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Crianças que navegam 40 minutos todo dia para chegar à escola fizeram o ensaio de formatura do ABC dentro de uma canoa, fotografadas por celular e por valor simbólico porque as famílias vivem da colheita do açaí

Crianças que navegam 40 minutos todo dia para chegar à escola fizeram o ensaio de formatura do ABC dentro de uma canoa, fotografadas por celular e por valor simbólico porque as famílias vivem da colheita do açaí

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Crianças que navegam 40 minutos todo dia para chegar à escola fizeram o ensaio de formatura do ABC dentro de uma canoa, fotografadas por celular e por valor simbólico porque as famílias vivem da colheita do açaí

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 07/08/2026 às 23:36

Curiosidades

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Crianças que navegam 40 minutos até a escola de palafita no Pará fizeram o ensaio de formatura do ABC dentro de uma canoa, fotografado por celular.

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Sentadas em uma canoa, de beca e capelo, com a escola de madeira sobre palafitas ao fundo. A imagem dos formandos do ABC do rio Acarajó, em Abaetetuba, no Pará, rodou a internet e mostrou uma rotina que ali não tem nada de excepcional: o rio é o caminho, e o barco é o ônibus escolar.

Um ensaio fotográfico de formatura feito dentro de uma canoa à beira do rio Acarajó, em Abaetetuba, no nordeste do Pará, viralizou nas redes sociais após ser publicado por uma das professoras da turma, segundo reportagem publicada pelo g1 em 10 de fevereiro de 2023. Nas imagens aparecem crianças de 6 a 8 anos, com roupas de colação de grau, sentadas na embarcação, tendo ao fundo a Escola Municipal de Ensino Infantil e Ensino Fundamental 8 de Dezembro, erguida sobre palafitas.

O ensaio foi feito no início de 2023 para marcar a formatura do ABC, o fim do ciclo de alfabetização. As fotos saíram de um celular, e a fotógrafa cobrou um valor simbólico. A explicação para isso está na condição das famílias da região, que sobrevivem da colheita do açaí e de programas do Governo Federal.

A foto que rodou a internet

Professora e alunos em canoa fazendo fotos de formatura no Pará — Foto: Danúbia Rodrigues

O que chamou atenção nas redes não foi uma produção elaborada. Foi o contraste. Beca e capelo, símbolos que o Brasil inteiro associa a auditório, palco e salão de festas, aparecem ali dentro de uma canoa de madeira, sobre a água barrenta de um rio amazônico, com uma escola de palafita como cenário de fundo.

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O ensaio incluiu também fotografias individuais das crianças, feitas dentro da sala de aula e na área externa da escola. A intenção declarada pela professora era registrar a realidade dos alunos, e não maquiá-la. O barco não entrou na foto como enfeite, entrou porque é o meio de transporte que aquelas crianças usam todos os dias para chegar à aula.

A publicação partiu de uma das professoras da turma, Regina Maciel, e se espalhou a partir dali. O que era o registro de um momento pequeno de uma comunidade ribeirinha virou assunto nacional em poucos dias.

Uma escola de madeira sobre palafitas

Crianças fazem ensaio de colação de grau em barco no Pará — Foto: Danúbia Rodrigues

A EMEIF 8 de Dezembro fica à beira do rio Acarajó, em Abaetetuba, e foi construída em madeira, sobre estacas, como boa parte das edificações da região das ilhas. A escola atende educação infantil e ensino fundamental até a quinta série.

Os números são pequenos e dizem muito. Em 2022, a unidade contabilizou mais de 32 alunos matriculados, segundo a professora, e a expectativa para o ano seguinte era passar de 40. Uma escola inteira, de várias etapas de ensino, cabe em uma turma do tamanho de uma sala de aula de cidade grande. É a escala típica das comunidades ribeirinhas, onde a unidade escolar existe justamente para evitar deslocamentos ainda maiores.

A localização também explica a arquitetura. Em áreas sujeitas ao regime de cheia dos rios, construir sobre palafitas não é opção estética, é necessidade estrutural. O que a professora aponta como problema não é o formato, é o estado de conservação e o mobiliário.

Quarenta minutos de rio, todo dia

O trajeto até a escola leva cerca de 40 minutos, feito integralmente pela água. Não há estrada, não há ponto de ônibus, não há calçada. Entre a vila Maioatá e o rio Acarajó, onde fica a escola, o caminho é o próprio rio, e a travessia se repete na ida e na volta.

As crianças chegam de formas diferentes. Algumas usam o barco disponibilizado pela escola, descrito pela professora como bastante precário. Outras vêm acompanhadas dos pais em pequenas embarcações que na região são chamadas de rabudas. Todas convivem com o remo desde cedo e desenvolvem habilidade com a navegação antes mesmo de aprender a ler. É por isso que aparecem tranquilas nas fotos dentro da canoa, sem qualquer sinal de estranhamento com o cenário.

Vale dimensionar o que isso significa na rotina. Quarenta minutos de ida somados a quarenta de volta dão mais de uma hora e meia de deslocamento diário sobre a água para uma criança de 6 a 8 anos, todos os dias letivos, independentemente de chuva, sol ou nível do rio.

O ensaio feito com um celular

A produção das fotos foi tão simples quanto o cenário. A professora chamou uma moradora da mesma região para fazer o ensaio dos formandos, e as imagens foram registradas com um aparelho celular. Não houve estúdio, equipamento profissional nem estrutura de iluminação.

A questão do preço foi tratada abertamente. A fotógrafa cobrou um valor simbólico depois de saber da situação das famílias, conforme relatou a professora. O que garantiu o registro daquele momento não foi orçamento, foi combinado entre vizinhas. As imagens que circularam com crédito à fotógrafa Danúbia Rodrigues são as mesmas que colocaram a comunidade do Acarajó no noticiário nacional.

O detalhe é significativo porque desmonta uma leitura fácil da história. A foto não viralizou por qualidade técnica ou direção de arte. Viralizou porque a cena que ela mostra é real e porque quase ninguém, fora da Amazônia, imagina uma formatura acontecendo assim.

O açaí que sustenta as famílias

A base econômica da comunidade aparece de forma direta no relato da professora. As famílias dos alunos sobrevivem da colheita do açaí e de programas do Governo Federal. É uma economia sazonal, ligada ao ciclo do fruto e ao trabalho de subida nas palmeiras, e que não gera renda estável ao longo do ano inteiro.

Esse é o contexto que explica o valor simbólico cobrado pelo ensaio. Não se trata de escolha estética nem de simplicidade voluntária. Em uma comunidade que vive da colheita do açaí, contratar um ensaio fotográfico de formatura a preço de mercado simplesmente não é uma possibilidade. A professora foi explícita ao dizer que apresentou essa situação à fotógrafa antes de fechar o combinado.

O açaí, aliás, é o mesmo produto que sai de Abaetetuba e região para abastecer o mercado nacional e internacional, transformado em produto premium em capitais e no exterior. A distância entre quem colhe e quem consome fica evidente quando se olha a estrutura da escola onde estudam os filhos dos colhedores.

O apelo da professora e o mobiliário com 18 anos de uso

A parte mais direta da reportagem não está nas fotos, está em uma frase da professora. Ela pede que as autoridades olhem para a estrutura e para o mobiliário da escola, e descreve o que gostaria de ver: chão adequado, paredes inteiras, mesas e cadeiras novas.

O detalhe que dá peso ao pedido é a idade dos móveis. Segundo ela, as mesmas mesas e cadeiras estão em uso há 18 anos. Um estudante que se forma no ABC hoje usa a mesma carteira em que sentaram crianças que já saíram da escola, cresceram e viraram adultas. O apelo não é por equipamento sofisticado, é pelo básico.

A professora expôs esse quadro no mesmo momento em que as fotos da canoa circulavam, o que deu à cobrança um alcance que dificilmente teria em outra circunstância. A visibilidade da imagem funcionou como veículo para uma demanda antiga.

O que responde a Prefeitura de Abaetetuba

Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Abaetetuba informou que todas as localidades da região dispõem de transporte aquaviário para garantir o acesso à educação. Segundo a nota, o transporte escolar nas ilhas do município é feito por 350 embarcações, que atendem diariamente todas as comunidades ribeirinhas, incluindo a do Acarajó. Ilhas com maior número de alunos chegam a contar com até 20 embarcações.

A administração municipal explicou também como o serviço é bancado. O custo elevado do transporte escolar é dividido entre recurso municipal, recurso estadual vindo do Programa Estadual de Transporte Escolar do Pará, e recurso federal, do Programa Nacional de Transporte Escolar. A conta do barco escolar na Amazônia envolve três níveis de governo simultaneamente.

Sobre a escola em si, a prefeitura afirmou que entre 2021 e 2022 destinou novos equipamentos e mobiliários à unidade do rio Acarajó. E informou que a EMEIF 8 de Dezembro já constava no levantamento da Secretaria Municipal de Educação para reconstrução, com substituição da estrutura de madeira por alvenaria, com o objetivo de garantir mais acessibilidade e melhores condições físicas para o ensino.

Território das Águas: 72 ilhas e 75 localidades

A região onde fica a escola é chamada de Território das Águas e reúne 72 ilhas, com 75 localidades estabelecidas às margens de rios, furos e igarapés. A maior parte dos estudantes da rede municipal dessa área estuda em escolas de ensino infantil e fundamental instaladas perto de onde moram.

Essa dispersão explica a lógica do sistema. Concentrar os alunos em poucas unidades grandes significaria trajetos de barco muito mais longos para as famílias. Manter escolas pequenas espalhadas pelas ilhas é o que mantém as crianças dentro de um trajeto viável. O custo dessa opção é conhecido: muitas unidades pequenas, com estrutura simples, exigindo manutenção constante em ambiente de umidade permanente.

O município vem executando um programa de substituição das antigas escolas de madeira da zona ribeirinha por prédios de alvenaria. Entre as unidades entregues e divulgadas pela Prefeitura de Abaetetuba em 2025 estão a EMEIF da Costa Maratauíra, no rio Costa Maratauíra, e a Nossa Senhora do Carmo, no rio Marinquara, esta última apresentada como a primeira escola das ilhas com sistema de energia solar.

Uma formatura que cabe numa canoa

O ensaio do rio Acarajó viralizou porque juntou duas imagens que o país não costuma ver na mesma foto: a solenidade da beca e a realidade da palafita. Mas o que ele registra, para aquelas famílias, é rotina pura. A canoa não foi escolhida como cenário criativo, ela é o transporte de todo dia.

O que a repercussão trouxe de novo foi visibilidade para um pedido antigo, feito por uma professora que trabalha com mobiliário de quase duas décadas de uso e que queria ver os alunos entrando em uma escola com chão e paredes inteiras. As crianças da foto terminaram a alfabetização. A pergunta que sobra é em que tipo de sala elas vão continuar estudando.

E você, imaginava que existisse ônibus escolar que anda sobre a água e leva 40 minutos só de ida? Conta nos comentários como era o seu trajeto até a escola quando criança e quanto tempo levava.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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