RS
5 min de leitura
Cidade brasileira no interior do RS foi construída sobre uma floresta petrificada de 230 milhões de anos, com fósseis preservados até em calçadas
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 10/08/2026 às 08:56
Atualizado em 10/08/2026 às 08:57
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Floresta petrificada de Mata, no RS, preserva troncos de 230 milhões de anos em ruas, praças, encostas e no Jardim Paleobotânico.
Uma floresta petrificada com aproximadamente 230 milhões de anos faz parte da rotina dos moradores de Mata, no interior do Rio Grande do Sul. Troncos fossilizados podem ser encontrados em encostas, áreas protegidas e até incorporados a espaços urbanos, como praças, escadarias e calçadas, transformando a pequena cidade em um dos raros lugares onde vestígios do período Triássico convivem diretamente com construções atuais.
O valor científico desse conjunto ultrapassa o aspecto visual. O Serviço Geológico do Brasil considera os Sítios Paleobotânicos do Arenito Mata entre as mais importantes florestas petrificadas do planeta, justamente porque os fósseis preservam estruturas capazes de ajudar pesquisadores a compreender antigos ambientes, mudanças climáticas e etapas da história geológica da Terra.
Floresta petrificada ainda preserva detalhes das antigas árvores
Mesmo transformados em rocha, alguns troncos mantêm marcas que lembram claramente sua origem vegetal. Anéis, rachaduras, veios e outras estruturas internas permaneceram registrados depois de milhões de anos de transformação mineral.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul, o processo começou após uma grande enchente derrubar a vegetação existente na região durante o Triássico. Com o soterramento, minerais passaram lentamente a ocupar os espaços antes preenchidos por material orgânico.
A sílica e o dióxido de silício substituíram gradualmente componentes como a celulose, sem apagar totalmente a organização microscópica dos tecidos vegetais. Foi essa mineralização que permitiu à floresta petrificada sobreviver em forma de rocha até os dias atuais.
Fósseis não estão confinados a um único parque
Uma característica incomum de Mata é a distribuição dos vestígios pela própria cidade. Os lenhos silicificados aparecem tanto em terrenos naturais quanto em locais modificados pela ocupação humana, aproximando patrimônio científico e cotidiano.
Entre os principais pontos relacionados à presença desses fósseis estão:
- encostas onde troncos continuam aflorando naturalmente;
- Igreja Matriz Santo Antônio, com elementos ornamentados com fósseis;
- Jardim Paleobotânico, que mantém exemplares no próprio local de origem;
- Praça Santo Brugalli, onde fragmentos fazem parte da paisagem urbana.
Essa presença espalhada tornou a floresta petrificada um elemento da identidade local, e não apenas um conjunto de peças guardadas em museus ou laboratórios.
Padre ajudou a transformar fósseis em símbolo de Mata
A valorização desse patrimônio ganhou força durante a década de 1970 com a atuação do padre Daniel Cargnin. Ele percebeu a necessidade de proteger os troncos fossilizados e participou do movimento que aproximou essas peças do espaço urbano e da memória da cidade.
Em 1977, a Igreja Matriz Santo Antônio recebeu intervenções que incluíram escadarias, praça, cruz e calçadas ornamentadas com material fossilizado. A utilização dos fragmentos também contribuiu para tornar visível uma riqueza paleontológica que antes poderia passar despercebida.
A relação entre moradores e fósseis acabou criando uma paisagem difícil de encontrar em outras regiões. Em Mata, elementos de uma floresta petrificada pré-histórica aparecem ao lado de construções religiosas e áreas de convivência utilizadas diariamente.
Jardim Paleobotânico conserva troncos onde foram encontrados
Parte importante desse patrimônio permanece protegida no Jardim Paleobotânico de Mata. O local ocupa aproximadamente 3,6 hectares e preserva exemplares chamados de in situ, expressão utilizada quando o fóssil continua no ponto onde foi originalmente encontrado.
A área foi delimitada em 1980 por meio de uma parceria entre a prefeitura e a Universidade Federal de Santa Maria. A iniciativa criou um espaço voltado simultaneamente para conservação, pesquisa científica, educação e visitação.
Décadas depois, em 19 de junho de 2018, o governo estadual tombou o jardim e realizou seu registro no Livro Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. A medida reconheceu oficialmente a importância científica e paisagística da floresta petrificada.
Troncos funcionam como registro de um mundo desaparecido
Os fósseis preservados em Mata não servem apenas para identificar espécies vegetais antigas. A estrutura dos lenhos e os sedimentos associados podem fornecer informações sobre condições ambientais existentes durante o Triássico.
Esse tipo de registro ajuda cientistas a reconstruir períodos para os quais não existe qualquer documentação humana. Alterações do clima, características da vegetação e processos geológicos podem ser investigados a partir de evidências preservadas nas próprias rochas.
Por isso, cada tronco é também uma espécie de arquivo natural. As formas que hoje aparecem nas ruas e encostas começaram a ser produzidas muito antes do surgimento das paisagens brasileiras atuais.
Assista o vídeo
Floresta petrificada aproxima ciência e vida cotidiana
A relevância de Mata está justamente na combinação entre preservação científica e ocupação urbana. Enquanto o Jardim Paleobotânico mantém fósseis em seu contexto natural, outras peças integram espaços utilizados por moradores e visitantes.
O inventário federal indica acesso ao município pelas rodovias BR-287 e RS-532, com aproximadamente 12,45 quilômetros de percurso até a região central. Ao chegar à cidade, porém, o visitante não encontra apenas um ponto isolado de interesse paleontológico.
A floresta petrificada aparece em diferentes partes da paisagem, mostrando como uma catástrofe natural ocorrida há cerca de 230 milhões de anos terminou preservada em pleno interior gaúcho. O que hoje parece pedra já foi madeira de uma floresta inteira, e a cidade cresceu justamente sobre os vestígios desse passado.
Fonte
Olhar Digital
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

