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Catador que trabalhava desde os 11 anos em aterro com 7 mil toneladas diárias virou protagonista de retrato monumental feito com o próprio lixo, viu a obra arrecadar mais de US$ 64 mil em Londres e levou a história de Jardim Gramacho ao Oscar

Catador que trabalhava desde os 11 anos em aterro com 7 mil toneladas diárias virou protagonista de retrato monumental feito com o próprio lixo, viu a obra arrecadar mais de US$ 64 mil em Londres e levou a história de Jardim Gramacho ao Oscar

RJ

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Catador que trabalhava desde os 11 anos em aterro com 7 mil toneladas diárias virou protagonista de retrato monumental feito com o próprio lixo, viu a obra arrecadar mais de US$ 64 mil em Londres e levou a história de Jardim Gramacho ao Oscar

Escrito por Caio Aviz

Publicado em 24/08/2026 às 16:40

Atualizado em 24/08/2026 às 16:41

Curiosidades

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Cena ilustrativa mostra um coordenador observando catadores durante a separação de resíduos recicláveis, atividade que inspirou os retratos monumentais do projeto Pictures of Garbage.

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Sebastião “Tião” Santos presidia uma associação de catadores no antigo aterro de Jardim Gramacho quando participou do projeto Pictures of Garbage, de Vik Muniz. Materiais recicláveis formaram seu retrato, a obra chegou ao mercado internacional e o processo virou o documentário Lixo Extraordinário.

Garrafas, tampas, pneus, tecidos, metais, embalagens e outros materiais ocupam o chão de um grande galpão. Vistos de perto, parecem apenas objetos retirados de uma montanha de resíduos.

À medida que o observador se afasta, porém, os materiais revelam braços, roupas, sombras e um rosto. No centro da composição aparece Sebastião Carlos dos Santos, conhecido como Tião, catador que começou a trabalhar aos 11 anos e se tornou presidente da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, a ACAMJG.

A imagem fazia parte de Pictures of Garbage, projeto desenvolvido pelo artista brasileiro Vik Muniz com trabalhadores de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. Em vez de aparecerem apenas como personagens retratados, os catadores participaram da montagem das enormes composições.

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O trabalho transformou materiais recuperados do próprio aterro em retratos monumentais, levou aquelas histórias ao circuito internacional de arte e deu origem ao documentário Waste Land, lançado no Brasil como Lixo Extraordinário.

Jardim Gramacho recebia cerca de 7 mil toneladas de resíduos por dia

Localizado na região da Baixada Fluminense, próximo à Baía de Guanabara, o Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho foi durante décadas o destino de grande parte dos resíduos produzidos no Rio de Janeiro e nos municípios próximos.

Na época retratada pelo projeto, o local recebia aproximadamente 7 mil toneladas de resíduos diariamente, o equivalente a cerca de 70% do lixo recolhido no Rio e em cidades vizinhas, segundo o material de apresentação do documentário.

Entre caminhões, máquinas e montanhas de descarte, milhares de catadores separavam plástico, papel, metal, vidro e outros itens que ainda podiam ser vendidos para a cadeia de reciclagem.

Era um trabalho fisicamente desgastante, sujeito ao calor, à chuva, aos acidentes e ao contato permanente com materiais perigosos. Ao mesmo tempo, os catadores exerciam uma atividade ambiental importante ao retirar grandes quantidades de recicláveis do fluxo de resíduos.

Foi nesse espaço que Vik Muniz decidiu desenvolver um projeto artístico. A proposta inicial envolvia fotografar os trabalhadores e utilizar os materiais encontrados no aterro para reconstruir essas imagens em escala monumental.

Tião começou a trabalhar como catador aos 11 anos e ajudou a organizar os trabalhadores

Entre as pessoas conhecidas durante o projeto estava Sebastião Carlos dos Santos, o Tião. Ele trabalhava como catador desde os 11 anos e havia assumido uma posição de liderança entre os trabalhadores de Jardim Gramacho.

Tião presidia a ACAMJG, organização criada para defender os direitos dos catadores, melhorar as condições de trabalho e fortalecer o reconhecimento profissional da categoria.

De acordo com a apresentação oficial de Waste Land, parte de sua formação política ocorreu de maneira incomum. Tião encontrava livros e textos descartados no aterro, guardava alguns desses materiais e utilizava as leituras para compreender temas relacionados à organização social e aos direitos dos trabalhadores.

Sua atuação exigia convencer outros catadores de que a união poderia produzir resultados concretos. Em um ambiente marcado pela informalidade e pela insegurança econômica, a associação buscava acesso a equipamentos, contratos, capacitação e melhores condições para comercializar os recicláveis.

Foi essa trajetória que levou Tião ao centro de uma das imagens mais conhecidas de Pictures of Garbage.

Catadores percorrem uma extensa área de resíduos enquanto separam materiais recicláveis em uma cena ilustrativa inspirada no trabalho realizado em Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro.

Catadores montaram enormes retratos com materiais retirados do próprio aterro

O processo começava com fotografias dos trabalhadores. Depois, as imagens eram projetadas em grande escala sobre o piso de um galpão, criando as linhas que orientariam a montagem.

Os catadores ajudavam a distribuir os materiais sobre essas projeções. Tampas podiam formar os contornos de um rosto; pedaços de tecido apareciam como roupas; pneus, plásticos, metais e objetos quebrados definiam volumes, sombras e detalhes.

Quando a composição estava concluída, ela era fotografada de cima. A obra final não era o amontoado de materiais mantido no chão, mas a fotografia produzida a partir daquela instalação temporária.

Tião foi representado em “Marat (Sebastião)”, imagem inspirada em A morte de Marat, pintura realizada em 1793 pelo francês Jacques-Louis David.

Na releitura, o catador assume a posição do revolucionário Jean-Paul Marat. A banheira, os tecidos, o corpo e os objetos ao redor foram reconstruídos com materiais recolhidos em Jardim Gramacho.

A escolha colocou um trabalhador frequentemente ignorado pela sociedade na posição ocupada por uma figura histórica dentro de uma obra consagrada. Tião não aparecia como parte indistinta da paisagem do aterro, mas como protagonista de um retrato monumental.

Outros catadores também participaram da série e deram origem a obras como “The Sower (Zumbi)”, “Atlas (Carlão)”, “Mother and Children (Suellen)”, “Ironing Woman (Isis)” e “The Gipsy (Magna)”. A galeria oficial de Vik Muniz registra esses trabalhadores pelos nomes e personagens associados às imagens.

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Caio Aviz

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Retrato de Tião arrecadou US$ 64.097 em leilão realizado em Londres

O retrato de Tião ultrapassou os limites do galpão onde havia sido montado. A fotografia de “Marat (Sebastião)” foi levada a um leilão da Phillips de Pury, em Londres.

A venda arrecadou US$ 64.097, segundo o material oficial do documentário. O valor foi destinado à associação dos catadores de Jardim Gramacho.

Mais tarde, os recursos provenientes das vendas ligadas à série alcançaram aproximadamente US$ 250 mil, conforme o registro biográfico de Vik Muniz. O dinheiro ajudou a financiar diferentes necessidades dos trabalhadores e da ACAMJG.

Entre as aplicações informadas estavam a manutenção da associação, compra de caminhões e equipamentos, construção ou reforma de moradias e implantação de uma biblioteca, uma sala com computadores e um centro de aprendizagem.

O site do documentário registra que a biblioteca organizada na associação chegou a reunir mais de 7 mil livros. O espaço também passou a receber cursos de informática, reciclagem, gestão ambiental e administração de cooperativas.

Parte dos recursos ainda ajudou participantes individualmente. Irma, conhecida por preparar refeições para os catadores, conseguiu montar um pequeno negócio de comida. Outros trabalhadores puderam buscar novas ocupações ou melhorar suas condições de moradia.

Lixo Extraordinário levou os catadores ao cinema internacional

A criação dos retratos foi acompanhada pela diretora britânica Lucy Walker. O processo resultou no documentário Waste Land, conhecido no Brasil como Lixo Extraordinário.

Filmado ao longo de aproximadamente três anos, o documentário acompanha o encontro entre Vik Muniz e os trabalhadores, a seleção dos participantes, a produção das fotografias e os efeitos provocados pelo projeto.

Embora a presença de Vik tenha ajudado a levar as obras ao circuito internacional, o filme dedica grande parte de sua narrativa aos próprios catadores. Tião, Zumbi, Suelem, Isis, Irma, Magna e Valter aparecem contando suas histórias, dificuldades, ideias e planos.

O documentário conquistou o prêmio do público na categoria de documentário internacional no Festival de Sundance de 2010, recebeu prêmios no Festival de Berlim e foi indicado ao Oscar de melhor documentário na cerimônia de 2011.

Para Tião, o resultado mais importante não se limitou ao dinheiro arrecadado. Ele avaliou que o filme contribuiu para combater o estigma associado aos catadores e fez mais pessoas perceberem a importância social e ambiental daquele trabalho.

Projeto transformou lixo em arte sem retirar dos catadores o protagonismo

Pictures of Garbage pode ser observado como um projeto sobre fotografia, reciclagem e transformação de materiais. No entanto, seu alcance depende principalmente das pessoas colocadas diante da câmera e envolvidas na construção das imagens.

Os resíduos foram utilizados como matéria-prima, mas Tião e os demais catadores não eram parte do lixo. Eles possuíam nomes, famílias, experiências, conhecimentos e formas próprias de organização.

Ao transformar esses trabalhadores em protagonistas de retratos monumentais, o projeto deslocou por alguns instantes o olhar que normalmente recaía sobre Jardim Gramacho. O aterro deixou de aparecer somente como cenário de pobreza e degradação e passou a revelar pessoas que organizavam uma cadeia de reciclagem, defendiam direitos e construíam alternativas coletivas.

O retrato de Tião saiu de uma composição feita no chão, chegou a um leilão internacional e ajudou a financiar a associação que ele presidia. Paralelamente, o documentário levou sua imagem e sua atuação para festivais, cinemas e uma indicação ao Oscar.

Mais do que transformar materiais descartados em fotografias, o trabalho mostrou como os catadores podiam participar da criação das próprias representações e ocupar espaços dos quais historicamente estiveram afastados.

Você acredita que projetos artísticos conseguem modificar de maneira duradoura a forma como a sociedade enxerga trabalhadores que normalmente permanecem invisíveis? Compartilhe sua opinião nos comentários.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

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