Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Cientistas entram em caverna na Nova Zelândia e desenterram um “mundo perdido” preservado por cerca de 1 milhão de anos entre camadas de cinzas vulcânicas, com 12 tipos aves desconhecidas, sapos antigos e espécies que a ciência nunca havia descrito

Cientistas entram em caverna na Nova Zelândia e desenterram um “mundo perdido” preservado por cerca de 1 milhão de anos entre camadas de cinzas vulcânicas, com 12 tipos aves desconhecidas, sapos antigos e espécies que a ciência nunca havia descrito

6 min de leitura

Cientistas entram em caverna na Nova Zelândia e desenterram um “mundo perdido” preservado por cerca de 1 milhão de anos entre camadas de cinzas vulcânicas, com 12 tipos aves desconhecidas, sapos antigos e espécies que a ciência nunca havia descrito

Escrito por Ana Alice

Publicado em 25/08/2026 às 22:42

Ciência e Tecnologia

Canal

Caverna na Nova Zelândia revela fósseis de aves e sapos de até 1,5 milhão de anos e ajuda a reconstruir um capítulo perdido da fauna. – Imagem: Ilustrativa

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Uma caverna da Nova Zelândia preservou fósseis raros de aves e anfíbios do início do Pleistoceno, revelando espécies desconhecidas e mudanças profundas na fauna do arquipélago ao longo de aproximadamente 1 milhão de anos.

Uma caverna próxima a Waitomo, na Ilha Norte da Nova Zelândia, revelou o primeiro conjunto conhecido de vertebrados terrestres do início do Pleistoceno encontrado em uma caverna do país.

Entre sedimentos antigos, pesquisadores identificaram fósseis de 12 grupos de aves e quatro espécies de sapos, preservando um retrato raro de uma fauna que viveu há aproximadamente 1 milhão de anos.

O local, chamado Moa Eggshell Cave, recebeu esse nome devido aos fragmentos de ovos de moa encontrados em seu interior.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Os fósseis estavam protegidos entre depósitos vulcânicos que funcionaram como marcadores geológicos naturais.

A descoberta permitiu aos cientistas comparar a fauna daquela época com animais conhecidos de períodos posteriores e identificar uma renovação significativa das espécies de aves ao longo do último milhão de anos.

Moa Eggshell Cave guarda registro raro da Nova Zelândia antiga

A caverna fica na região cárstica de Waitomo, conhecida por seu sistema de cavernas formadas em calcário.

O paleontólogo Trevor Worthy já conhecia o local havia décadas.

Paleontólogo Trevor Worthy, autor principal do estudo que descreveu a fauna fossilizada encontrada na Moa Eggshell Cave, na Nova Zelândia. Crédito: Divulgação/Flinders University.

Em agosto de 1983, durante uma visita à área, ele encontrou fósseis nos sedimentos próximos à entrada, incluindo um osso que posteriormente ganharia importância para a identificação de uma nova espécie.

Anos depois, novas campanhas permitiram investigar depósitos mais profundos.

Os pesquisadores escavaram os sedimentos cuidadosamente e utilizaram peneiras para recuperar ossos pequenos de aves e anfíbios, materiais que poderiam facilmente passar despercebidos durante uma escavação convencional.

O chamado “mundo perdido”, portanto, não corresponde a animais que continuaram vivendo isolados dentro da caverna.

O que permaneceu preservado foi um depósito fossilífero antigo, capaz de registrar parte do ecossistema que existia na Ilha Norte muito antes da chegada humana à Nova Zelândia.

Entrada sul da Moa Eggshell Cave, na Ilha Norte da Nova Zelândia, onde pesquisadores encontraram fósseis de aves e anfíbios do início do Pleistoceno. Crédito: Trevor Worthy.

Cinzas vulcânicas ajudaram a determinar a idade dos fósseis

A posição dos ossos entre diferentes camadas permitiu estabelecer uma janela temporal incomum para o registro paleontológico neozelandês.

Uma das referências é a tefra de Ngaroma, associada a uma erupção ocorrida há aproximadamente 1,55 milhão de anos.

Acima dos sedimentos fossilíferos aparece material relacionado à supererupção de Kidnappers, de cerca de 1 milhão de anos atrás.

No topo da sequência, uma formação mineral conhecida como espeleotema foi datada em aproximadamente 535 mil anos.

Esses marcadores permitem situar a fauna encontrada no início do Pleistoceno.

A expressão de que o material permaneceu “selado” por cerca de 1 milhão de anos deve ser entendida nesse contexto geológico: não há indicação de que toda a caverna tenha permanecido hermeticamente fechada durante esse período, mas os depósitos antigos ficaram protegidos e preservaram fósseis que praticamente não aparecem em outros sítios do país.

Pesquisadores encontraram 12 tipos de aves e quatro sapos

O conjunto identificado inclui quatro espécies do gênero Leiopelma, grupo de sapos associado à antiga fauna da Nova Zelândia, além de 12 táxons de aves em nível de espécie.

Pelo menos quatro, e possivelmente seis, dessas aves não são conhecidas nos registros do final do Pleistoceno.

Isso indica que parte da comunidade de aves encontrada na caverna desapareceu ou foi substituída ao longo do milhão de anos seguinte.

Os pesquisadores estimaram uma renovação de aproximadamente 33% a 50% na composição das espécies de aves entre a fauna antiga e aquelas conhecidas de períodos mais recentes.

Duas aves foram formalmente descritas como novas espécies.

Uma delas recebeu o nome Porphyrio claytongreenei, integrante do mesmo grupo de aves ao qual pertencem os takahē.

Outra foi chamada de Strigops insulaborealis, um antigo representante da linhagem do kākāpō.

Imagem ilustrativa da caverna na Nova Zelândia [gerada por IA]. Crédito: P. Scofield, Canterbury Museum.

Parente antigo do kākāpō pode ter vivido de forma diferente

O kākāpō moderno é um papagaio noturno, pesado e incapaz de voar.

Suas pernas fortes ajudam na locomoção pelo solo e também na escalada de árvores.

Os fósseis atribuídos a Strigops insulaborealis, porém, apresentam características diferentes.

A anatomia dos membros inferiores sugere que o animal possuía pernas menos robustas que as do kākāpō atual, indicando que provavelmente estava menos adaptado à vida terrestre e à escalada intensa.

Isso abriu uma possibilidade especialmente interessante para os pesquisadores: o ancestral antigo talvez ainda tivesse alguma capacidade de voo.

Os próprios estudos ressaltam que novos fósseis, especialmente elementos capazes de revelar melhor a anatomia relacionada ao voo, serão necessários para determinar com segurança como esse papagaio se locomovia.

Trincheira escavada na Caverna da Casca de Ovo de Moa, Nova Zelândia. Crédito: Trevor Worthy

Pombo encontrado não tinha registro anterior na fauna do país

Outro resultado inesperado surgiu entre os fósseis de Columbidae.

Os pesquisadores identificaram um pombo ligado ao grupo dos bronzewings australianos, aves atualmente associadas principalmente à Austrália.

Esse tipo de columbídeo ainda não havia sido registrado anteriormente na fauna fossilizada da Nova Zelândia.

A descoberta amplia a discussão sobre antigas conexões biogeográficas entre o arquipélago e outras regiões do Pacífico.

O conjunto também ajuda a mostrar que a fauna neozelandesa do passado não era simplesmente uma versão mais antiga daquela encontrada séculos antes da ocupação humana.

Ela passou por transformações importantes muito antes da chegada das primeiras populações polinésias.

Mudanças climáticas podem ter remodelado a fauna

Os autores relacionam parte da renovação das aves ao aumento da intensidade das oscilações climáticas glaciais e interglaciais durante o Pleistoceno.

Essas mudanças alteravam repetidamente a extensão das florestas, áreas abertas, temperaturas e disponibilidade de habitats.

O vulcanismo também pode ter participado desse processo.

A supererupção de Kidnappers lançou grandes quantidades de cinzas e materiais vulcânicos sobre partes da Ilha Norte há cerca de 1 milhão de anos.

Os pesquisadores consideram possível que eventos dessa magnitude tenham afetado especialmente aves terrestres, embora os fósseis ainda não permitam atribuir as extinções diretamente a uma única erupção.

Caverna preenche uma lacuna no registro fóssil

A importância da Moa Eggshell Cave está ligada principalmente ao período representado pelos fósseis.

A Nova Zelândia possui numerosos registros de vertebrados do final do Pleistoceno e do Holoceno, além da conhecida fauna muito mais antiga de St Bathans, do Mioceno.

Entre esses extremos, entretanto, havia uma grande lacuna na compreensão de como as comunidades terrestres mudaram.

Os fósseis de Waitomo fornecem agora uma referência do início do Pleistoceno, permitindo acompanhar parte dessa transformação.

Mais do que revelar novas espécies, o depósito mostra que extinções e substituições de fauna já estavam ocorrendo na Nova Zelândia centenas de milhares de anos antes de seres humanos chegarem ao arquipélago.

Com novos sedimentos ainda disponíveis para estudo na caverna, cada fragmento de osso recuperado pode ajudar a reconstruir com mais precisão um ecossistema que permaneceu escondido no registro geológico por aproximadamente 1 milhão de anos.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

Sair da versão mobile