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Com as próprias mãos, Sandro passou um ano carregando baldes de terra, subindo escadas e compactando tudo sozinho para erguer em Santa Catarina uma construção feita com sacos de batata e solo do próprio terreno, coberta por um teto vivo e integrada a um projeto com bunker subterrâneo para alimentos e sementes

Com as próprias mãos, Sandro passou um ano carregando baldes de terra, subindo escadas e compactando tudo sozinho para erguer em Santa Catarina uma construção feita com sacos de batata e solo do próprio terreno, coberta por um teto vivo e integrada a um projeto com bunker subterrâneo para alimentos e sementes

SC

7 min de leitura

Com as próprias mãos, Sandro passou um ano carregando baldes de terra, subindo escadas e compactando tudo sozinho para erguer em Santa Catarina uma construção feita com sacos de batata e solo do próprio terreno, coberta por um teto vivo e integrada a um projeto com bunker subterrâneo para alimentos e sementes

Escrito por Ana Alice

Publicado em 13/08/2026 às 08:39

Atualizado em 13/08/2026 às 08:40

Construção

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Em Santa Catarina, Sandro Jankoski ergueu quase sozinho uma construção de superadobe com terra local, teto verde e sacos agrícolas. (Imagem: Ilustrativa)

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Em São Bento do Sul, um projeto construído com técnicas pouco convencionais uniu terra, trabalho manual e soluções de bioconstrução para criar uma estrutura integrada ao terreno e voltada à autonomia.

Em uma propriedade rural de São Bento do Sul, no Planalto Norte de Santa Catarina, Sandro Gilberto Jankoski levou cerca de um ano para erguer, praticamente sozinho, uma construção feita principalmente com terra retirada do próprio terreno e longos tubos de polipropileno semelhantes aos sacos usados para armazenar batatas e cebolas.

Em vez de levantar paredes convencionais de tijolos, ele adotou o superadobe, método no qual sacos ou tubos são preenchidos com terra, compactados e sobrepostos em camadas, normalmente com arame farpado entre elas para aumentar a aderência do conjunto.

O projeto acabou incorporando ainda uma cobertura vegetal, drenagem, impermeabilização e integração parcial da estrutura a um barranco.

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Na mesma propriedade, Sandro mantém um espaço subterrâneo destinado ao armazenamento de alimentos e sementes, dentro de uma proposta mais ampla de autonomia e preparação para emergências.

Segundo o próprio Sandro, o local passou a receber encontros e cerimônias relacionados ao grupo Medicinas da Floresta e ao uso ritual da ayahuasca.

Terra do próprio terreno virou matéria-prima das paredes

O elemento que mais chama atenção na construção está justamente onde normalmente haveria blocos ou tijolos.

Sandro utilizou longos tubos feitos de material semelhante ao encontrado em sacos agrícolas.

Esses tubos receberam terra retirada da própria área da obra e foram sendo posicionados horizontalmente, camada após camada. Depois de preenchido, cada trecho era compactado manualmente.

O processo continuava até que as sucessivas fileiras formassem as paredes.

Entre as camadas, ele colocou arame farpado, recurso previsto no sistema tradicional de superadobe para aumentar a aderência entre os sacos preenchidos.

A técnica não foi criada em Santa Catarina.

O superadobe foi desenvolvido pelo arquiteto iraniano-americano Nader Khalili, fundador do Instituto de Artes e Arquitetura da Terra da Califórnia, conhecido pela sigla CalEarth.

A própria instituição descreve o método como uma combinação de terra, sacos e arame farpado aplicada à construção de paredes, domos e outras estruturas.

A possibilidade de utilizar solo disponível no próprio local é uma das características centrais da técnica.

No projeto catarinense, isso significou aproveitar justamente a terra removida da área onde a estrutura estava sendo implantada.

Construída com saco de batata e terra, casa sustentável surpreende por ar fresco mesmo no calor Foto: Divulgação/Arquivo pessoal/ND Mais

Rolos de polipropileno eram cortados em trechos menores

Segundo Sandro, os tubos de polipropileno usados nesse tipo de construção podem atingir centenas de metros de comprimento.

Ele relatou que trabalhava com material que poderia chegar a aproximadamente 400 metros, mas optou por dividir os rolos em segmentos próximos de 15 metros para tornar o preenchimento e o posicionamento mais administráveis.

As paredes ficavam com aproximadamente 25 centímetros antes da compactação, conforme o relato do construtor reproduzido nas reportagens sobre o projeto.

Depois de preenchidas, eram socadas para que a terra se acomodasse e formasse uma camada mais rígida.

“É como se fosse uma impressora 3D, só que manual”, afirmou.

A comparação ajuda a visualizar a lógica da obra.

Uma fileira é preparada, compactada e recebe a próxima, enquanto o formato vai surgindo progressivamente.

Apesar da simplicidade aparente dos materiais, o trabalho físico aumentava conforme as paredes cresciam.

Construir praticamente sozinho tornou a obra mais pesada

Sandro afirma ter realizado quase toda a construção sem uma equipe permanente.

No início, enquanto as paredes ainda estavam próximas do solo, transportar e despejar a terra era relativamente simples.

Depois, o trabalho passou a exigir que ele carregasse repetidamente baldes de material pelas escadas para alcançar as camadas mais altas.

“No meu caso, eu fiz praticamente ela sozinho”, relatou ao explicar a rotina.

A execução levou aproximadamente um ano, segundo o próprio construtor.

Barranco passou a fazer parte da própria construção

Outra característica do projeto é a forma como parte da edificação se encaixa no relevo.

Em vez de deixar toda a estrutura exposta, Sandro aproveitou um barranco existente na propriedade e instalou parte da construção junto ao terreno.

Isso cria um espaço parcialmente protegido pela própria massa de terra ao redor.

Construções enterradas ou semienterradas, porém, também precisam lidar com um problema importante: umidade e água acumulada junto às paredes.

Por isso, Sandro afirma ter instalado um sistema de drenagem e utilizado lonas reforçadas nas regiões em contato com o terreno.

Segundo seu relato, a barreira foi colocada para reduzir a entrada de umidade na estrutura.

A combinação entre drenagem, impermeabilização e configuração do terreno é especialmente importante nesse tipo de projeto.

Teto verde colocou terra e vegetação sobre a estrutura

Se parte das paredes desaparece junto ao barranco, a cobertura reforça ainda mais a integração visual com o terreno.

Sobre o teto, Sandro colocou camadas de proteção, terra e vegetação.

Ele relata que grama e plantas trepadeiras passaram a crescer sobre a cobertura, formando aquilo que normalmente é chamado de teto verde.

O uso de vegetação em construções de superadobe não é exclusivo desse projeto.

A CalEarth registra exemplos de estruturas do sistema cobertas por vegetação e ressalta que detalhes construtivos precisam ser adaptados às condições climáticas específicas de cada região.

No projeto de São Bento do Sul, Sandro atribui à combinação de terra, cobertura vegetal e inserção parcial no barranco uma redução das oscilações de temperatura no interior.

“Se fora está quente, ela mantém fresco. Se está frio, ela mantém aquecido”, afirmou ao descrever sua percepção do ambiente.

Paredes espessas de terra possuem elevada massa térmica e podem armazenar calor e liberá-lo gradualmente.

O desempenho real de uma construção específica, entretanto, também depende de fatores como umidade, orientação solar, ventilação, composição das paredes e clima local.

Por isso, a percepção relatada pelo proprietário não deve ser confundida com uma medição técnica independente do desempenho térmico da obra.

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Construção sustentável não terminou na estrutura de superadobe

A propriedade de Sandro reúne outros elementos voltados à autonomia.

Um deles é uma estrutura subterrânea utilizada para guardar alimentos e sementes.

O espaço foi montado a partir de um contêiner enterrado e é descrito pelo proprietário como uma espécie de “célula de sobrevivência”.

Sandro afirma que o ambiente permanece fresco e com pouca luz, condições que considera favoráveis para armazenamento.

Em uma das entrevistas, disse ter consumido arroz que mantinha guardado desde 2011.

Essa declaração é um relato pessoal.

As fontes consultadas não apresentam análises laboratoriais que comprovem as condições microbiológicas do alimento depois de tantos anos, nem detalham método de embalagem, teor de umidade ou condições exatas de conservação.

Além de alimentos, ele mantém sementes destinadas a novos plantios caso precise permanecer por um período prolongado sem acesso regular a abastecimento externo.

Reportagens sobre a propriedade também registram geração de energia solar e acesso à internet por satélite como parte desse conjunto de medidas de autonomia.

Projeto está ligado a uma preparação iniciada anos atrás

A construção de superadobe é apenas uma das partes de um projeto que Sandro desenvolveu durante anos na propriedade rural.

Reportagens publicadas em 2026 apontam que sua preparação para situações de emergência começou há mais de uma década.

Ao longo desse período, ele passou a armazenar mantimentos e sementes e a desenvolver soluções próprias para energia, comunicação e abrigo.

A proposta se aproxima do chamado sobrevivencialismo, prática baseada na preparação para interrupções de serviços, desastres naturais e outras situações que possam comprometer abastecimento e infraestrutura.

No caso de Sandro, essa lógica se misturou à bioconstrução e ao aproveitamento dos recursos presentes na própria terra.

Isso não significa que todos os componentes da propriedade façam parte de uma única construção.

A casa de superadobe e o contêiner subterrâneo usado para armazenamento são estruturas distintas, ainda que integrem o mesmo projeto de autonomia desenvolvido no terreno.

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Espaço de terra ganhou uma função diferente de moradia

Quem observa as imagens pode imaginar que Sandro tenha construído ali sua residência.

Não foi essa a função que o espaço recebeu.

Segundo o proprietário, a estrutura de superadobe passou a ser utilizada para encontros espirituais ligados ao grupo Medicinas da Floresta e a cerimônias com ayahuasca.

Sandro contou que a ideia começou depois de conversar com integrantes do grupo sobre a possibilidade de criar um ambiente específico para os encontros.

Ele chegou a perguntar se seria melhor construir uma estrutura convencional na superfície ou um espaço parcialmente subterrâneo.

Sem uma definição imediata, decidiu começar a obra por iniciativa própria, de acordo com o relato divulgado posteriormente.

A construção que nasceu de sacos, terra, arame, trabalho manual e adaptação ao relevo acabou, portanto, adquirindo uma utilização comunitária diferente da de uma casa convencional.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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