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Celinho vive há décadas em um pequeno sítio no interior de Minas, planta o próprio feijão, cria animais e mantém um antigo engenho para produzir rapadura: “O que sobra nós vende”

Celinho vive há décadas em um pequeno sítio no interior de Minas, planta o próprio feijão, cria animais e mantém um antigo engenho para produzir rapadura: “O que sobra nós vende”

MG

7 min de leitura

Celinho vive há décadas em um pequeno sítio no interior de Minas, planta o próprio feijão, cria animais e mantém um antigo engenho para produzir rapadura: “O que sobra nós vende”

Escrito por Felipe Alves da Silva

Publicado em 21/08/2026 às 14:00

Atualizado em 21/08/2026 às 14:01

Curiosidades

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Em um pequeno sítio no interior de Minas Gerais, a rotina reúne plantio de feijão, criação de animais e produção artesanal de rapadura.

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Entre o roçado, os animais e a produção artesanal, Celinho e Isabel mantêm uma rotina rural marcada pelo trabalho: aposentados, eles ainda produzem parte do que consomem e vendem o excedente

Quando Celinho voltou do roçado naquele dia, havia acabado de plantar feijão com uma matraca. Era pouco, segundo ele, e destinado principalmente ao consumo da própria casa. A cena ajuda a explicar como funciona a vida que ele e a esposa, Isabel, mantêm em um pequeno sítio no interior de Minas Gerais.

A história foi registrada pelo canal Na Roça, que visitou a propriedade e mostrou de perto a rotina de Celinho e Isabel, da antiga casa onde viveram por décadas ao roçado, aos animais e ao engenho artesanal usado na produção de rapadura.

Ali, aposentadoria e produção rural convivem lado a lado. O casal planta, cria animais e transforma parte do que produz. Há leite, queijo, ovos, feijão, café e rapadura. Quando sobra alguma coisa, ela pode se transformar em renda.

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“O que sobra nós vende”, resume Celinho.

A simplicidade atual, porém, esconde uma trajetória em que até itens básicos chegaram a exigir esforço. Celinho lembra que viveu durante décadas em uma pequena casa construída por ele com a ajuda do pai, em uma época na qual não havia água encanada dentro da residência.

Hoje existe outra casa, com banheiro, chuveiro e água. Curiosamente, quando olha para a construção antiga de chão de terra onde passou boa parte da vida, ele ainda demonstra um carinho especial.

Uma casa simples construída quando o dinheiro não permitia fazer algo melhor

Imagem: Divulgação/YouTube-Canal Na Roça

A antiga residência permanece de pé no sítio. Celinho estima ter morado nela por aproximadamente 30 anos.

Foi ele próprio quem a construiu com o pai. Por dentro, as paredes receberam cal; por fora, a estrutura conserva características de uma construção simples feita com barro e pau a pique.

O chão era de terra. Havia fogão a lenha, um pequeno quarto e a cozinha.

A explicação de Celinho para a escolha daquele tipo de construção é direta: naquele momento da vida, não havia dinheiro suficiente para levantar uma casa melhor.

“É uma casa que naquele momento eu não tinha dinheiro para fazer uma casa melhorzinha”, recorda.

A ideia era começar com o que estava ao alcance e, no futuro, construir outra residência. O plano acabou funcionando. Com o passar do tempo, uma nova casa foi erguida e o casal se mudou.

A antiga, entretanto, não desapareceu. Celinho pretende preservá-la e fazer reparos.

Água era buscada fora e banho era tomado em uma bacia

As diferenças entre as duas casas mostram também como as condições de vida da família mudaram.

Na antiga residência, não havia torneira nem água encanada. A água vinha de uma mina e precisava ser carregada até a casa. Para tomar banho, a solução era uma bacia.

O banheiro, segundo a lembrança de Celinho, era o próprio mato.

Na casa atual, a realidade é diferente. Há água dentro da residência, banheiro e chuveiro.

Mesmo com o conforto conquistado posteriormente, Celinho diz preferir a antiga construção. Segundo ele, a casa de terra é mais fresca.

“Mesmo assim eu gosto mais daqui”, afirma ao falar da velha casa.

A construção acaba funcionando como uma espécie de registro material de uma fase da vida do casal: pouca infraestrutura, recursos limitados e uma rotina diretamente ligada ao trabalho rural.

Houve época em que uma galinha precisava virar dinheiro para comprar açúcar

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Celinho também não romantiza as dificuldades enfrentadas no começo do casamento.

Ele conta que tinha 28 anos quando se casou e estima estar ao lado de Isabel há quase quatro décadas. Segundo seu relato, houve períodos em que o dinheiro era tão curto que era necessário vender aquilo que havia disponível para conseguir comprar produtos básicos.

“Eu quando eu casei, eu passei aperto que não sei não.”

Uma das lembranças é particularmente concreta: em determinados dias, precisava vender uma galinha para conseguir comprar 5 quilos de açúcar.

“Não tinha dinheiro”, conta.

Isabel, segundo ele, permaneceu ao seu lado durante esse período. Quando perguntado se a esposa esteve sempre junto, respondeu sem hesitação:

“Junto, sempre junto.”

Décadas depois, a situação descrita por Celinho é diferente. Ele afirma que atualmente as contas estão mais controladas.

A aposentadoria paga parte das contas, mas o sítio continua produzindo

Quando questionado sobre de onde vem a renda atual da família, Celinho explica que os dois são aposentados.

O trabalho no sítio, entretanto, não parou.

Parte do que é produzido serve para a própria casa. Outra parte pode ser comercializada e gerar um dinheiro adicional.

O casal vende ovos, queijo, rapadura e leite. Também mantém pequenas plantações. Há feijão para consumo e uma pequena lavoura de café.

O princípio é simples: primeiro vem a necessidade da família; aquilo que excede pode ser vendido.

No dia da gravação, por exemplo, Celinho havia acabado de voltar do plantio de feijão. Disse ter plantado apenas cerca de um litro de sementes naquele trecho e que pretendia plantar mais em outra área.

Para chegar ao roçado, foi a cavalo.

É uma rotina em que técnicas antigas continuam presentes não como demonstração histórica, mas como ferramentas efetivamente utilizadas.

O feijão ainda é plantado com matraca e o deslocamento pode ser feito a cavalo

‘Matraca’- Imagem: Divulgação/YouTube-Canal Na Roça

A matraca usada por Celinho é um equipamento manual para depositar sementes e adubo no solo.

Ele demonstra como regula o equipamento de acordo com a semente e como o movimento abre o solo durante o plantio.

Celinho lembra que já trabalhou muito dessa maneira. No passado, chegou a plantar quantidades bem maiores de feijão usando a ferramenta.

Os animais continuam ocupando espaço importante na propriedade. Há cavalos, burro, bois, vacas, porcos e aves.

Celinho diz não ter interesse por automóvel e conta que prefere montar a cavalo.

A justificativa diz muito sobre sua relação com a vida rural: andando dessa maneira, segundo ele, é possível observar melhor aquilo que existe pelo caminho.

Duas vacas fornecem leite e parte dele vira queijo

A produção de leite é pequena e voltada à escala da propriedade.

Celinho relata retirar aproximadamente 10 litros de duas vacas. Parte desse leite é usada para fazer queijo.

Não existe, no relato, a imagem de uma grande propriedade especializada ou de uma produção industrial. O que aparece é uma economia doméstica rural diversificada, em que várias atividades pequenas se complementam.

O mesmo acontece com o feijão, os ovos e a rapadura.

Essa combinação ajuda a explicar por que o sítio continua exigindo trabalho mesmo depois da aposentadoria do casal.

E é no engenho que uma das práticas mais tradicionais da propriedade permanece funcionando.

Um antigo engenho movido a cavalo continua transformando cana em rapadura

Engenho – Imagem: Divulgação/YouTube-Canal Na Roça

O engenho usado por Celinho funciona com força animal.

Um cavalo caminha em círculos e movimenta o mecanismo que esmaga a cana. A garapa segue por um sistema de canalização até a área onde será levada ao fogo.

Celinho começa cedo quando chega o dia da produção.

“É uma hora da manhã eu pego aqui para moer”, conta.

A produção é feita em etapas. Segundo ele, uma jornada pode envolver quatro tachadas.

O processo continua essencialmente artesanal. Há o engenho, os recipientes, o gamelão usado para trabalhar a rapadura e utensílios guardados para cada fase da fabricação.

Celinho afirma produzir a rapadura pura e clara. O produto não fica restrito à própria casa: compradores procuram a propriedade para buscar as encomendas.

A rapadura produzida no sítio já chegou, segundo o relato apresentado na gravação, a localidades da região.

Uma vida que mudou sem abandonar completamente o que havia antes

Imagem: Divulgação/YouTube-Canal Na Roça

A história de Celinho e Isabel não é simplesmente a de duas pessoas que escolheram abandonar o conforto urbano para viver no campo.

O sítio é resultado de uma trajetória construída ao longo de décadas.

Primeiro veio a pequena casa possível naquele momento. Depois, outra residência, com água encanada, banheiro e chuveiro. A situação financeira melhorou e a aposentadoria passou a compor a renda.

Algumas coisas, entretanto, permaneceram.

O feijão continua indo para a terra. O cavalo ainda pode levar Celinho até o roçado. As vacas fornecem leite. Parte vira queijo. O engenho continua moendo cana e a rapadura ainda encontra compradores.

Talvez por isso a velha casa de chão batido continue de pé.

Mesmo depois de conquistar uma residência mais estruturada, Celinho olha para o lugar onde viveu durante tantos anos e diz preferi-lo.

É ali que permanece uma parte visível da história de um casal que atravessou tempos em que faltava dinheiro até para comprar açúcar e chegou a uma fase em que a propriedade ajuda a colocar comida na mesa e ainda gera algum dinheiro com aquilo que sobra.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

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