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Depois de enfrentar fome, falta de lugar para dormir e portas fechadas por viverem nas ruas, dois homens de Minas Gerais passaram a estudar em bibliotecas e abrigos, enfrentaram cerca de 12 mil candidatos e conquistaram o 1º e o 20º lugares em um concurso público, garantindo trabalho e dando o primeiro passo para trocar os abrigos por uma casa e uma nova vida
Escrito por Ana Alice
Publicado em 14/08/2026 às 03:57
Atualizado em 14/08/2026 às 03:58
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Entre bibliotecas, abrigos e uma rotina marcada por dificuldades, dois homens encontraram nos estudos um caminho inesperado até uma seleção pública disputada por milhares de candidatos em Belo Horizonte.
Durante parte do dia, um deles estudava em uma pequena biblioteca dentro do local onde dormia.
O outro passava horas entre livros na Praça da Liberdade e chegou a abrir mão do almoço para não interromper a preparação.
Quando o resultado saiu, os dois nomes apareceram entre os primeiros colocados de uma seleção disputada por quase 12 mil candidatos para 300 vagas.
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Marcelo Batista Santiago ficou em primeiro lugar.
Jusair Santos da Silva apareceu na 20ª posição.
Naquele momento, em 2015, os dois viviam em serviços de acolhimento para pessoas em situação de rua em Belo Horizonte.
A conquista não ficou apenas no papel.
Marcelo começou a trabalhar como auxiliar de limpeza, enquanto Jusair foi encaminhado para a mesma área no Hospital João XXIII.
Ambos passaram a enxergar o emprego como uma possibilidade concreta de deixar os abrigos e reorganizar a vida.
Mais de uma década depois, não foram encontrados registros públicos confiáveis que permitam dizer onde os dois vivem ou trabalham atualmente.
A empresa responsável pela seleção, porém, continua em atividade: a Minas Gerais Administração e Serviços S.A. (MGS) permanece como empresa pública do Estado e completou 72 anos em 2026.
Marcelo Batista Santiago viveu mais de dois anos nas ruas de Belo Horizonte
Marcelo tinha 39 anos quando sua história ganhou repercussão.
Ele viveu nas ruas de Belo Horizonte entre maio de 2012 e agosto de 2014, segundo reportagem publicada pelo UOL com informações da Arquidiocese de Belo Horizonte.
Antes daquele período, já havia trabalhado nos Correios e com telemarketing.
Problemas familiares, desemprego e a ausência de um endereço fixo se combinaram em uma sequência que acabou levando Marcelo às ruas.
Ele relatou que informar a potenciais empregadores que não possuía uma casa dificultava ainda mais a busca por uma vaga formal.
“Ter conseguido passar no concurso foi uma alegria imensa”, contou ao recordar o resultado.
A rotina anterior havia sido marcada por dificuldades para comer, tomar banho e encontrar um lugar para passar a noite.
Em 2014, Marcelo procurou ajuda e foi encaminhado à República Reviver, serviço de acolhimento da Prefeitura de Belo Horizonte então administrado pela Arquidiocese da capital mineira.
Foi ali que os livros passaram a ocupar uma parte maior de seus dias.
Minibiblioteca no abrigo virou espaço de preparação para o concurso
A República Reviver mantinha uma pequena biblioteca.
Marcelo começou a utilizar o espaço para estudar e passou a pensar também em ingressar no ensino superior.
A preparação rendeu uma aprovação no curso de Tecnologia em Gestão Pública da Universidade do Estado de Minas Gerais, a UEMG.
As reportagens publicadas naquele período apresentam momentos diferentes dessa trajetória acadêmica: uma delas o registrava cursando o segundo período, enquanto outra informou que ele havia interrompido os estudos nessa etapa e pretendia retornar.
O concurso da MGS apareceu no meio desse processo.
Em fevereiro de 2015, Marcelo tomou conhecimento do edital e decidiu disputar uma vaga destinada a candidatos com escolaridade de nível fundamental incompleto.
A escolha não tinha relação com abandonar os planos de estudar.
Segundo seu relato, a prioridade naquele momento era conseguir estabilidade suficiente para reconstruir a rotina e deixar a situação de acolhimento.
Quando o resultado foi divulgado em abril, veio a surpresa: Marcelo havia alcançado o primeiro lugar.
Concurso da MGS teve quase 12 mil candidatos para 300 vagas
A dimensão da concorrência ajuda a explicar por que o resultado chamou atenção.
Quase 12 mil pessoas participaram da disputa por 300 vagas oferecidas pela MGS, empresa pública que presta serviços a órgãos da administração pública.
Marcelo terminou na primeira posição para auxiliar de limpeza.
Na época, ele já havia tomado posse e recebia R$ 876,66 mensais, valor divulgado em 2015.
O salário precisa ser entendido dentro daquele período e não corresponde à remuneração atual de funções semelhantes.
Mais importante para Marcelo naquele momento era o que o trabalho poderia permitir fora do expediente.
Seu plano declarado era deixar a República Reviver e encontrar uma casa.
A vaga também era vista por ele como o primeiro passo para tentar construir uma carreira no setor público.
Enquanto Marcelo estudava dentro do local onde estava acolhido, outro candidato enfrentava uma rotina diferente a poucos quilômetros dali.
Assista o vídeo
Jusair Santos da Silva estudava na biblioteca da Praça da Liberdade
Jusair Santos da Silva tinha 50 anos e nasceu em Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais.
Antes de chegar a Belo Horizonte, havia passado por diferentes cidades e vivido durante anos como andarilho após o fim do casamento.
Em 2012, estava em Cuiabá e conseguiu uma carona até a capital mineira.
Quando chegou, não possuía uma estrutura para recomeçar.
Jusair relatou que passou aproximadamente uma semana dormindo na rodoviária até receber orientação para buscar a assistência social.
Posteriormente, conseguiu uma vaga na República Professor Fábio Alves, outro serviço de acolhimento administrado à época pela Arquidiocese de Belo Horizonte.
Foi durante essa fase que encontrou em um jornal a informação sobre a seleção da MGS.
Um detalhe teve peso imediato: a inscrição era gratuita.
“É isso, é a minha chance”, recordou ter pensado.
Dos R$ 77 que recebia, R$ 45 foram gastos em uma apostila
A preparação de Jusair teve uma característica bastante diferente da de Marcelo.
Ele havia concluído o ensino médio em 1983 e cursado três períodos de Letras, mas estava havia muitos anos afastado da educação formal.
Mesmo assim, mantinha o hábito de ler livros e jornais.
Para estudar para a prova, passou a frequentar diariamente a então Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade.
O equipamento cultural continua funcionando no mesmo endereço, embora desde 2017 se chame oficialmente Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais.
O prédio-sede ainda leva o nome Luiz de Bessa. O dinheiro era curto.
Jusair recebia R$ 77 do Bolsa Família e destinou R$ 45 à compra de uma apostila para a prova.
Como havia se inscrito faltando cerca de 15 dias, o tempo de preparação também era limitado.
Segundo seu relato, houve dias em que estudar significou também mudar a rotina da alimentação.
O deslocamento até o restaurante popular faria com que perdesse tempo de biblioteca.
Nessas ocasiões, permanecia estudando e comia mais tarde, recorrendo a uma sopa ou à refeição oferecida no abrigo.
A estratégia terminou com seu nome na 20ª colocação.
Aprovação levou Jusair ao Hospital João XXIII
Depois da aprovação, Jusair passou a trabalhar como auxiliar de limpeza na cozinha do Hospital de Pronto Socorro João XXIII, em Belo Horizonte.
A mudança era especialmente significativa porque, pouco antes, ele dependia do abrigo e de benefícios sociais enquanto tentava criar uma nova fonte de renda.
Sua trajetória anterior havia incluído trabalhos ocasionais em diferentes lugares.
Depois da separação, segundo contou, deixou a casa para a ex-mulher e seguiu viagem.
O dinheiro acabou, a motocicleta precisou ser vendida e os pequenos serviços que encontrava pelo caminho passaram a garantir parte de sua sobrevivência.
Em Belo Horizonte, a biblioteca ofereceu algo que naquele momento ele não poderia comprar: espaço de estudo e acesso gratuito a livros.
A apostila consumiu mais da metade dos R$ 77 disponíveis naquele mês.
Pouco tempo depois, o material de R$ 45 ajudaria a prepará-lo para uma seleção com milhares de concorrentes.
Marcelo e Jusair começaram a trabalhar após o resultado
Marcelo e Jusair chegaram à mesma seleção por caminhos diferentes.
O primeiro estudava na minibiblioteca do serviço de acolhimento e já havia conseguido entrar na UEMG.
O segundo utilizava uma biblioteca pública no centro de Belo Horizonte e tinha apenas alguns dias para revisar o conteúdo exigido.
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Ana Alice
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Os dois, porém, saíram da condição de candidatos para postos de trabalho efetivos na rotina descrita pelas reportagens de 2015.
Marcelo dizia que queria providenciar uma casa e reorganizar sua vida.
Jusair também buscava estabilidade depois de anos de deslocamentos e de um período vivendo nas ruas.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

