6 min de leitura
Com a família arruinada, um menino japonês saiu de casa aos 9 anos para virar aprendiz numa loja de braseiros e numa loja de bicicletas, e aos 23 fundou numa casa alugada de Osaka a empresa que viraria a Panasonic
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 04/08/2026 às 10:48
Atualizado em 04/08/2026 às 10:54
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Konosuke Matsushita se despediu da mãe numa estação de trem meses antes de terminar o primário. Vinte e três anos depois, em 7 de março de 1918, abriu a própria oficina no térreo de uma casa alugada, ao lado da mulher e do cunhado adolescente, e o primeiro produto foi um plugue feito com sucata.
Ele saiu de casa antes de terminar a escola. Konosuke Matsushita tinha 9 anos quando o pai, já morando em Osaka, mandou buscá lo para trabalhar como aprendiz. O menino japonês se despediu da mãe em uma estação de trem e seguiu sozinho para a cidade grande, meses antes de concluir o ensino primário, conforme registros históricos publicados pela própria Panasonic.
O primeiro posto foi na loja de braseiros Miyata. Depois veio a loja de bicicletas Godai, onde ficou cerca de cinco anos. Aos 15, entrou na Osaka Electric Light Company, antecessora da atual Kansai Electric Power. Em 7 de março de 1918, aos 23 anos, fundou a Matsushita Electric Housewares Manufacturing Works, empresa que viria a se chamar Panasonic.
O que derrubou a família
A ruína veio de uma aposta. Masakusu Matsushita era um pequeno proprietário de terras em Wasamura, hoje parte de Wakayama, ao sul de Osaka, e perdeu o patrimônio da família especulando na bolsa de arroz quando Konosuke tinha 4 anos.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A família perdeu casa e terra, mudou-se para a cidade de Wakayama e abriu uma pequena loja de tamancos de madeira, que não deu certo. Konosuke era o caçula de oito filhos, com cinco irmãs e dois irmãos. Dois irmãos e uma irmã morreram de gripe naquele período. Sem saída, o pai partiu para Osaka em busca de trabalho e, três anos depois, mandou chamar o filho mais novo.
O aprendizado que não era só ofício
A passagem pela loja de bicicletas moldou mais do que a técnica. Segundo relatos sobre a trajetória dele, foi ali que aprendeu postura profissional: como fazer reverência, cuidar da aparência, falar com cliente e se portar no comércio.
O patrão notou a aptidão dele para negócios. Konosuke continuou estudando por conta própria enquanto cuidava da loja, e chegou a pensar em largar o aprendizado para fazer curso noturno. O pai o convenceu a ficar, argumentando que as habilidades que estava adquirindo garantiriam o futuro dele. Foi observando os bondes que circulavam em Osaka que decidiu que o futuro estava no setor elétrico.
A fundação em três pessoas
O negócio começou pequeno e familiar. Konosuke, então com 23 anos, a esposa Mumeno, de 22, e o irmão dela, Toshio Iue, de 15, fundaram juntos a empresa em Ohiraki-cho, em Osaka.
Ele havia deixado o emprego na companhia elétrica e desenvolvido um soquete aprimorado que não vendeu. As dificuldades financeiras eram tão graves que a família recorreu repetidas vezes à casa de penhores. Mesmo assim, ele transformou o andar térreo da casa alugada em oficina e começou a trabalhar. O cunhado adolescente que estava naquela sala fundaria mais tarde a Sanyo Electric.
O primeiro produto saiu do lixo
A ideia que destravou o negócio foi de reaproveitamento. Naquela época, a instalação elétrica de uma casa se resumia a uma ou duas tomadas no teto, usadas para lâmpadas, e qualquer outro aparelho precisava de um plugue rosqueado ali.
O problema era a precisão do componente metálico. Depois de muita tentativa e erro, Konosuke teve a ideia de reutilizar a rosca metálica de lâmpadas usadas, peça projetada para encaixar perfeitamente no soquete e que, sendo descartável, custava quase nada. O resultado foi um plugue de qualidade superior e 30% mais barato que os concorrentes. Foi o primeiro produto da história da empresa, e o modelo continua sendo fabricado hoje com estrutura praticamente inalterada, usado em barracas de festa e barcos de pesca.
A primeira funcionária se chamava Prosperidade
Com os pedidos aumentando, três pessoas não davam conta. A primeira candidata a aparecer foi uma mulher grávida que podia fazer trabalhos leves e morava perto, e foi contratada na hora.
O sobrenome dela era Hanjo, que em japonês significa prosperidade. A empresa havia nascido em Ohiraki, palavra que se traduz como grande inauguração, e a primeira contratada se chamava Prosperidade. Konosuke considerou aquilo obra do destino, e concluiu que, com o nascimento do bebê, a prosperidade dobraria.
A regra que ele contrariou
Havia um costume no setor que ele decidiu quebrar. Na época, a composição dos materiais e os métodos de fabricação eram tratados como segredo comercial, e os donos guardavam essas informações para si.
Konosuke ensinava tudo, inclusive aos recém-contratados. Colegas do ramo o alertaram sobre o risco de funcionários copiarem as técnicas e abrirem negócio próprio. A resposta dele ficou registrada: disse que quem acredita e confia em uma pessoa não é traído, e que quem faz o contrário e adota uma gestão mesquinha não prospera nem desenvolve gente. É esse princípio que sustenta a fama dele no Japão como Deus da Gestão.
Os produtos que eletrificaram a casa japonesa
Depois do plugue de 1918, veio uma sequência. A tomada dupla saiu em 1920, a lâmpada de bicicleta em formato de bala em 1923, a versão quadrada e reforçada em 1927 e o aquecedor elétrico para kotatsu, a mesa aquecida japonesa, em 1929.
O ritmo de criação foi alto. Entre 1917 e os 34 anos seguintes, ele acumulou 100 invenções e propostas, sendo 8 patentes e 92 registros de modelo de utilidade. A empresa funcionou 15 anos em Ohiraki-cho, e mesmo depois de transferir a sede para Kadoma, em 1933, ele manteve apego ao endereço original pelo resto da vida.
O que essa empresa virou
O grupo que nasceu naquela oficina se tornou uma das maiores fabricantes de eletroeletrônicos do mundo. A marca Panasonic surgiu em 1955, aplicada inicialmente a alto-falantes e lâmpadas vendidos fora do Japão, e vem da junção das palavras que significam tudo e som.
Hoje a Panasonic Holdings emprega cerca de 228 mil pessoas no mundo e opera em áreas que vão de eletrodomésticos a baterias para carros elétricos, fornecendo inclusive para a Tesla. A receita anual do grupo, reportada em ienes, fica na casa dos 8 trilhões, o que corresponde a algo em torno de 54 bilhões de dólares conforme a cotação usada na conversão. Konosuke Matsushita morreu em 27 de abril de 1989, aos 94 anos.
E você, conhece alguma empresa grande que começou dentro da casa de alguém? Conta aqui nos comentários qual foi, e diga se acha que ainda dá para construir um negócio desse tamanho começando do zero, sem dinheiro e sem estudo formal.
Tags
menino japonês
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

