Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

De catadores de recicláveis a diplomados: 22 trabalhadores concluem graduação gratuita de 2 anos na Universidade Católica de Brasília e levam gestão profissional para dentro das cooperativas

De catadores de recicláveis a diplomados: 22 trabalhadores concluem graduação gratuita de 2 anos na Universidade Católica de Brasília e levam gestão profissional para dentro das cooperativas

DF

6 min de leitura

De catadores de recicláveis a diplomados: 22 trabalhadores concluem graduação gratuita de 2 anos na Universidade Católica de Brasília e levam gestão profissional para dentro das cooperativas

Escrito por Caio Aviz

Publicado em 11/08/2026 às 15:14

Curiosidades

Canal

Trabalhadores ligados à reciclagem comemoram a conclusão do curso superior de Gestão de Cooperativas, formação gratuita voltada à profissionalização das cooperativas.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Primeira turma formada por trabalhadores da reciclagem teve 25 matriculados, 22 concluintes e formação voltada à administração profissional das cooperativas do Distrito Federal

Em 10 de março de 2026, 22 trabalhadores ligados à reciclagem concluíram o curso tecnólogo em Gestão de Cooperativas na Universidade Católica de Brasília, a UCB. Eles fizeram parte da primeira turma criada em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo do Distrito Federal, o Sescoop-DF, em uma iniciativa voltada à qualificação de profissionais que já atuavam diretamente em cooperativas.

A graduação foi oferecida gratuitamente e começou com 25 estudantes matriculados. Ao final do percurso, 22 chegaram à colação de grau, realizada no ginásio da universidade. A formação teve como objetivo aproximar a experiência prática desses trabalhadores de conhecimentos ligados à administração, legislação e organização cooperativista.

O curso surgiu em um contexto de transformação do trabalho dos catadores no Distrito Federal. Depois do fechamento do antigo lixão da Estrutural, em 2018, parte desses profissionais passou a depender ainda mais das cooperativas como forma de organização econômica e profissional.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Gestão de Cooperativas foi criada para profissionalizar trabalhadores que já atuavam diretamente com reciclagem

A proposta do curso partiu da necessidade de preparar os cooperados para funções que iam além da coleta, separação e comercialização dos materiais recicláveis. Dentro das cooperativas, eles também precisavam lidar com decisões administrativas, planejamento, fiscalização e organização interna.

Rafael Campolino, coordenador da graduação, avaliou que a formação ajudaria a levar essas organizações de uma estrutura mais informal para um modelo profissional de gestão. A mudança era importante porque, no cooperativismo, os trabalhadores não atuam apenas como funcionários, mas também participam das decisões e da condução da própria organização.

Esse cenário ficou mais evidente depois de 2018. Com o encerramento das atividades no antigo lixão da Estrutural, muitos recicladores precisaram se adaptar a novas formas de trabalho, enquanto o Governo do Distrito Federal ampliou ações voltadas à estruturação de cooperativas.

A criação das organizações resolveu parte do problema, mas também expôs outra necessidade: os trabalhadores precisavam compreender como administrar um modelo no qual eles próprios assumiam responsabilidades pela gestão.

Curso gratuito teve 1.600 horas, duração de dois anos e disciplinas voltadas ao funcionamento das cooperativas

A graduação em Gestão de Cooperativas teve dois anos de duração e carga horária de 1.600 horas. O conteúdo seguiu as atualizações do catálogo de cursos tecnológicos do Ministério da Educação e reuniu disciplinas básicas e específicas.

Entre os componentes estavam Direito Cooperativista, Evolução do Pensamento Cooperativista, Estratégia de Gestão de Cooperativas, Língua Portuguesa, Interpretação de Texto e Introdução à Educação Superior. A formação buscava fornecer ferramentas que pudessem ser aplicadas diretamente na rotina das organizações.

Enquanto a primeira turma encerrava o curso, uma segunda já havia sido formada para 2026. Desta vez, 35 estudantes foram matriculados, ampliando o alcance do projeto entre trabalhadores vinculados ao setor de reciclagem.

Formatura celebra a conquista do diploma por trabalhadores da reciclagem.

Cláudia trabalhou como catadora de latinhas, chegou à presidência de uma cooperativa e concluiu a graduação aos 57 anos

Entre as formandas estava Cláudia Maria Alves de Morais, de 57 anos. Natural do Piauí, ela chegou a Brasília em 1994 em busca de novas oportunidades e passou por diferentes atividades para sustentar a família.

Cláudia trabalhou como catadora de latinhas, exerceu funções em serviços gerais e também vendeu revistas para ajudar na criação dos três filhos. Por volta de 2005, surgiu a possibilidade de ingressar em uma cooperativa, após uma sugestão de seu então chefe.

A iniciativa nasceu em um período no qual muitos catadores e carroceiros trabalhavam nas ruas e enfrentavam forte preconceito. Para Cláudia, a categoria era frequentemente associada à marginalização, embora a catação representasse uma atividade profissional legítima.

Com o passar dos anos, ela assumiu novas responsabilidades dentro do setor e chegou à presidência da Recicle a Vida, cooperativa localizada em Ceilândia e vinculada ao Sescoop.

Diploma permitiu que experiência acumulada por Cláudia fosse transformada em conhecimento de gestão

A conclusão do curso significou para Cláudia uma oportunidade de reunir a experiência adquirida ao longo de anos com uma formação acadêmica voltada ao funcionamento das cooperativas.

O aprendizado em gestão, legislação e organização poderia ser aplicado diretamente na Recicle a Vida. Além disso, ela afirmou que pretendia repassar o conhecimento aos demais trabalhadores para fortalecer o movimento dos catadores.

A formação também teve um significado simbólico para quem passou grande parte da vida em uma atividade historicamente marcada pelo preconceito. O diploma representou o reconhecimento de uma trajetória construída dentro da reciclagem e abriu espaço para uma atuação cada vez mais profissionalizada.

Eliane interrompeu os estudos aos 17 anos, voltou à escola por causa de um estágio e depois chegou ao ensino superior

Eliane Ribeiro da Silva, de 32 anos, também fez parte da primeira turma. Nascida na Bahia e moradora de Brasília desde a adolescência, ela deixou os estudos aos 17 anos depois de engravidar da primeira filha e precisar priorizar o trabalho.

Durante anos, sua rotina esteve ligada à cooperativa de reciclagem onde começou a trabalhar ainda jovem. O retorno à escola aconteceu quando surgiu uma oportunidade de estágio voltada a trabalhadores do setor, mas a participação dependia de matrícula escolar.

A exigência fez com que Eliane retomasse os estudos e concluísse o ensino médio. A partir daí, sua trajetória profissional também começou a mudar.

Ela passou a atuar nas áreas administrativa e financeira da cooperativa e, posteriormente, foi indicada para trabalhar na central que reúne diferentes cooperativas de reciclagem do Distrito Federal.

Recomendado para você

Construção

Brasileira cria projeto para que mulheres construam suas próprias casas em Uganda e ganha prêmio internacional de arquitetura

Casa de Jajja, uma moradia rural pensada para mulheres da zona rural de Uganda, com materiais locais, adobe e captação de água da chuva

Uma proposta brasileira de arquitetura social chamou…

Caio Aviz

16

Trabalho administrativo abriu caminho para Eliane ingressar gratuitamente no curso de Gestão de Cooperativas

Foi dentro desse ambiente profissional que Eliane teve acesso à graduação em Gestão de Cooperativas. A formação gratuita passou a representar uma continuidade natural de uma trajetória que havia começado no trabalho operacional e avançado para funções administrativas.

Depois do curso, ela passou a trabalhar como técnica em projetos relacionados ao cooperativismo e afirmou que a formação ampliou tanto a renda quanto suas possibilidades profissionais.

O impacto também chegou à vida familiar. Mãe de duas meninas, Eliane passou a enxergar o próprio diploma como uma referência para as filhas, mostrando que era possível retomar os estudos mesmo depois de anos afastada da escola.

A graduação, entretanto, não encerrou seus planos acadêmicos. No futuro, ela pretende cursar História e realizar o objetivo de se tornar professora.

Primeira turma aproximou formação universitária da realidade de trabalhadores das cooperativas de reciclagem

A parceria entre UCB e Sescoop-DF criou uma formação superior direcionada a pessoas que já conheciam o funcionamento das cooperativas pela experiência cotidiana, mas ainda não tinham acesso ao mesmo nível de conhecimento técnico e administrativo.

Segundo o reitor da Universidade Católica de Brasília, Manuel Nabais da Furriela, projetos desenvolvidos com diferentes instituições ajudam a ampliar o acesso ao ensino superior para públicos diversos.

No caso dos trabalhadores da reciclagem, a primeira turma reuniu trajetórias profissionais construídas durante anos dentro das cooperativas e acrescentou a elas uma formação acadêmica específica.

A colação de grau realizada em março de 2026 marcou justamente esse encontro entre experiência prática e ensino superior. Para os 22 formandos, o diploma passou a representar uma nova etapa dentro de uma atividade que já fazia parte de suas vidas muito antes da universidade.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

Sair da versão mobile