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Criada desde bebê numa aldeia Guarani Mbyá no Paraná, jovem saiu da comunidade aos 7 anos para perseguir os estudos, enfrentou até fome para concluir Medicina, voltou às próprias raízes para cuidar de povos indígenas e anos depois fez história no centro cirúrgico como a primeira cirurgiã cardiovascular indígena do Brasil
Escrito por Ana Alice
Publicado em 14/08/2026 às 05:27
Atualizado em 14/08/2026 às 05:28
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Da infância em uma aldeia indígena à cirurgia cardiovascular, a trajetória de Myrian Krexu atravessou escola pública, universidade, saúde indígena e hospitais sem romper os vínculos culturais construídos desde os primeiros anos de vida.
Muito antes de entrar em um centro cirúrgico para operar corações, Myrian Krexu aprendeu com a avó a ler, plantar, preparar alimentos e reconhecer conhecimentos transmitidos entre gerações dentro de uma comunidade indígena.
Nascida em Xanxerê, no oeste de Santa Catarina, ela foi levada ainda bebê para a Terra Indígena Rio das Cobras, no Paraná, onde cresceu ligada ao povo Guarani Mbyá.
O território reúne comunidades indígenas e aparece em registros históricos com população de milhares de moradores.
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A menina que teve o primeiro contato marcante com um médico depois de quebrar o braço aos quatro anos seguiria um caminho pouco comum: escola pública, universidade estadual, trabalho em saúde indígena e formação em cirurgia cardíaca.
Myrian Krexu tornou-se a primeira cirurgiã cardiovascular indígena do Brasil, condição que continua sendo atribuída a ela em registros recentes.
Em março de 2026, o portal médico Afya voltou a apresentá-la dessa forma ao incluí-la entre médicas brasileiras vivas e atuantes.
O percurso não significou deixar para trás os conhecimentos da comunidade onde cresceu.
Em entrevistas ao longo da carreira, Myrian passou a defender justamente a possibilidade de aproximar medicina científica, atenção hospitalar e saberes tradicionais sem tratar essas formas de conhecimento como necessariamente incompatíveis.
Fratura aos quatro anos colocou a Medicina no caminho de Myrian Krexu
Myrian contou que tinha apenas quatro anos quando quebrou o braço.
Até então, segundo seu próprio relato, ela não compreendia exatamente o que fazia um médico.
O pai explicou de maneira simples: seria alguém capaz de “consertar gente”.
A comparação ficou na memória da criança.
Myrian relataria anos depois que gostava de desmontar e remontar objetos e, diante daquela explicação, começou a imaginar que também poderia trabalhar “consertando” pessoas.
A escolha da especialidade viria muito mais tarde.
Antes disso, havia uma dificuldade bem mais básica: continuar estudando.
Aos sete anos, Myrian precisou sair da aldeia para prosseguir a formação escolar, mantendo contato com a família e com a cultura Guarani Mbyá.
Foi uma mudança que ela própria descreveu posteriormente como um dos grandes marcos de sua vida.
Avó foi uma das primeiras professoras da futura médica indígena
Antes mesmo de entrar em uma escola convencional, Myrian já havia recebido ensinamentos da avó.
Com ela, aprendeu a ler em português, desenhar e realizar trabalhos manuais.
Também teve contato com conhecimentos ligados a alimentos, plantio, preparo de chás e outras práticas cotidianas da comunidade.
Ao falar sobre essa fase, a médica destacou o papel das mulheres mais velhas na transmissão de conhecimentos entre gerações.
Myrian chegou a comparar as anciãs a bibliotecas vivas, numa referência à importância da tradição oral para preservar histórias e saberes dentro das comunidades indígenas.
Essa formação acompanharia a futura médica mesmo quando sua rotina passou a envolver livros acadêmicos, hospitais e procedimentos cirúrgicos.
Vestibular indígena abriu caminho para Medicina na Unioeste
Depois de concluir os estudos em escola pública, Myrian entrou no curso de Medicina da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, a Unioeste.
O ingresso ocorreu por meio do Vestibular dos Povos Indígenas.
Há uma correção importante em relação a relatos que situam a criação dessa política em 2006.
O Vestibular dos Povos Indígenas do Paraná foi criado em 2001, com base na Lei estadual nº 13.134, como uma política voltada ao acesso de estudantes indígenas às universidades públicas do estado.
A iniciativa permaneceu ativa nas décadas seguintes.
Em 2024, a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná informou que 295 estudantes haviam ingressado pelas vagas indígenas e estavam matriculados nas instituições participantes no levantamento referente a 2023.
A mesma fonte oficial citou Myrian entre os indígenas já formados pela Unioeste e a identificou como cirurgiã cardiovascular.
Formação em Medicina trouxe desafios além das provas
Conseguir a vaga não eliminou os obstáculos.
Myrian contou que o conteúdo acadêmico não era necessariamente a parte mais difícil da experiência universitária.
Sair da comunidade, ficar distante da família e enfrentar dificuldades financeiras pesavam na rotina.
Em entrevista à Elsevier, ela relatou ter passado fome durante a graduação porque precisava escolher como distribuir o dinheiro entre aluguel, alimentação e materiais de estudo.
O apoio recebido da comunidade aparece em suas próprias lembranças como parte importante daquele período.
Ainda assim, Myrian atravessou a formação e recebeu o diploma de Medicina em 2013.
O passo seguinte poderia ter sido uma especialização imediata.
Ela escolheu outro caminho.
Três anos na saúde indígena vieram antes da cirurgia cardíaca
Depois de formada, Myrian voltou a trabalhar diretamente com povos indígenas.
Durante aproximadamente três anos, atuou na atenção básica de sua própria aldeia e também em outras comunidades.
Nesse período, atendia situações que não tinham relação direta com a especialidade que escolheria depois.
Crianças, idosos, gestantes e ações de prevenção faziam parte da rotina relatada pela médica.
A experiência ajudou a manter uma ligação prática com a comunidade depois da universidade.
Mesmo após seguir para a formação cirúrgica, Myrian afirmou que continuava prestando atendimento voluntário quando retornava à aldeia.
Foi somente depois desses três anos que ela decidiu voltar aos estudos especializados.
Assista o vídeo
Habilidade manual e interesse pelo coração levaram à cirurgia cardiovascular
Durante a graduação, Myrian já demonstrava interesse pelas áreas cirúrgicas.
A afinidade com trabalhos manuais, presente desde a infância, juntou-se ao interesse pela cardiologia.
A combinação levou à escolha pela cirurgia cardiovascular.
Myrian realizou formação no Instituto de Neurologia e Cardiologia, em Curitiba, trajetória registrada por diferentes fontes que acompanharam sua carreira.
Em entrevista concedida quando ainda avançava pela especialização, ela fez outra comparação semelhante àquela ouvida do pai na infância.
Se o cérebro poderia ser visto como uma espécie de painel de controle, dizia Myrian, o coração seria o “motorzinho” do organismo.
A criança que havia associado a Medicina a “consertar pessoas” acabava chegando justamente à área responsável por operar esse motor.
Myrian Krexu tornou-se a primeira cirurgiã cardiovascular indígena do Brasil
A conclusão dessa etapa transformou Myrian em uma referência que passaria a aparecer em diferentes registros médicos, educacionais e jornalísticos.
A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná a apresenta como médica cirurgiã e egressa indígena da Unioeste.
A Elsevier a identificou em entrevista como a primeira cirurgiã cardiovascular indígena do Brasil.
Em 2021, uma reportagem do programa Bem-Estar, da Globo, também a apresentou como a primeira cirurgiã cardíaca indígena do país e mostrou sua atuação durante a pandemia de covid-19.
Já em março de 2026, o perfil publicado pela Afya manteve a mesma identificação e destacou sua trajetória entre a saúde indígena e a cirurgia cardiovascular.
Centro cirúrgico não afastou Myrian dos conhecimentos da aldeia
Uma das características mais presentes nas falas públicas de Myrian é a tentativa de não tratar sua formação médica e sua identidade indígena como mundos separados.
Ela afirma que medicina científica e conhecimentos tradicionais podem trabalhar lado a lado quando cada prática respeita seus limites.
Em entrevista publicada pela Elsevier, a cirurgiã lembrou que comunidades indígenas possuem conhecimentos próprios sobre plantas e formas de cuidado transmitidas ao longo das gerações.
Isso não significa substituir procedimentos comprovados ou tratamentos médicos por práticas tradicionais.
A própria Myrian destaca a importância da medicina baseada em evidências e do acesso a informações científicas de qualidade.
Sua defesa é de que o conhecimento técnico não precisa exigir o abandono automático da cultura de quem está sendo atendido.
Essa perspectiva também aparece em perfil publicado pela Afya em 2026, que destacou a defesa feita pela médica de uma aproximação entre conhecimento técnico-científico e saberes ancestrais.
Assista o vídeo
Trajetória de Myrian virou referência para outros estudantes indígenas
O caminho aberto pelo vestibular indígena continuou recebendo novos estudantes.
Em 2024, a própria Secretaria estadual apresentou a história de Ádana Garigsãnh Bernardo, jovem kaingang da Terra Indígena Rio das Cobras que também entrou em Medicina na Unioeste.
Ao contextualizar a política, o governo paranaense lembrou que 12 indígenas já haviam se formado na universidade, incluindo Myrian.
A permanência dessa política ajuda a colocar sua trajetória em um contexto maior.
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Myrian deixou de ser apenas uma estudante tentando concluir Medicina e passou a aparecer como um exemplo anterior para novos universitários indígenas que chegaram depois dela.
Ao falar sobre representatividade, a própria cirurgiã já afirmou sentir a responsabilidade de mostrar que pessoas indígenas podem acessar a educação e exercer as profissões que escolherem.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

