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Conheça o SM1 Motivator, o carro-foguete que usava peróxido de hidrogênio e levou uma piloto a 825 km/h: Kitty O’Neil superou o recorde feminino e ainda acreditava que poderia superar 1.100 km/h
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 20/08/2026 às 14:22
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Kitty O’Neil pilotou o carro-foguete Motivator a 825,126 km/h em 1976, pulverizou o recorde feminino e entrou para a história da velocidade mesmo sendo surda desde a infância.
Em 6 de dezembro de 1976, Kitty O’Neil entrou em um estreito carro-foguete de três rodas, acionou um sistema movido a peróxido de hidrogênio e atravessou o deserto de Alvord, no Oregon, a uma velocidade média oficial de 825,126 km/h. Surda desde a infância e já conhecida por enfrentar quedas, incêndios e carros em Hollywood, ela acabava de pulverizar o recorde feminino de velocidade terrestre e conquistar um lugar definitivo na história do automobilismo.
Segundo o Guinness World Records, O’Neil registrou 512,710 mph, equivalentes a 825,126 km/h, no veículo identificado pela organização como SM1 Motivator e por outros registros históricos como SMI Motivator. Fontes sobre sua carreira relatam algo ainda mais impressionante: naquela tentativa, ela teria utilizado aproximadamente 60% da capacidade disponível e acreditava que, com uma nova oportunidade, poderia chegar a 700 ou até 750 mph, faixa equivalente a aproximadamente 1.127 a 1.207 km/h.
Kitty O’Neil entrou em um carro-foguete e saiu como a mulher mais rápida do planeta
O cenário escolhido para a tentativa parecia feito para uma máquina desse tipo. O deserto de Alvord oferece uma enorme superfície plana e seca, condição fundamental para veículos incapazes de realizar curvas convencionais quando estão acelerando a velocidades próximas das alcançadas por aviões.
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O Motivator tinha apenas três rodas e utilizava propulsão baseada em peróxido de hidrogênio. O projeto foi construído por Bill Fredrick para perseguir recordes de velocidade, e O’Neil acabou escolhida para colocá-lo à prova.
O arquivo histórico da Northwest Digital Archives registra a tentativa realizada em Alvord e identifica Fredrick como o construtor da máquina.
Quando as passagens terminaram, os cronômetros indicavam um resultado extraordinário: 512,710 mph de média oficial. Isso correspondia a pouco mais de 825 km/h.
Recorde de 825 km/h não era simplesmente a maior velocidade vista no velocímetro
Em recordes terrestres, não basta acelerar em uma única direção e registrar o maior pico exibido pelos instrumentos.
Assista o vídeo
O procedimento tradicional exige passagens cronometradas em sentidos opostos e utiliza a média obtida para reduzir a influência de fatores como o vento.
A PBS, ao reconstituir a carreira de O’Neil, explica que foi justamente esse procedimento que produziu a marca oficial de 512,710 mph.
Os 825,126 km/h são a velocidade reconhecida pelo Guinness para a tentativa de O’Neil. Há também relatos de observadores indicando que o carro alcançou, momentaneamente, mais de 618 mph durante determinados trechos, enquanto outras fontes registram um pico de aproximadamente 621 mph, perto de 1.000 km/h.
Máquina usava peróxido de hidrogênio para gerar uma aceleração brutal
Apesar de ser frequentemente chamado de carro, o Motivator estava muito distante do conceito de automóvel convencional.
Não havia um enorme motor V8 enviando força às rodas por uma transmissão tradicional. O veículo utilizava um sistema de propulsão por foguete alimentado por peróxido de hidrogênio, solução desenvolvida para produzir empuxo intenso durante a tentativa de velocidade.
Sua carroceria era extremamente estreita e alongada, com O’Neil praticamente confinada a um pequeno cockpit entre os componentes da máquina.
O projeto tinha uma única finalidade: acelerar em linha reta o mais rapidamente possível. Conforto, capacidade de carga e qualquer característica típica de um automóvel de rua simplesmente não entravam na equação.
O mais impressionante é que O’Neil teria usado apenas 60% da capacidade
A marca de 825 km/h já seria suficiente para eternizar a tentativa. Mas foi o que aconteceu depois que transformou a história em algo ainda mais intrigante.
Fontes como PBS, Stunts Unlimited e The Washington Post registram que O’Neil teria utilizado aproximadamente 60% da capacidade do Motivator durante as passagens que renderam o recorde.
Ela queria voltar ao carro e acelerar ainda mais.
O’Neil acreditava que poderia atingir algo entre 700 e 750 mph. Convertidos, esses números representam aproximadamente 1.127 km/h e 1.207 km/h.
Um contrato colocou um teto inesperado na mulher que queria acelerar mais
A barreira que impediu uma nova tentativa não foi simplesmente mecânica.
Relatos históricos indicam que O’Neil havia sido contratada especificamente para perseguir o recorde feminino, enquanto o famoso dublê Hal Needham estava ligado à tentativa de alcançar o recorde absoluto utilizando o mesmo projeto.
Depois que O’Neil mostrou que poderia levar o Motivator muito além da velocidade necessária para superar a marca feminina, surgiu uma disputa sobre quem teria direito a perseguir o recorde absoluto.
O caso chegou à Justiça, mas O’Neil não conseguiu autorização para realizar a nova tentativa que desejava. Needham, por sua vez, não estabeleceu o recorde com o veículo.
Assim, uma das perguntas mais fascinantes sobre aquela máquina nunca recebeu resposta: até onde Kitty O’Neil conseguiria levá-la se pudesse utilizar toda a capacidade disponível?
Surdez desde a infância nunca impediu a carreira de Kitty O’Neil
A velocidade extrema é apenas uma parte da trajetória. O Guinness registra que Kitty O’Neil perdeu a audição ainda na infância.
A surdez, contudo, não impediu que ela construísse uma carreira baseada justamente em atividades que exigiam percepção espacial, reação rápida e enorme controle físico.
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Antes da fama com carros, ela praticou mergulho competitivo. Problemas de saúde interromperam sua trajetória nesse esporte, e O’Neil posteriormente direcionou a busca por desafios para outras atividades.
Corridas de automóveis, motocicletas, esqui aquático e trabalho como dublê passaram a fazer parte dessa nova fase. A velocidade tornou-se um dos elementos constantes de sua vida.
Hollywood transformou O’Neil em uma das dublês mais destemidas de sua geração
Na década de 1970, Kitty O’Neil entrou para a Stunts Unlimited, importante organização de profissionais de acrobacias de Hollywood. A própria entidade posteriormente a apresentou como sua primeira integrante feminina.
Ela trabalhou como dublê em produções de cinema e televisão e ficou particularmente associada a séries como Mulher-Maravilha e A Mulher Biônica.
Seu repertório estava muito longe de ser limitado a dirigir carros rapidamente.
O’Neil enfrentava fogo, explosões, colisões e quedas de grandes alturas. A mesma pessoa que atravessou o deserto a 825 km/h também construiu parte de sua reputação literalmente saltando de edifícios.
Dublê de Mulher-Maravilha saltou de um prédio de 12 andares
Um de seus feitos mais conhecidos aconteceu durante um trabalho relacionado à série Mulher-Maravilha.
O’Neil realizou uma queda de aproximadamente 127 pés, cerca de 39 metros, do Valley Hilton, em Sherman Oaks, na Califórnia, aterrissando em um enorme colchão de ar.
Não satisfeita, posteriormente quebrou sua própria marca.
A dublê realizou uma queda de 180 pés, aproximadamente 55 metros, a partir de um helicóptero. O colchão de proteção no chão parecia minúsculo visto da altura em que ela estava.
Velocidade também levou Kitty O’Neil para a água
O recorde terrestre não foi um episódio isolado. Em 1970, antes mesmo da tentativa no Motivator, O’Neil já havia atingido 104,85 mph em esqui aquático, aproximadamente 169 km/h.
Em 1977, um ano depois de dominar Alvord, ela pilotou uma embarcação a jato a 275 mph, perto de 443 km/h, estabelecendo outra marca feminina de velocidade na água.
Sua carreira reuniu diversos recordes em categorias diferentes. No fim, velocidade terrestre, barcos, esqui e acrobacias passaram a compor a imagem pública da mulher que parecia constantemente procurar uma máquina ou desafio capaz de levá-la mais longe.
Marca estabelecida em 1976 sobreviveu por mais de quatro décadas
Poucos recordes de velocidade permanecem relevantes por tanto tempo. A marca de 825,126 km/h estabelecida por O’Neil em dezembro de 1976 resistiu por mais de quatro décadas como referência feminina absoluta reconhecida em terra.
Somente em 27 de agosto de 2019, no mesmo deserto de Alvord, a norte-americana Jessi Combs conseguiu superá-la.
Combs registrou 522,783 mph, equivalentes a 841,338 km/h. O feito foi posteriormente reconhecido pelo Guinness, mas ocorreu durante uma tentativa que terminou em acidente fatal.
A diferença entre as duas marcas foi de pouco mais de 16 km/h, embora mais de 42 anos separassem as tentativas. Isso mostra a dimensão do número alcançado por O’Neil ainda em 1976.
Motivator colocou uma mulher a velocidade próxima de 1.000 km/h em trechos da corrida
Mesmo que apenas a média homologada deva ser tratada como recorde, relatos sobre o pico da tentativa dão uma dimensão adicional da brutalidade daquela aceleração.
A PBS e outras fontes ligadas à carreira de O’Neil registram observações de velocidades superiores a 618 mph durante partes da corrida. O número equivale a aproximadamente 995 km/h.
O pico frequentemente citado de 621 mph fica em aproximadamente 999 km/h.
Isso colocaria a máquina praticamente na fronteira simbólica dos 1.000 km/h, embora, novamente, esse não seja o número oficial do recorde.
A marca homologada e documentalmente sólida continua sendo 512,710 mph, ou 825,126 km/h.
Kitty O’Neil deixou as acrobacias depois de uma carreira cercada por risco
Depois de anos lidando com velocidade, quedas e explosões, O’Neil encerrou sua carreira profissional no início da década de 1980.
A Stunts Unlimited registra que ela havia construído uma trajetória com recordes em terra e na água, além de uma extensa experiência no cinema e na televisão.
O’Neil morreu em 2 de novembro de 2018, aos 72 anos. Sua história voltou a receber ampla atenção após sua morte e também por meio de documentários e homenagens dedicados a pessoas com deficiência que romperam barreiras profissionais e culturais.
Mas nenhum episódio resume melhor a dimensão de sua carreira do que aquela manhã no deserto.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

