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Comprado ainda filhote no mercado ilegal por um traficante, foi acorrentado, vestido como gente e ensinado a pedalar bicicleta, desenhar e até fumar, passou por um circo na fronteira entre Colômbia e Venezuela, viveu sete anos sob cuidados de especialistas e, aos 38, desembarcou no maior santuário de primatas da América Latina

Comprado ainda filhote no mercado ilegal por um traficante, foi acorrentado, vestido como gente e ensinado a pedalar bicicleta, desenhar e até fumar, passou por um circo na fronteira entre Colômbia e Venezuela, viveu sete anos sob cuidados de especialistas e, aos 38, desembarcou no maior santuário de primatas da América Latina

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Comprado ainda filhote no mercado ilegal por um traficante, foi acorrentado, vestido como gente e ensinado a pedalar bicicleta, desenhar e até fumar, passou por um circo na fronteira entre Colômbia e Venezuela, viveu sete anos sob cuidados de especialistas e, aos 38, desembarcou no maior santuário de primatas da América Latina

Escrito por Jefferson Augusto

Publicado em 21/08/2026 às 11:55

Atualizado em 21/08/2026 às 11:56

Curiosidades

Canal

Close do rosto de um chimpanzé de pelagem escura e barba grisalha, com os olhos voltados para cima.

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Prefira o CPG no Google

Ele aprendeu tudo o que um chimpanzé não deveria aprender, e agora precisa desaprender quase tudo isso para conseguir viver perto de outros da própria espécie.

Existe uma lista de coisas que um chimpanzé aprende sozinho na floresta, e nenhuma delas envolve bicicleta.

Yoko aprendeu a pedalar, a desenhar, a assistir televisão e até a fumar, porque foi treinado para isso por um traficante.

Segundo reportagem publicada pela CNN Brasil, ele tem 38 anos e chegou em 24 de março ao Santuário dos Grandes Primatas de Sorocaba, no interior paulista.

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É o maior santuário de primatas da América Latina, e abriga mais de 40 chimpanzés resgatados de situações parecidas com a dele.

O filhote comprado no mercado ilegal

A história dele começa como começa quase toda história de animal exótico em cativeiro: com uma compra.

Ainda filhote, Yoko foi adquirido no mercado ilegal por um traficante de drogas colombiano, conforme a mesma reportagem.

Filhote de chimpanzé só chega ao comércio ilegal de um jeito, e é depois de a mãe ser morta na natureza.

É por isso que cada bicho vendido representa, na prática, mais de um animal retirado da floresta.

A vida que o traficante impôs

No poder do traficante, ele foi mantido acorrentado e submetido a uma domesticação forçada que contrariava tudo na biologia da espécie.

Passou a viver vestido, de roupa, como se fosse gente, num arranjo que costuma render fotografia divertida e sofrimento invisível. Confinamento longo assim já apareceu em outros casos, como o dos tigres que passaram mais de 15 anos presos num vagão de trem de 75 metros quadrados na Argentina.

Foi treinado para imitar ações humanas, e a lista das que aprendeu é longa o suficiente para explicar o problema que veio depois.

Andar de bicicleta e desenhar entram nessa lista, e nenhuma das duas serve para absolutamente nada na vida de um chimpanzé.

O cigarro e a televisão

Dois hábitos aprendidos por Yoko chamam mais atenção do que os outros, e por motivos diferentes.

Ele se tornou dependente de assistir televisão, o que significa horas paradas diante de uma tela em vez de escalar, procurar comida ou interagir.

E chegou a fumar, um comportamento que só existe porque alguém acendeu o cigarro e entregou na mão dele repetidas vezes.

Cada um desses hábitos foi ensinado por diversão de gente, e cada um deles é uma camada a mais para desfazer agora.

O circo na fronteira

O ponto de virada foi o resgate, feito num circo instalado na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela.

Circo é o destino frequente de animal que já não serve mais ao dono anterior, porque ainda rende bilheteria.

É o mesmo caminho percorrido pelos 33 leões retirados de dez circos do Peru e da Colômbia, com unhas arrancadas e dentes quebrados.

A diferença é que o chimpanzé tem expectativa de vida longa, e um animal resgatado aos 31 anos ainda tem décadas pela frente.

Sete anos de preparação antes da viagem

Depois do resgate, Yoko passou a viver sob cuidados de especialistas desde 2018, conforme a reportagem.

São sete anos entre sair do circo e chegar ao santuário, e esse intervalo não é burocracia à toa.

Transferência internacional de primata exige autorização de dois países, exame veterinário completo, caixa de transporte adequada e uma janela de viagem segura.

Operações assim costumam envolver logística de guerra, como no caso dos 30 leões e tigres tirados de um zoológico fechado na Argentina.

O que é o santuário de Sorocaba

O Santuário dos Grandes Primatas fica em Sorocaba, no interior de São Paulo, e é o maior da América Latina.

Abriga hoje mais de 40 chimpanzés, quase todos vindos de circo, zoológico irregular, laboratório ou cativeiro doméstico.

Santuário não é zoológico, e a distinção importa: não existe exibição ao público nem reprodução, o lugar existe para o animal terminar a vida em paz.

É uma escolha que assume o óbvio, que é o fato de esses bichos não terem mais como voltar para a natureza.

A quarentena vem primeiro

A primeira etapa de Yoko no novo endereço é a quarentena, período em que ele fica isolado sob observação veterinária.

A medida protege os mais de 40 chimpanzés que já vivem lá contra qualquer doença que o recém-chegado possa carregar.

Também serve para o próprio animal, que precisa se acostumar ao clima, ao cheiro e ao som de um lugar completamente novo.

Só depois disso começa a parte realmente difícil da história dele.

Reaprender a ser chimpanzé

Concluída a quarentena, Yoko entra num processo de reabilitação para aprender a conviver com outros primatas.

É preciso dizer com todas as letras: ele vai precisar aprender a fazer aquilo que deveria ter sido natural desde o primeiro dia.

Chimpanzé é animal de grupo, com hierarquia complexa, gestos próprios, disputas e alianças que se aprendem na convivência desde filhote.

Quem cresceu sozinho ao lado de humanos não domina esse código, e pode levar meses ou anos para entrar num grupo.

Por que a humanização é um problema

A parte mais cruel da história de Yoko é justamente aquilo que parece encantador quando aparece num vídeo.

O bicho que anda de bicicleta e usa roupa foi treinado à base de repetição, contenção e, muitas vezes, medo.

E o resultado é um animal que não se reconhece inteiramente na própria espécie nem pertence, evidentemente, à espécie humana.

É esse limbo que os santuários passam anos tentando desfazer, um comportamento de cada vez.

O comércio que criou o caso

Yoko não é uma exceção, é um produto previsível de um mercado que continua funcionando na América Latina.

O tráfico de fauna movimenta bicho vivo, pele, casco e até espécie marinha, num circuito que raramente aparece no noticiário.

A rota de saída também passa pelo Brasil, como no caso das malas com cerca de 500 pepinos-do-mar secos flagradas em Guarulhos.

Enquanto houver comprador disposto a pagar por um filhote, haverá alguém disposto a tirá-lo da floresta.

O que ainda pode dar errado

Vale evitar o final feliz automático, porque a chegada ao santuário resolve uma parte do problema e abre outra.

Nem todo chimpanzé humanizado consegue ser integrado a um grupo, e alguns passam a vida inteira em convivência limitada.

Há ainda a questão da idade, porque aos 38 anos ele já está na segunda metade da expectativa de vida da espécie em cativeiro.

O que o santuário garante não é uma vida perfeita, é uma vida sem corrente, sem plateia e sem cigarro.

A conta que ninguém vê

Manter um chimpanzé resgatado custa caro e custa por muito tempo, porque a espécie passa dos 50 anos em cativeiro.

São dieta específica, equipe treinada, recinto amplo, enriquecimento ambiental diário e acompanhamento veterinário permanente.

Nenhum desses gastos termina, e é por isso que santuário sério trabalha com fila de espera e recusa animal quando não tem estrutura.

O que sobra da história

Existe um detalhe que resume tudo, e ele não está na crueldade do traficante nem no tamanho do santuário.

Está no fato de que o processo de recuperação de Yoko consiste, basicamente, em apagar o que ensinaram a ele.

Foram mais de três décadas construindo um chimpanzé que se comportava como gente, e agora são anos para desfazer isso.

Casos como o dos leões Tarzan e Tanya, levados a um santuário na África do Sul mostram que a virada existe, mas nunca é rápida.

E fica a pergunta que interessa: se um filhote só chega ao mercado ilegal porque existe alguém disposto a comprar, quantos outros Yokos estão neste momento vestidos de gente na sala de alguém?

Fontes

CNN Brasil

Canal Rural


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

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