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Coreia do Sul: por que cada vez mais mulheres não estão tendo filhos e o país enfrenta a menor taxa de natalidade do mundo

Coreia do Sul: por que cada vez mais mulheres não estão tendo filhos e o país enfrenta a menor taxa de natalidade do mundo

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Coreia do Sul: por que cada vez mais mulheres não estão tendo filhos e o país enfrenta a menor taxa de natalidade do mundo

Escrito por Caio Aviz

Publicado em 11/08/2026 às 09:13

Economia

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Jovens caminham por uma área urbana movimentada da Coreia do Sul, país que enfrenta forte queda na taxa de natalidade e mudanças nas decisões sobre casamento e filhos.

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Coreia do Sul registrou nova queda na taxa de fecundidade, enquanto mulheres relatam dificuldades para conciliar filhos, carreira, moradia e qualidade de vida.

Em 2023, a Coreia do Sul registrou uma taxa de fecundidade de apenas 0,72 filho por mulher, queda de 8% em relação ao período anterior. Os números, divulgados em 28 de fevereiro, reforçaram a posição do país como aquele com a menor taxa de natalidade do mundo e ampliaram a preocupação das autoridades com o futuro da população.

Para manter uma população estável, a taxa precisaria ficar em torno de 2,1 filhos por mulher. Caso a tendência continue, as projeções indicam que a população sul-coreana poderá cair pela metade até 2100, enquanto o número de pessoas em idade ativa também deverá sofrer uma redução profunda nas próximas décadas.

O problema já é tratado como uma “emergência nacional”. Dentro de 50 anos, o número de pessoas em idade ativa poderá cair pela metade, o contingente elegível para o serviço militar obrigatório poderá diminuir 58% e quase metade da população poderá ter mais de 65 anos.

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Governo investiu bilhões em incentivos, mas taxa de natalidade continuou caindo

Durante quase duas décadas, sucessivos governos sul-coreanos direcionaram aproximadamente 379,8 bilhões de wons para políticas destinadas a estimular nascimentos. Os programas incluíram pagamentos mensais, moradia subsidiada, táxis gratuitos, cobertura de despesas hospitalares e tratamentos de fertilização in vitro para casais.

Mesmo com os incentivos, a taxa de fecundidade continuou em queda. O fracasso dessas medidas levou políticos a discutir alternativas, como contratação de cuidadoras estrangeiras e benefícios relacionados ao serviço militar para homens com vários filhos.

A dificuldade em reverter o cenário também levantou críticas sobre a maneira como o problema vinha sendo tratado. Mulheres ouvidas apontaram que decisões sobre casamento e maternidade envolvem fatores muito mais amplos do que apenas incentivos financeiros.

Jornadas longas de trabalho fazem mulheres repensarem maternidade e casamento

Yejin, uma produtora de televisão de 30 anos, decidiu morar sozinha, não se casar e não ter filhos. Ela afirma que é difícil encontrar um parceiro disposto a dividir igualmente tarefas domésticas e responsabilidades relacionadas à criação de crianças.

A própria rotina profissional também pesa nessa decisão. Embora trabalhe oficialmente das 9h às 18h, Yejin afirma que frequentemente permanece no escritório até depois das 20h e ainda precisa lidar com horas extras.

O pouco tempo disponível depois do trabalho é usado para tarefas domésticas ou exercícios. Ela também relata uma forte pressão para continuar estudando e se aperfeiçoando profissionalmente, por medo de ficar para trás em um mercado competitivo.

O maior receio, porém, está na possibilidade de interromper a carreira para ter filhos e não conseguir retornar. Yejin afirma ter visto mulheres deixarem seus empregos depois da maternidade, experiência que reforçou sua decisão de não formar uma família.

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Licença parental revela diferença entre homens e mulheres na Coreia do Sul

Uma mulher de 28 anos que trabalhou na área de Recursos Humanos também relatou ter presenciado profissionais sendo pressionadas a deixar seus cargos ou perdendo oportunidades de promoção após a licença-maternidade.

Homens e mulheres possuem direito a um ano de licença durante os primeiros oito anos de vida dos filhos. Em 2022, porém, somente 7% dos novos pais utilizaram parte desse benefício, enquanto 70% das novas mães fizeram o mesmo.

As mulheres sul-coreanas estão entre as mais qualificadas dos países da OCDE, mas continuam enfrentando uma forte diferença salarial em relação aos homens. Também existe uma proporção elevada de mulheres fora do mercado de trabalho em comparação com a população masculina.

Esse cenário alimenta a percepção de que muitas profissionais acabam diante de uma escolha entre carreira e família. Para parte delas, permanecer no mercado de trabalho passou a ser a alternativa mais viável.

Moradia cara e custo da educação aumentam pressão sobre famílias

Stella Shin, de 39 anos, trabalha ensinando inglês para crianças de 5 anos e está casada há seis anos. Ela e o marido chegaram a desejar um filho, mas a rotina de trabalho e o estilo de vida acabaram fazendo com que o tempo passasse.

A professora afirma que não gostaria de abandonar a própria carreira para cuidar de uma criança em tempo integral durante os primeiros anos. A dificuldade de dividir essas responsabilidades com o marido também pesa em sua avaliação sobre a maternidade.

O preço da moradia representa outro obstáculo. Mais da metade da população vive em Seul ou nos arredores, região onde se concentram muitas oportunidades de trabalho e onde os preços dos imóveis pressionam famílias que desejam comprar uma casa.

A taxa de fecundidade de Seul chegou a apenas 0,55 filho por mulher, a menor do país. Além da habitação, famílias também precisam lidar com os elevados gastos relacionados à educação privada.

Crianças entram cedo em aulas particulares e despesas pesam no orçamento dos pais

Na Coreia do Sul, crianças podem começar a frequentar cursos extracurriculares a partir dos quatro anos. Matemática, inglês, música e taekwondo estão entre as atividades comuns em um sistema educacional marcado por forte competição.

Um estudo de 2022 mostrou que somente 2% dos pais não pagavam aulas particulares, enquanto 94% afirmaram que essas despesas representavam um peso financeiro. Stella relata conhecer famílias que gastam valores elevados por filho todos os meses para manter esse tipo de formação.

A pressão ocorre porque muitas famílias acreditam que deixar uma criança fora dessas atividades pode colocá-la em desvantagem diante dos colegas. O resultado é uma combinação de custos elevados, competição escolar e cobrança sobre os pais.

Para Stella, trabalhar diretamente com crianças torna a decisão ainda mais complexa. Ela gosta da convivência com os alunos, mas afirma conhecer profundamente as exigências financeiras e sociais envolvidas na criação de um filho.

Experiência na escola fez mulher decidir que não quer repetir a mesma pressão com um filho

Minji, de 32 anos, decidiu não ter filhos depois de analisar a própria trajetória. Durante a infância e a juventude, passou grande parte do tempo estudando para entrar em uma boa universidade, prestar exames para o funcionalismo público e conseguir o primeiro emprego.

Ela se lembra de permanecer até tarde em salas de aula estudando matemática, disciplina da qual não gostava, enquanto desejava seguir uma carreira artística. O primeiro emprego só chegou aos 28 anos.

Agora, Minji afirma sentir que finalmente possui liberdade para aproveitar a vida, viajar e aprender atividades como mergulho. A possibilidade de fazer uma criança enfrentar a mesma rotina competitiva teve peso decisivo em sua escolha.

O marido gostaria de ter um filho e o casal chegou a discutir sobre o assunto. Com o tempo, ele passou a aceitar a decisão dela, embora Minji admita que ocasionalmente ainda pense sobre a possibilidade de ser mãe.

Maternidade revelou divisão desigual das tarefas dentro de casa

Jungyeon Chun vive uma realidade diferente. Mãe de uma menina de 7 anos e de um menino de 4, ela imaginava que conseguiria retornar rapidamente ao trabalho depois de ter filhos.

A rotina mostrou outra realidade. Jungyeon passou a assumir grande parte dos cuidados com as crianças e das tarefas domésticas, enquanto o marido raramente chegava em casa antes da hora de os filhos dormirem.

A situação provocou frustração porque ela havia crescido acreditando que homens e mulheres deveriam dividir responsabilidades de forma igual. Ao observar outras mães, percebeu que muitas enfrentavam problemas semelhantes.

Jungyeon começou a registrar suas experiências e publicá-las na internet. O webtoon ganhou popularidade entre mulheres que se identificavam com as histórias e acabou resultando na publicação de três livros de quadrinhos.

Mudança econômica avançou mais rápido do que divisão das responsabilidades familiares

Nas últimas cinco décadas, a economia sul-coreana passou por uma transformação profunda. Mulheres avançaram no ensino superior, ampliaram sua presença no mercado de trabalho e passaram a desenvolver expectativas profissionais cada vez maiores.

Os papéis tradicionais de esposa e mãe, porém, não acompanharam essa mudança na mesma velocidade. A criação dos filhos e as tarefas domésticas continuam recaindo de maneira intensa sobre muitas mulheres.

Essa diferença aparece no centro da discussão sobre a baixa natalidade. Para Jungyeon, as dificuldades observadas entre mães não representam casos isolados, mas um fenômeno social compartilhado por diferentes famílias.

A possibilidade de escolher também passou a ocupar espaço nesse debate. Minji afirma que sua geração está entre as primeiras nas quais mulheres podem decidir de maneira mais livre se desejam ou não ter filhos.

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Algumas mulheres querem ter filhos, mas também encontram barreiras legais

Entre as amigas de Yejin está Minsung, de 27 anos, que afirma desejar ter filhos. Ela diz que poderia ter uma família grande, mas enfrenta uma barreira diferente das demais mulheres entrevistadas.

Minsung é bissexual e possui uma parceira do mesmo sexo. O casamento entre pessoas do mesmo sexo não é permitido na Coreia do Sul, enquanto mulheres solteiras também enfrentam limitações para utilizar doadores de esperma.

Ela espera que essas regras mudem para que possa se casar e ter filhos com a pessoa que ama. O caso revela uma contradição dentro da própria crise demográfica, já que algumas mulheres que desejam ser mães encontram obstáculos para formar uma família.

Governo passou a reconhecer baixa natalidade como um problema estrutural

O então presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol reconheceu que as tentativas adotadas pelo governo para enfrentar a queda da natalidade não estavam funcionando. Ele também afirmou que a sociedade sul-coreana havia se tornado excessiva e desnecessariamente competitiva.

A partir disso, o governo anunciou que passaria a tratar a baixa natalidade como um problema estrutural. A mudança indicava uma tentativa de ampliar o debate além dos incentivos financeiros oferecidos até então.

A trajetória de Yejin ajuda a demonstrar essa dimensão. Depois de deixar a Coreia do Sul e se mudar para a Nova Zelândia, ela relatou ter encontrado um equilíbrio melhor entre vida profissional e pessoal, além de se sentir mais respeitada no trabalho.

A crise demográfica sul-coreana, portanto, reúne fatores ligados a trabalho, carreira, educação, moradia, desigualdade e expectativas familiares. A taxa de 0,72 filho por mulher registrada em 2023 é o número que traduz uma transformação social muito mais ampla.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

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