, o ponto principal não era construir uma narrativa de enriquecimento rápido.
Ela própria afirmou que a família não levava uma vida de luxo. O diferencial estava na capacidade de ter acesso a bens, viajar ocasionalmente e construir uma rotina que considerava superior àquela que possuía anteriormente.
A estabilidade veio depois da fase em que advogados precisaram trabalhar em fábrica, cafeteria e construção civil.
Paula transformou a própria experiência migratória em profissão
Sua trajetória profissional continuou mudando. Depois da formação, Paula tornou-se consultora educacional, ajudando interessados em iniciar processos de estudo no Canadá.
Ela também passou a atuar como empresária no setor de aluguel de imóveis e profissionalizou sua presença nas redes sociais, onde compartilhava informações sobre a vida no país com milhares de seguidores.
A mulher que chegara ao Canadá disposta a colocar pepperoni em pizzas durante a madrugada havia encontrado uma forma de transformar a própria experiência em atividade econômica.
Segundo ela, empreender no exterior não fazia parte dos planos iniciais.
Os gêmeos chegaram aos 14 anos e entraram em universidades canadenses
Para Paula, porém, o principal resultado aparecia nos filhos. Os gêmeos Jabes e Carolina chegaram ao Canadá aos 14 anos, cursaram parte da adolescência no sistema educacional local e concluíram o ensino médio canadense.
Aos 18 anos, ambos haviam sido aceitos em universidades. Jabes entrou em Ciências Políticas na Universidade de Toronto, enquanto Carolina foi aceita para estudar Medicina na Western University, em London, conforme o retrato publicado pela BBC em agosto de 2022.
Para os pais, essa possibilidade acadêmica ajudava a justificar os empregos pesados e a perda inicial de status profissional.
Davi chegou aos 5 anos sem falar inglês
A adaptação do filho mais novo ocorreu de maneira diferente. Davi tinha apenas 5 anos quando chegou ao Canadá e não falava inglês.
Três anos depois, aos 8, aparecia nas redes sociais da mãe explicando palavras e corrigindo pronúncias no idioma.
Para Paula, outra mudança era igualmente importante: observar o menino brincando na rua sem a mesma preocupação constante com violência que ela associava à vida anterior da família.
Violência e futuro dos filhos pesaram na decisão
A história da família foi publicada em uma reportagem mais ampla sobre o crescimento da imigração brasileira para o Canadá.
Especialistas ouvidos pela BBC apontaram crise econômica, violência, insegurança sobre o futuro e busca por oportunidades profissionais e educacionais entre os fatores que impulsionavam brasileiros a deixar o país.
No caso de Paula, a recompensa que ela destacava não estava apenas na ascensão profissional. Era observar os três filhos integrados ao país e enxergar possibilidades acadêmicas e profissionais que justificassem o esforço da mudança.
Os gêmeos tinham entrado no ensino superior. O caçula havia dominado rapidamente o idioma. E a família possuía residência permanente.
Quatro anos separaram o terno de advogado da residência permanente
É justamente a sequência que transforma a história da família em uma narrativa incomum de recomeço. No Brasil, havia dois advogados e uma carreira pública federal estável. No Canadá, surgiram uma operária de fábrica, uma lavadora de pratos e um trabalhador da construção civil.
Mas os empregos que poderiam parecer uma queda profissional eram parte de um projeto maior.
Paula voltou à faculdade, concluiu uma formação local, passou a atuar como consultora e empresária. José permaneceu em um setor de trabalho manual que oferecia remuneração suficiente para tornar a escolha profissional atraente.
Enquanto isso, os filhos seguiram um caminho próprio.
Quatro anos depois da chegada, os cinco eram residentes permanentes do Canadá, os gêmeos haviam sido aceitos em universidades, Davi dominava o inglês, e a família tinha comprado uma casa com piscina e dois carros.
Para Paula, o símbolo mais importante da mudança era ainda mais simples: ver o filho menor brincar na rua sem o medo da violência que havia pesado na decisão de deixar o Brasil.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

