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Depois de 20 anos dormindo na calçada, ela vestiu a beca e recebeu o diploma de confeitaria na primeira turma de formandos em situação de rua de Campinas, num projeto que serve refeição a 200 pessoas por dia
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 08/08/2026 às 09:21
Atualizado em 08/08/2026 às 09:22
Curiosidades
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Cristiane Duarte da Silva passou duas décadas dormindo na rua, enfrentou fome, frio e gente jogando lixo nela. Em junho, subiu de beca para receber um diploma de confeitaria na primeira formatura de moradores de rua de Campinas. O sonho que ela declara é simples: ter uma vida digna.
Um projeto social de Campinas, no interior de São Paulo, formou a primeira turma de pessoas em situação de rua qualificadas para o mercado de trabalho, e cada aluno saiu da cerimônia com um diploma na mão, segundo reportagem publicada pelo g1 Campinas e Região em 9 de junho de 2025, com imagens da EPTV. A formatura aconteceu na sexta-feira, 6 de junho de 2025, com beca, capelo e todo o ritual clássico.
A ação é do Instituto Há Esperança, ONG que oferece abrigo e refeições para 200 pessoas por dia na cidade. Os cursos são gratuitos, duram três meses e exigem 70% de presença para que o aluno receba o diploma. Entre os formandos estão gente que morava na calçada havia 20 anos, um homem de 62 anos que só tinha estudado até a quarta série e um futuro barbeiro que quer abrir o próprio negócio.
Vinte anos de calçada antes do diploma
Cristiane Duarte da Silva se formou em duas áreas ao mesmo tempo, confeitaria e informática. São vinte anos vivendo nas ruas antes desse momento, e ela trata a formatura como o primeiro passo concreto para conseguir emprego e sair da calçada.
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O que ela diz sobre a conquista é direto e sem retórica. Contou que jamais imaginou que faria um curso e terminaria com um diploma nas mãos, e falou disso com lágrimas nos olhos durante a cerimônia. A emoção não estava no diploma como papel, estava na descoberta de que aquilo era possível para ela. Sobre o curso em si, ela relata que as aulas trouxeram aprendizado novo a cada dia e que a ajudaram muito.
O objetivo que ela declara é modesto e enorme ao mesmo tempo: ter uma vida digna. Não há menção a carreira, salário ou plano de negócio. Há a intenção de arrumar um emprego e deixar a rua.
O que levou Cristiane para a rua
A ida para as calçadas não foi consequência de desemprego nem de dependência química, os dois motivos que a maioria das pessoas presume automaticamente. Ela conta que foi parar na rua há muitos anos depois de uma tentativa de abuso sexual cometida pelo padrasto, e que a mãe não acreditou nela.
Sem crédito dentro de casa, a rua apareceu como única alternativa. Uma adolescente escolheu a calçada porque a calçada pareceu mais segura que o próprio lar. O que veio depois foi o que ela descreve como fome, medo e frio, e também preconceito e descaso vistos de perto.
Um detalhe do relato dela dimensiona bem esse tratamento. Cristiane conta que há pessoas que chegam a jogar lixo em quem está na rua. É a frase que separa a estatística da experiência: não é apenas a ausência de teto, é a hostilidade ativa de quem passa.
A cerimônia de 6 de junho
A formatura foi montada com o ritual completo, e isso não é detalhe decorativo. Houve beca, capelo lançado ao ar e entrega de diploma, exatamente como em qualquer colação de grau. Para vários dos formandos, era a primeira vez que vestiam uma beca.
O simbolismo estava no reconhecimento público. Para chegar ali, os alunos frequentaram as salas de aula com assiduidade durante três meses, e o diploma existe justamente porque cumpriram esse requisito. Uma cerimônia clássica entregue a quem a sociedade costuma tratar como invisível funciona como declaração de que aquele esforço conta.
As histórias dos formandos se cruzaram no mesmo salão. Pessoas que chegaram ao instituto por caminhos completamente diferentes terminaram o ciclo juntas, com o mesmo diploma na mão e a mesma perspectiva de tentar recolocação.
Lázaro, 62 anos, e a quarta série
Entre os formandos estava Lázaro Candido, de 62 anos, que se qualificou como eletricista. A trajetória escolar dele antes disso era curta: havia estudado somente até a quarta série.
Ele afirmou que nunca imaginou que um dia vestiria uma beca. Um homem de 62 anos com quatro anos de escola formal recebeu um diploma técnico e disse, em uma frase, que a vida vai mudar para melhor. Não é declaração de otimismo genérico, é avaliação de quem passou a ter uma qualificação registrada em papel pela primeira vez.
O caso dele mostra por que a idade não funciona como critério de exclusão nesse tipo de projeto. Eletricidade é ofício com demanda constante e não exige diploma de ensino superior, o que torna a qualificação um caminho viável mesmo para quem começa tarde.
Jair e o plano da própria barbearia
Jair Rosa também vestiu a beca pela primeira vez e disse que não imaginava conquistar aquele feito. Depois da formatura, ele passou a correr atrás de dois objetivos que colocou lado a lado, e a ordem em que os cita diz muito.
O primeiro é recuperar o vínculo familiar. O segundo é ter a própria barbearia. Ele declarou que em breve estará com o próprio estabelecimento para cortar cabelo das pessoas de Campinas. O plano não é conseguir um emprego em barbearia, é abrir uma. A qualificação, no caso dele, virou base para uma ideia de negócio.
A combinação dos dois sonhos revela a dimensão que o diploma assume nessas histórias. A qualificação profissional aparece como ferramenta para reconstruir também o que se perdeu fora do trabalho, incluindo relações familiares interrompidas.
Três meses de aula e 70% de presença
A estrutura do programa é simples e tem regra clara. Os cursos são voltados para os alunos que frequentam o albergue do Instituto Há Esperança, no bairro Jardim do Lago, duram três meses e exigem 70% de presença para que o aluno garanta o diploma.
Essa exigência de frequência é significativa no contexto. Manter presença mínima em um curso de três meses é um desafio para qualquer estudante, e é bem maior para quem não tem endereço fixo, rotina estável nem garantia de onde vai dormir. O diploma dessa turma comprova assiduidade em condições em que a maioria das pessoas não conseguiria manter agenda nenhuma.
O acesso não impõe barreira de aparência ou de posse. A reportagem registra que mesmo quem está com os pés descalços pode estudar para se tornar confeiteiro, eletricista, barbeiro ou aprender a trabalhar com computadores.
O que se aprende em cada oficina
A confeitaria começa pelo básico e sobe em dificuldade. Cássio Cristino, professor da área, explica que os alunos aprendem primeiro o pão de ló, que é mais simples, e depois, com a massa assada, partem para o bolo de aniversário. A lógica declarada por ele é ensinar confeitaria básica para não complicar o percurso do aluno.
As demais oficinas seguem a mesma orientação prática. Na barbearia, os alunos treinam as habilidades cortando o cabelo de outros moradores de rua, o que resolve dois problemas ao mesmo tempo. Na oficina elétrica, os estudantes aprendem o conteúdo que um eletricista precisa dominar. Diante dos computadores, o foco é redigir um texto e preparar um currículo.
Ensinar alguém a montar o próprio currículo é tão parte da reinserção quanto ensinar a fazer um bolo. As aulas teóricas são complementadas por prática direta, com os alunos colocando a mão na massa em vez de apenas assistir.
Julio Cesar e a peça que faltava no currículo
Julio Cesar trabalhava como pintor antes de ficar desempregado e ir para a rua. A qualificação em elétrica, no caso dele, não abriu uma carreira nova, completou uma que já existia.
Ele explicou que até no serviço de pintura precisava saber da parte elétrica e não sabia, e que agora vai sem medo. A lacuna técnica que o limitava na profissão anterior foi resolvida em três meses de curso. É o tipo de ganho que muda a empregabilidade de imediato, porque amplia o leque de serviços que ele pode aceitar.
A expectativa declarada é de recolocação no mercado de trabalho. Não se trata de aprender do zero, mas de voltar mais completo do que saiu.
O que diz o fundador do instituto
Robson Teixeira Gondin, fundador do Instituto Há Esperança, resume o efeito dos cursos em duas dimensões. A primeira é a capacitação para o mercado de trabalho. A segunda, que ele coloca no mesmo nível de importância, é a mudança na autoestima da pessoa.
Ele descreve o processo como resgate de cidadania e afirma que muitos dos alunos já tinham perdido isso. A leitura dele é que o diploma opera antes na percepção que a pessoa tem de si mesma e só depois no currículo. É uma avaliação que se encaixa nos relatos dos próprios formandos, que falam de nunca ter imaginado vestir uma beca antes de falar de emprego.
O instituto opera na cidade oferecendo abrigo e refeições para 200 pessoas por dia, e a formação profissional entra como etapa adicional para quem já frequenta o albergue. Esta foi a primeira turma.
Um diploma que muda o ponto de partida
O que aconteceu em Campinas no dia 6 de junho não resolve a situação de rua de ninguém automaticamente. Nenhum dos formandos saiu da cerimônia com contrato assinado, e a reportagem não registra promessa de vaga. O que mudou foi o ponto de partida de cada um.
Cristiane, que passou vinte anos na calçada, tem agora qualificação em confeitaria e em informática e o objetivo declarado de conseguir emprego. Lázaro, com 62 anos e a quarta série, virou eletricista. Jair projeta a própria barbearia. Julio Cesar voltou ao mercado com a parte elétrica que faltava. Todos com 70% de presença comprovada em três meses de aula.
E você, acredita que qualificação profissional é o caminho mais eficaz para tirar alguém da rua, ou o problema exige antes moradia e apoio de saúde? Conta nos comentários o que você acha que faz mais diferença nesses casos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

