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Depois de 130 anos sem nenhum registro oficial, o tamanduá-bandeira volta a aparecer no Rio Grande do Sul diante das câmeras do Parque Estadual do Espinilho, e o animal que atravessou a fronteira veio de um projeto argentino de reintrodução iniciado em 2007 nos Esteros del Iberá

Depois de 130 anos sem nenhum registro oficial, o tamanduá-bandeira volta a aparecer no Rio Grande do Sul diante das câmeras do Parque Estadual do Espinilho, e o animal que atravessou a fronteira veio de um projeto argentino de reintrodução iniciado em 2007 nos Esteros del Iberá

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7 min de leitura

Depois de 130 anos sem nenhum registro oficial, o tamanduá-bandeira volta a aparecer no Rio Grande do Sul diante das câmeras do Parque Estadual do Espinilho, e o animal que atravessou a fronteira veio de um projeto argentino de reintrodução iniciado em 2007 nos Esteros del Iberá

Escrito por Jefferson Augusto

Publicado em 14/08/2026 às 20:57

Meio Ambiente

Tamanduá-bandeira adulto caminhando em área de campo, com focinho alongado e cauda peluda

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O primeiro flagrante saiu em junho, veio de câmeras instaladas por ambientalistas numa expedição, e o animal voltou a aparecer em julho, agosto e setembro antes de a Sema divulgar o caso.

Um animal reaparecer depois de mais de um século é notícia por si só. Mas o caso do tamanduá-bandeira no Rio Grande do Sul tem um detalhe que muda o significado do registro: ninguém o soltou ali. Segundo o biólogo que acompanha a área, ele chegou por conta própria, atravessando a fronteira de um país para outro.

Conforme reportagem de Luciano Velleda publicada pelo Sul21 e reproduzida pelo Instituto Humanitas Unisinos, o primeiro registro fotográfico foi feito em junho de 2023, por câmeras acionadas a distância que um grupo de ambientalistas instalou durante expedição na Unidade de Conservação da Barra do Quaraí, no extremo oeste gaúcho.

Quatro registros antes da divulgação

O animal não apareceu uma vez só. Ainda de acordo com a mesma reportagem, as câmeras voltaram a capturar imagens dele em julho, agosto e setembro daquele ano. A Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul, a Sema, só divulgou o caso em 18 de dezembro de 2023.

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A sequência de flagrantes é o que separa esse caso de um avistamento isolado. Um registro único poderia ser explicado por um animal de passagem. Quatro registros ao longo de quatro meses indicam permanência na área, e é essa permanência que sustenta o resto da discussão.

Onde fica o Parque do Espinilho

O parque ocupa o extremo oeste gaúcho, na região da Barra do Quaraí, onde o Brasil encontra Argentina e Uruguai. É uma das poucas unidades de conservação que protegem o tipo de vegetação chamado parque de espinilho, formação aberta com árvores baixas e espaçadas, bem diferente da imagem que se costuma ter de mata. Campo aberto desse tipo se enquadra entre os campos naturais e savanas cuja degradação silenciosa a ONU já apontou como ameaça.

A localização não é detalhe. Não se trata de área isolada no meio do estado, e sim de uma faixa de fronteira com continuidade de paisagem para o outro lado do rio Uruguai. Para um animal terrestre de grande porte, esse tipo de continuidade é o que torna a travessia fisicamente possível.

O que o biólogo do parque diz sobre a origem

A explicação para a chegada do animal foi dada pelo biólogo Fábio Mazim, que atua no Parque do Espinilho. Na reportagem, ele afirma: “A gente acredita que esse bicho seja uma expansão do trabalho de reintrodução feito na Argentina, lá em Esteros del Iberá, do trabalho da Fundação Rewilding. Esses animais estão adentrando o Rio Grande do Sul.”

Vale registrar o que essa formulação carrega. Mazim diz que acredita, não que está comprovado. É uma hipótese de trabalho apoiada na proximidade geográfica e no comportamento conhecido da espécie, e a própria reportagem informa que a descoberta ainda será relatada em trabalho científico, em colaboração com pesquisadores da Argentina e do Uruguai.

O que é o projeto de Iberá

Conforme a página oficial do Programa de Recuperación de Fauna Amenazada do Parque Iberá, o projeto começou em 2007, conduzido pela The Conservation Land Trust, hoje Fundación Rewilding Argentina, junto ao governo da província de Corrientes. Naquele ano foi solto o primeiro casal de tamanduás-bandeira na reserva Rincón del Socorro.

A mesma página informa que, em 2021, mais de duzentos tamanduás-bandeira viviam em liberdade no Iberá, distribuídos em quatro núcleos populacionais. É a partir dessa população que Mazim levanta a hipótese de expansão para o território brasileiro.

Por que isso seria diferente de uma soltura

A distinção importa e vale explicar. Quando um animal é solto por um projeto, o sucesso depende de acompanhamento, de suplementação alimentar e de proteção nos primeiros meses. Se a hipótese de Mazim estiver certa, nada disso aconteceu do lado brasileiro: o animal escolheu o lugar e chegou sem apoio.

Casos de espécie que volta a ocupar sozinha uma área já foram documentados em outras regiões do mundo, como o da águia dada como extinta que voltou a voar na Sardenha, cada um com dinâmica própria e sem que um caso sirva de prova para o outro.

Que animal é o tamanduá-bandeira

É o maior dos tamanduás e passa dos trinta quilos, com quase dois metros da ponta do focinho à ponta do rabo, boa parte disso em cauda peluda. Não tem dente. Come formiga e cupim, que captura com uma língua estreita e comprida, movida por musculatura própria.

É um bicho lento, de visão fraca e comportamento previsível, o que o torna alvo fácil de caça e vítima frequente de atropelamento. A reprodução também é lenta, com um filhote por vez, que viaja meses nas costas da mãe antes de se separar dela.

O que a espécie precisa encontrar para ficar

Pelo que se conhece da biologia do animal, três condições precisam existir ao mesmo tempo. Alimento, que no caso significa cupinzeiro e formigueiro em quantidade suficiente. Abrigo, para o descanso durante o dia. E área contínua o bastante para que ele circule sem esbarrar em barreira intransponível.

Se essas condições estão ou não plenamente atendidas na região do Espinilho é justamente o que o trabalho científico anunciado pretende avaliar. Até lá, o que existe é o conjunto de registros fotográficos e a hipótese do biólogo que acompanha a área.

Por que a espécie sumiu do Rio Grande do Sul

O tamanduá-bandeira consta como extinto no estado, sem registro oficial havia cerca de 130 anos, e a espécie figura entre as ameaçadas no Brasil. As pressões associadas ao desaparecimento de animais de grande porte no Pampa são conhecidas: conversão de campo nativo em lavoura e pastagem, caça e fogo.

Há também um problema de percepção. Campo nativo costuma ser lido como área vazia e disponível, e não como ecossistema com fauna própria, uma leitura que organismos internacionais vêm tentando corrigir.

O prazo do projeto argentino

Um dado que salta dos números oficiais é o intervalo. A primeira soltura em Rincón del Socorro foi em 2007 e o registro do lado brasileiro veio em 2023, dezesseis anos depois. Nenhuma etapa desse processo caberia num ciclo de gestão de quatro anos.

Outras experiências de devolução de fauna também levaram mais de uma década para gerar resultado visível, como no caso dos veados-vermelhos que voltaram às montanhas Velebit após solturas coordenadas.

O que muda para a política ambiental gaúcha

Um registro como esse recoloca o Parque do Espinilho na pauta. Uma unidade pequena e pouco conhecida passou a ser o ponto onde a espécie voltou a aparecer, o que dá material concreto para discutir proteção da faixa de fronteira e monitoramento conjunto com o lado argentino.

O trabalho científico anunciado, com pesquisadores dos três países, é o instrumento que deve transformar o registro em informação utilizável. Enquanto ele não sai, qualquer decisão de manejo se apoia em fotografia de armadilha e em hipótese de campo.

O que ainda não se sabe

Não se sabe se há mais de um animal, se existe fêmea na área e se houve qualquer reprodução do lado brasileiro. Um indivíduo registrado por câmera não constitui população, e a diferença entre presença ocasional e estabelecimento costuma levar anos para ficar clara.

Também não há confirmação genética de que o animal tenha origem em Iberá. É o que a hipótese sustenta e o que o estudo em preparo deve tentar verificar, com a colaboração dos pesquisadores argentinos e uruguaios mencionada na reportagem.

O que o caso já permite dizer

Duas coisas estão documentadas e não dependem de interpretação. A espécie foi fotografada quatro vezes, entre junho e setembro, dentro de uma unidade de conservação onde não era registrada oficialmente havia cerca de 130 anos. E a divulgação partiu do próprio órgão ambiental do estado.

O resto, incluindo a rota que o animal fez e o efeito que a presença dele pode ter sobre a área, permanece como hipótese à espera do trabalho científico. Registros de fauna em outras partes do mundo mostraram efeitos visíveis anos depois, como os antílopes devolvidos ao Saara, cujas mudanças apareceram por satélite cinco anos depois.

Fonte

Terra


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Jefferson Augusto.

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