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Contrariando o pai, ele derrubou aos 20 anos quase toda a mata dos 18 hectares da família apostando em lucro rápido, assistiu a uma cheia do rio arrastar parte do terreno desprotegido e, desde 2011, replanta pau-branco, ipê e sabiá até ver a fauna silvestre retornar e a água voltar a aparecer, hoje com 68 anos

Contrariando o pai, ele derrubou aos 20 anos quase toda a mata dos 18 hectares da família apostando em lucro rápido, assistiu a uma cheia do rio arrastar parte do terreno desprotegido e, desde 2011, replanta pau-branco, ipê e sabiá até ver a fauna silvestre retornar e a água voltar a aparecer, hoje com 68 anos

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Contrariando o pai, ele derrubou aos 20 anos quase toda a mata dos 18 hectares da família apostando em lucro rápido, assistiu a uma cheia do rio arrastar parte do terreno desprotegido e, desde 2011, replanta pau-branco, ipê e sabiá até ver a fauna silvestre retornar e a água voltar a aparecer, hoje com 68 anos

Escrito por Jefferson Augusto

Publicado em 21/08/2026 às 11:51

Atualizado em 21/08/2026 às 11:52

Meio Ambiente

Canal

Estrada de chão avermelhada subindo entre arbustos sem folhas, com casa branca e postes ao longe.

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A parte incomum da história não é a recuperação da terra, é o fato de quem derrubou e quem replantou serem exatamente a mesma pessoa.

Quase toda história de recuperação ambiental tem um vilão e um herói, e quase sempre são pessoas diferentes.

Nesta aqui são a mesma, e é isso que a torna incomum o bastante para atravessar o país.

Conforme reportagem publicada pela Agência Caririceara em 30 de julho de 2026, Raimundo Soares Rodrigues tem 68 anos e vive na comunidade de Filomena, zona rural de Crateús, no sertão do Ceará.

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Aos 20 anos, ele derrubou boa parte da mata dos 18 hectares da família, e desde 2011 replanta o que tirou.

O conselho que ele não quis ouvir

A decisão de desmatar não foi tomada no escuro, porque havia alguém em casa dizendo para não fazer aquilo.

Segundo a mesma reportagem, ele derrubou a mata contrariando os conselhos do próprio pai.

A aposta era simples e fazia sentido econômico na época: mais área limpa significa mais área plantada e mais dinheiro no fim da safra.

É o mesmo raciocínio que abriu boa parte do interior brasileiro, e o caminho de volta costuma passar por métodos como a agricultura sintrópica que transformou uma fazenda seca da Bahia em floresta produtiva.

Os primeiros anos deram certo

Vale dizer sem rodeio: a conta fechou no começo.

A produção rendeu nos primeiros anos, exatamente como ele esperava quando decidiu limpar o terreno.

É aí que está a armadilha de todo desmatamento, porque o retorno aparece antes da conta e some depois dela.

O solo recém-aberto vem carregado de matéria orgânica acumulada por décadas debaixo da vegetação que foi retirada.

Quando o rio veio buscar o que era dele

A cobrança chegou em forma de enchente.

Sem a proteção da vegetação, uma cheia do rio próximo à propriedade destruiu parte do terreno da família, conforme a reportagem.

Raiz de mata nativa segura barranco, freia a água e mantém o solo no lugar quando o volume sobe.

Sem ela, a mesma chuva que antes alimentava a terra passa a carregá-la embora, e o prejuízo é permanente.

O recomeço em 2011

O reflorestamento começou em 2011, com apoio técnico do projeto No Clima da Caatinga.

A iniciativa é realizada em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, segundo a mesma publicação.

Com investimento e orientação técnica, ele passou a reintroduzir espécies nativas da Caatinga na área que tinha aberto quatro décadas antes.

Não foi um gesto simbólico de um fim de semana, foi uma mudança de método que já dura mais de uma década.

As árvores que ele escolheu

O replantio tem nome e sobrenome, e três espécies aparecem citadas na reportagem.

Pau-branco, ipê e sabiá são árvores típicas do semiárido, adaptadas à seca longa e ao solo raso da região.

A elas se somam frutíferas, que cumprem duas funções ao mesmo tempo: alimentam a família e atraem fauna.

Plantar nativa em vez de espécie exótica é o que separa reflorestamento de simples arborização.

Por que a Caatinga é difícil de recuperar

Recuperar mata na Amazônia é caro, mas recuperar mata no semiárido é caro e lento ao mesmo tempo.

A muda precisa sobreviver a estiagens que duram meses, com pouca chuva e temperatura alta durante quase todo o ano.

A Caatinga é o único bioma inteiramente brasileiro, o que significa que o que se perde ali não existe em nenhum outro lugar do planeta.

E é o mesmo bioma atravessado pelo rio São Francisco, que nasce como um fio d’água na Serra da Canastra e sustenta o semiárido.

O sinal de que estava dando certo

Existe um jeito de saber se um replantio está funcionando sem precisar medir nada, e é olhar para os bichos.

Com a volta da vegetação, animais silvestres começaram a reaparecer na propriedade, conforme a reportagem.

Fauna só volta quando há alimento, abrigo e sombra, os três de uma vez, e nenhum deles se instala em terreno pelado.

O bicho é um auditor honesto, porque não tem interesse nenhum em agradar quem plantou.

A água que voltou a aparecer

O segundo sinal é mais difícil de enxergar e vale mais no sertão do que qualquer outro.

Com a mata de volta, o acesso à água na propriedade melhorou, ainda de acordo com a publicação.

Vegetação em pé reduz o escoamento superficial e dá tempo para a chuva infiltrar em vez de correr embora.

Num lugar onde a estiagem define o ano inteiro, esse detalhe muda a viabilidade da família na terra.

Quanto da área já se recuperou

É importante não exagerar o resultado, porque o próprio texto de origem não exagera.

Parte da propriedade já está recuperada, e o agricultor segue ampliando a área replantada até hoje.

Ou seja, não é uma obra concluída, é uma obra em andamento havia quinze anos quando a reportagem foi publicada.

Reflorestamento tem esse ritmo, e quem promete floresta pronta em cinco anos costuma estar vendendo alguma coisa.

O que uma pessoa sozinha consegue fazer

A história dele se encaixa numa linhagem de casos em que um indivíduo muda a paisagem de um pedaço inteiro de terra.

É o que fez, em outro país e em outra escala, o agricultor indiano que transformou 40 hectares áridos numa floresta com 900 espécies.

No Brasil, o caminho mais conhecido passa pela agricultura sintrópica, que trata a floresta como parte da lavoura e não como obstáculo.

A lógica desse método é tratar a mata como parte da lavoura, e não como área perdida que precisa ser derrubada antes de plantar.

A diferença entre este caso e os outros

Quase todo protagonista dessas histórias chega numa terra já degradada por outra pessoa e decide consertar.

Foi o que aconteceu com Fernanda Rodrigues, que encontrou uma fazenda abandonada no interior do Rio e plantou mais de 120 mil árvores.

Raimundo não herdou um erro alheio, ele herdou o próprio, cometido aos 20 anos e corrigido a partir dos 53.

É por isso que a trajetória dele funciona como argumento no sertão, onde o vizinho conhece a terra e conhece a história.

O que muda dentro da propriedade

Terra com mata em pé produz sombra, e sombra reduz a temperatura do solo em vários graus nas horas mais quentes do dia.

Isso significa menos evaporação, menos rachadura e mais chance de a cultura plantada ao lado atravessar a estiagem viva.

A vegetação também segura o vento, que no semiárido resseca folha nova e derruba muda recém-plantada antes de ela pegar.

São ganhos que não aparecem em foto, mas aparecem na colheita de quem trabalha a terra todo dia.

Por que a idade dele importa na história

Quem começa a replantar aos 53 anos sabe que provavelmente não vai ver a mata adulta que está criando.

Árvore nativa de Caatinga leva décadas para atingir o porte que tinha antes de o terreno ser aberto.

Plantar assim é trabalhar para quem vem depois, e é justamente esse cálculo que o pai dele tinha feito quarenta anos antes.

O que fica para quem lê

A trajetória dele foi destacada em torno do Dia Nacional do Agricultor, celebrado em 28 de julho, como exemplo de convivência com o semiárido.

O que ela ensina não é que desmatar sai caro, porque isso todo mundo já ouviu falar.

É que a conta chega dentro da vida da mesma pessoa que abriu a terra, e não numa geração distante e abstrata.

E fica a pergunta que interessa a quem tem um pedaço de terra na família: você faria hoje o que Raimundo fez aos 20 anos, ou o que ele faz desde os 53?

Fontes

Agência Caririceara

Associação Caatinga


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

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