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Casal retira 500 toneladas de terra do próprio terreno, carrega tudo à mão por uma encosta de 150 metros e enche cerca de mil sacos para erguer na Patagônia uma casa enterrada na paisagem, com paredes duplas, teto vivo e pedra vulcânica

Casal retira 500 toneladas de terra do próprio terreno, carrega tudo à mão por uma encosta de 150 metros e enche cerca de mil sacos para erguer na Patagônia uma casa enterrada na paisagem, com paredes duplas, teto vivo e pedra vulcânica

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Casal retira 500 toneladas de terra do próprio terreno, carrega tudo à mão por uma encosta de 150 metros e enche cerca de mil sacos para erguer na Patagônia uma casa enterrada na paisagem, com paredes duplas, teto vivo e pedra vulcânica

Escrito por Ana Alice

Publicado em 08/08/2026 às 18:46

Construção

Casal move 500 toneladas de terra à mão na Patagônia e usa sacos, pedra-pomes e paredes duplas para construir uma casa sustentável. (Imagem: Ilustrativa)

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Na Patagônia chilena, um casal transformou terra retirada do próprio terreno em paredes, isolamento e estrutura, enfrentando uma encosta íngreme, clima extremo e sucessivas mudanças de projeto para erguer uma casa integrada à paisagem.

Em uma encosta próxima de La Junta, na Patagônia chilena, Paul Coleman e Konomi Kikuchi decidiram construir a própria casa utilizando principalmente aquilo que encontravam sob os pés.

O projeto recorreu à técnica conhecida como earthbag, na qual sacos são preenchidos com terra, compactados e empilhados para formar paredes.

Segundo o relato dos próprios construtores, cerca de 500 toneladas de terra foram movimentadas manualmente durante a obra, enquanto materiais que não estavam disponíveis no terreno precisaram vencer uma subida íngreme de aproximadamente 150 metros.

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A casa ganhou ainda paredes múltiplas, cobertura de vegetação, sistemas para afastar a umidade e uma camada de pedra-pomes encontrada durante as escavações.

O casal associou esse material vulcânico ao Melimoyu, um vulcão dos Andes da Patagônia chilena que permanece adormecido há séculos, embora tenha registrado grandes erupções durante o Holoceno.

A história começou no fim dos anos 2000 e já estava em plena fase de construção em 2010.

Naquele ano, amigos chegaram à região para ajudar Paul e Konomi a erguer partes das paredes.

Em outubro de 2011, o projeto já era apresentado pelo Earthbag Building como “Our Little Thing in Patagonia”, com os números de 500 toneladas de terra movimentadas à mão e da encosta de 150 metros divulgados pelos proprietários.

Terra retirada do terreno virou material para as paredes

O plano inicial do casal era mais ambicioso do que a construção que surgiria primeiro na encosta.

Paul e Konomi haviam projetado uma residência de dois quartos com jardim de inverno e quatro estruturas em forma de domo conectadas por paredes curvas.

À medida que enfrentaram o clima e perceberam quanto trabalho seria necessário, decidiram simplificar o projeto e construir estruturas menores antes de avançar para os domos planejados.

A localização precisava atender a uma exigência fundamental.

Quanto menor fosse a distância entre a escavação e as paredes, menos terra precisaria ser transportada pelo terreno.

Para apenas dois dos domos planejados, Paul estimou que seriam necessários mais de 50 metros cúbicos de solo e aproximadamente 2 mil sacos.

Foi então que surgiu uma solução simples: em vez de abrir uma grande vala em outro ponto da propriedade e depois carregar a terra, eles aproveitaram diretamente o material retirado das fundações e do rebaixamento da própria área da construção.

“Vamos cavar e usar o solo para encher os sacos no próprio local”, relatou Paul ao descrever a mudança de estratégia.

A decisão reduziu parte do transporte horizontal de terra, mas não eliminou o esforço físico associado à obra.

O terreno era remoto, e materiais, ferramentas, madeira, janelas e outros componentes precisavam ser levados até a área de construção pela encosta.

Sacos preenchidos e compactados formam as paredes da casa construída à mão por Paul e Konomi em uma encosta da Patagônia chilena. Crédito: Paul Coleman e Konomi Kikuchi/Our Little Thing.

Como funciona uma casa construída com earthbags

A lógica básica da técnica é relativamente simples.

Sacos resistentes são preenchidos com terra úmida, posicionados em sucessivas fileiras e compactados até adquirirem forma semelhante à de grandes blocos.

Entre as camadas, pode ser colocado arame farpado para aumentar o atrito e impedir o deslocamento dos sacos.

O sistema é semelhante ao princípio adotado pelo SuperAdobe desenvolvido pelo arquiteto Nader Khalili, embora existam diferentes métodos e variações de construção com terra ensacada.

A CalEarth, instituição fundada por Khalili, descreve terra local, sacos, arame farpado, pás e compactadores entre os elementos básicos dessa técnica.

No projeto de Paul e Konomi, eles utilizaram sacos de polipropileno preenchidos e compactados manualmente.

Uma forma de madeira servia para dar formato mais regular às unidades antes de serem colocadas nas paredes.

Os primeiros sacos de aproximadamente 50 quilos mostraram-se difíceis de manipular.

O casal então encontrou unidades menores, com capacidade próxima de 25 quilos, e adaptou a forma de madeira para facilitar o trabalho.

A documentação do projeto afirma que mil sacos de polipropileno reciclados foram utilizados na construção da casa e em diferentes elementos associados ao projeto, como muros de contenção e outras estruturas.

Esse dado exige uma ressalva em relação ao título: a previsão inicial falava em cerca de 2 mil sacos para dois domos, mas a descrição posterior da construção concluída registra aproximadamente mil sacos reciclados utilizados.

Casa construída por Paul Coleman e Konomi Kikuchi na Patagônia chilena aparece parcialmente envolvida pela vegetação usada para proteger a estrutura e integrá-la à encosta. Crédito: Paul Coleman e Konomi Kikuchi/Our Little Thing.

Casal testou a terra antes de preencher os sacos

Nem todo solo retirado do terreno servia da mesma maneira.

Paul e Konomi realizaram testes simples para observar a composição da terra.

Em um deles, colocaram uma amostra dentro de um recipiente de vidro com água e deixaram o material repousar para que areia, partículas finas e argila se separassem.

Segundo o relato do casal, o solo apresentou aproximadamente 25% de argila, proporção que consideraram adequada para o sistema utilizado.

Eles também moldavam bolas de terra e as deixavam cair para observar se permaneciam inteiras.

A camada superficial do terreno, por outro lado, foi separada.

O casal evitou colocar o solo rico em matéria orgânica dentro dos sacos por temer que raízes e outros componentes vegetais provocassem alterações posteriores no material.

Durante a retirada dessa camada, surgiu outro componente que mudaria o projeto.

Escavação revelou pedra-pomes de origem vulcânica

Sob o solo superficial, Paul e Konomi encontraram uma camada alaranjada de pedra-pomes, rocha vulcânica extremamente porosa.

O casal atribuiu o depósito a uma antiga erupção do vulcão Melimoyu e decidiu aproveitar parte do material na construção.

A pedra possui grande quantidade de pequenos vazios formados durante o rápido resfriamento de material vulcânico rico em gases, característica que reduz sua densidade e pode favorecer seu uso como material leve em determinadas soluções construtivas.

Paul e Konomi utilizaram esse material tanto em sacos quanto em componentes das paredes, procurando melhorar o comportamento térmico do imóvel.

Material vulcânico poroso encontrado sob o solo da propriedade foi separado durante a obra e aproveitado pelo casal em componentes da construção. Crédito: Paul e Konomi Coleman/EarthbagBuilding

Paredes duplas foram adaptadas ao clima úmido da Patagônia

O maior desafio surgiu quando o casal precisou conciliar terra compactada com um dos ambientes mais úmidos do sul do Chile.

O plano original previa revestir a estrutura de earthbags com uma mistura natural de terra e fibras.

Na prática, a umidade dificultou a secagem.

Anos depois, Paul explicou que a solução foi criar uma segunda parede ligeiramente curva ao redor da estrutura original, deixando espaço entre as duas e acrescentando uma fina camada de poliestireno disponível na região.

A parte externa recebeu também uma membrana plástica para dificultar a entrada de água.

Terra e placas de isolamento foram estendidas ao redor do imóvel, e muros de contenção passaram a controlar a pressão do terreno.

Por cima, o casal recolocou blocos de vegetação retirados do próprio solo.

O resultado deixou boa parte da casa visualmente integrada à encosta.

A estrutura de earthbags começa a desaparecer sob camadas de terra e turfa instaladas para proteger a casa do clima úmido e dos ventos da Patagônia. Crédito: Paul e Konomi Coleman/EarthbagBuilding

Casas de turfa da Islândia inspiraram parte da construção

A ideia de envolver a construção com vegetação não surgiu por acaso.

Paul havia conhecido casas tradicionais cobertas por turfa durante uma viagem pela Islândia em 1988 e decidiu adaptar parte desse princípio à Patagônia.

A vegetação era colocada sobre o sistema impermeável para proteger as paredes e aumentar a massa ao redor da residência.

O casal também construiu sistemas de drenagem para conduzir a água da chuva para longe da estrutura.

Esse detalhe era especialmente importante porque, no caso da casa de Paul e Konomi, manter o terreno imediatamente ao redor seco fazia parte da estratégia térmica.

Em vez de isolar apenas o interior, a intenção era utilizar uma grande massa de terra protegida da chuva como reservatório térmico.

O projeto incorporou princípios inspirados no chamado Passive Annual Heat Storage, sistema que procura aproveitar a estabilidade térmica do solo e reduzir oscilações de temperatura dentro de construções parcialmente integradas ao terreno.

Projeto da casa mudou conforme surgiram problemas

Grande parte da construção não seguiu um desenho definitivo elaborado antes da primeira escavação.

O casal alterava soluções conforme encontrava obstáculos.

Chuva prolongada, atraso na chegada da madeira, congelamento das paredes ainda úmidas e dificuldade para obter determinados materiais obrigaram Paul e Konomi a modificar detalhes várias vezes.

Até o telhado passou por revisões.

A ideia inicial de construir estruturas menores para acomodar voluntários terminou contribuindo para uma residência permanente que incorporava earthbags, madeira, vegetação, pedra vulcânica e soluções de drenagem.

Em 2010, um amigo do casal, Cliff Spenger, viajou até a Patagônia para ajudar especificamente na construção das paredes laterais da casa de terra e turfa, confirmando que o trabalho coletivo descrito pelos proprietários ocorreu durante essa fase do projeto.

Casa continuou evoluindo depois que o casal passou a viver nela

A experiência não terminou com as primeiras paredes.

Em um relato publicado em 2020, Paul afirmou que a residência havia sido ampliada ao longo dos anos para incluir espaços como jardim de inverno, cozinha e áreas ligadas a uma estufa.

Segundo medições informais relatadas por ele, quando um pequeno fogão a lenha foi instalado no inverno de 2010, a temperatura interna podia cair para cerca de 2 °C nas manhãs em que o exterior estava a -5 °C e o fogo permanecia apagado.

Dez anos depois, Paul dizia observar aproximadamente 12 °C no interior sob condições externas semelhantes, usando o fogão apenas durante algumas horas do dia.

Paul e Konomi continuam ligados ao terreno na Patagônia

O projeto não aparece apenas em páginas antigas de construção sustentável.

No site mantido atualmente por Paul Coleman, ele afirma continuar vivendo com Konomi perto de La Junta, na Patagônia chilena, na propriedade onde desenvolveram uma pequena área agrícola baseada em práticas sustentáveis.

A antiga pastagem recebeu árvores nativas, árvores frutíferas, jardins, estufas e reservatórios utilizados para captar água.

A casa, portanto, acabou se tornando apenas uma parte de uma transformação mais ampla do terreno.

O que começou com sacos vazios, pás e a terra escavada ao lado da fundação evoluiu para uma residência parcialmente incorporada à encosta, protegida por vegetação e adaptada a um ambiente de chuva, vento e frio.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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