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Crianças de Paraisópolis descobrem que livros também podem colocar comida em casa, frequentam biblioteca, leem e contam o que aprenderam e ajudam suas famílias a receber cestas básicas em projeto que já reúne 850 associados
Escrito por Ana Alice
Publicado em 30/08/2026 às 21:45
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Uma iniciativa criada em Paraisópolis uniu biblioteca, tecnologia e apoio alimentar, transformando a frequência de crianças e jovens aos livros em uma experiência que também alcançava diretamente suas famílias.
Uma biblioteca comunitária de Paraisópolis, em São Paulo, encontrou no início dos anos 2000 uma maneira incomum de aproximar crianças e jovens dos livros: a dedicação à leitura podia resultar na entrega de uma cesta básica para a família do participante.
Batizada de “A Leitura Alimenta”, a iniciativa foi desenvolvida pela então EAN Brasil, organização atualmente chamada GS1 Brasil, e utilizou uma tecnologia normalmente associada à identificação e à rastreabilidade de produtos para acompanhar o empréstimo e a circulação de livros.
Os dados preservados pelo Centro de Excelência em Varejo da Fundação Getulio Vargas mostram que a biblioteca chegou a 850 associados e cerca de 120 visitas por dia, considerando pessoas que procuravam o acervo ou utilizavam o acesso à internet.
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Esses números, porém, correspondem ao registro histórico do projeto, apresentado no contexto do 1º Prêmio FGV-EAESP de Responsabilidade Social no Varejo, em 2003, e cadastrado pela instituição em 2004.
A ideia não consistia simplesmente em entregar alimentos em troca da retirada de qualquer livro.
O sistema acompanhava quais obras circulavam, por quanto tempo permaneciam com os leitores e quais crianças e adolescentes demonstravam maior envolvimento com a leitura.
Depois dessa seleção, os participantes eram convidados a explicar o que haviam lido, produzindo um pequeno resumo ou comentário sobre os livros.
A partir desse acompanhamento, famílias de crianças e jovens que demonstravam dedicação à leitura podiam receber cestas básicas como forma de complementar a alimentação doméstica.
Biblioteca de Paraisópolis tinha cerca de 15 mil livros
Quando a iniciativa começou, o cenário descrito pela EAN Brasil era bastante diferente daquele encontrado posteriormente.
Segundo o registro preservado pela FGV, a biblioteca comunitária possuía um acervo de aproximadamente 15 mil livros, mas enfrentava dificuldades para organizar as obras e controlar sua circulação.
Não havia um sistema estruturado de registro de associados nem um mecanismo adequado para acompanhar os empréstimos.
Na descrição feita à época, o espaço era apresentado como uma importante fonte de pesquisa para moradores de Paraisópolis.
O projeto surgiu justamente da combinação de duas necessidades: melhorar a gestão da biblioteca e criar um estímulo adicional para aproximar crianças e adolescentes da leitura.
Os números populacionais utilizados pela iniciativa também pertencem àquele período.
O documento mencionava cerca de 60 mil moradores em Paraisópolis, dos quais aproximadamente 15 mil seriam crianças.
Esses dados não devem ser interpretados como uma estimativa atual da população da comunidade, já que fazem parte do material histórico apresentado pela própria iniciativa há mais de duas décadas.
Tecnologia do sistema EAN.UCC passou a acompanhar os livros
O aspecto mais incomum do projeto estava na tecnologia escolhida para organizar a biblioteca.
A EAN Brasil trabalhava com padrões de identificação e rastreabilidade empregados principalmente no comércio e na cadeia de abastecimento.
No projeto de Paraisópolis, parte desse conhecimento foi adaptada para os livros.
Por meio do sistema EAN.UCC, a biblioteca conseguiu registrar informações sobre a circulação do acervo, identificar as faixas etárias dos leitores, acompanhar quais títulos tinham maior procura e verificar quanto tempo cada obra permanecia com um associado.
A organização que conduziu a iniciativa passou por mudanças de nome ao longo dos anos.
A entidade havia surgido em 1983 como Associação Brasileira de Automação Comercial, ficou conhecida posteriormente como EAN Brasil e hoje atua como GS1 Brasil — Associação Brasileira de Automação.
A padronização mundial passou a usar a denominação GS1 após a integração dos sistemas EAN e UCC.
Assim, uma tecnologia desenvolvida para identificar e rastrear produtos acabou sendo aplicada a um objetivo bastante diferente: saber como os livros circulavam dentro de uma biblioteca comunitária.
Crianças precisavam mostrar envolvimento com a leitura
O acompanhamento não terminava quando alguém devolvia um livro.
Depois de consultar o banco de dados, os responsáveis pelo projeto identificavam crianças e adolescentes que demonstravam maior dedicação.
Esses leitores eram convidados a conversar sobre o conteúdo das obras.
Também podiam elaborar pequenos resumos ou fazer comentários que ajudassem os responsáveis a perceber se havia realmente ocorrido contato e interesse pela leitura.
A cesta básica aparecia ao final desse processo como uma forma de incentivo ligada à família.
A proposta conectava, portanto, o hábito individual de ler a um benefício que alcançava também outras pessoas dentro de casa.
O registro da FGV não informa uma quantidade total de cestas entregues, a frequência exata da distribuição ou quantas famílias foram contempladas durante toda a duração da iniciativa.
Esses números, por isso, não podem ser estimados com segurança.
Biblioteca chegou a 850 associados e 120 visitas por dia
Com a implantação do sistema, a biblioteca passou a contar com registros mais organizados de associados e empréstimos.
O documento histórico informa que o espaço alcançou 850 associados.
Além deles, outros usuários utilizavam a estrutura.
Somando consultas ao acervo e acesso à internet, a biblioteca chegou a registrar cerca de 120 visitas diariamente, de acordo com os dados apresentados pela EAN Brasil à FGV.
Para uma iniciativa centrada inicialmente na organização de milhares de livros, o crescimento da circulação mostrou que o projeto não se limitou à distribuição de alimentos.
A própria biblioteca também passou por mudanças em seu funcionamento.
O sistema tornou mais fácil localizar informações sobre os títulos disponíveis e acompanhar o percurso de cada exemplar depois do empréstimo.
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Voluntários da biblioteca também receberam capacitação
Outro efeito registrado pela iniciativa apareceu entre as pessoas que trabalhavam na biblioteca.
Os voluntários receberam capacitação para utilizar os sistemas instalados e aprenderam procedimentos relacionados à organização do acervo.
Também foram oferecidos treinamentos sobre encadernação, limpeza e conservação dos livros.
Essas medidas buscavam resolver um dos problemas identificados antes da implantação do projeto: havia milhares de obras disponíveis, mas faltava uma estrutura de controle capaz de facilitar o atendimento e preservar o material.
Com os registros informatizados, tornou-se possível acompanhar tanto o uso do acervo quanto o comportamento dos leitores.
A tecnologia, nesse caso, funcionava nos bastidores.
Para as crianças, a atividade principal continuava sendo escolher um livro, levá-lo para leitura e depois demonstrar interesse pelo conteúdo.
Assista o vídeo
Projeto “A Leitura Alimenta” apareceu em iniciativa da FGV
“A Leitura Alimenta” foi incluído no banco de projetos ligado ao 1º Prêmio FGV-EAESP de Responsabilidade Social no Varejo, realizado em 2003.
Na página mantida pelo Centro de Excelência em Varejo da Fundação Getulio Vargas, a iniciativa aparece com status de participante.
O cadastro preservado pela instituição tem data de 23 de setembro de 2004 e identifica a então EAN Brasil como responsável pela apresentação do programa.
Esse detalhe é importante para situar a história no tempo.
Embora páginas antigas sobre o projeto continuem disponíveis na internet, os números de 850 associados, 120 visitas diárias e 15 mil livros são registros daquele período e não há confirmação confiável de que permaneçam iguais atualmente.
Também não foram encontradas fontes recentes da GS1 Brasil indicando que o programa “A Leitura Alimenta” continue funcionando hoje com o mesmo modelo de acompanhamento e distribuição de cestas básicas.
Paraisópolis mantém novas iniciativas ligadas à leitura
Apesar de não haver confirmação recente sobre a continuidade do projeto original, Paraisópolis continua abrigando iniciativas voltadas ao acesso aos livros.
Em 2026, por exemplo, o projeto Leitura nas Comunidades, desenvolvido pelo Ítalo Para em parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, mantém atividades de incentivo à leitura e escrita em Paraisópolis e Heliópolis, incluindo ações com alunos da rede pública.
Outras organizações também mantêm bibliotecas na comunidade.
A Associação Crescer Sempre informa atualmente possuir uma biblioteca aberta ao público com mais de 15 mil títulos, enquanto o Instituto BECEI afirma administrar em Paraisópolis uma biblioteca comunitária com aproximadamente 40 mil volumes.
Esses espaços não devem ser confundidos automaticamente com a estrutura onde funcionou “A Leitura Alimenta”, porque as fontes disponíveis não permitem estabelecer com segurança que se trata da mesma biblioteca ou de uma continuidade institucional do antigo projeto.
Eles mostram, no entanto, que iniciativas relacionadas aos livros continuam presentes na comunidade mais de duas décadas depois do registro da experiência conduzida pela EAN Brasil.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

