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Depois de noites vendendo salgadinhos e churrasquinhos, os pais dormiam às 5h e acordavam às 6h para voltar ao trabalho e manter de pé o sonho da filha de ser médica, até que o dinheiro quase a obrigou a trancar o curso, uma bolsa salvou sua formação e, nas fotos da formatura, ela vestiu o avental da barraca que ajudou a pagar seus estudos antes de ser aprovada para residência em Pediatria

Depois de noites vendendo salgadinhos e churrasquinhos, os pais dormiam às 5h e acordavam às 6h para voltar ao trabalho e manter de pé o sonho da filha de ser médica, até que o dinheiro quase a obrigou a trancar o curso, uma bolsa salvou sua formação e, nas fotos da formatura, ela vestiu o avental da barraca que ajudou a pagar seus estudos antes de ser aprovada para residência em Pediatria

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Depois de noites vendendo salgadinhos e churrasquinhos, os pais dormiam às 5h e acordavam às 6h para voltar ao trabalho e manter de pé o sonho da filha de ser médica, até que o dinheiro quase a obrigou a trancar o curso, uma bolsa salvou sua formação e, nas fotos da formatura, ela vestiu o avental da barraca que ajudou a pagar seus estudos antes de ser aprovada para residência em Pediatria

Escrito por Ana Alice

Publicado em 01/08/2026 às 15:27

Curiosidades

Família vendeu salgadinhos e churrasquinhos para manter filha em Medicina; bolsa evitou trancamento e ela chegou à residência em Pediatria. (Imagem: Ilustrativa)

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Da venda de salgadinhos e churrasquinhos a uma bolsa decisiva, a trajetória de Laísa Romeu reúne sacrifício familiar, dificuldades financeiras e uma homenagem registrada no avental usado nas fotografias de sua formatura em Medicina.

Perto do fim da sessão de fotografias da formatura, Laísa Alves Romeu retirou o jaleco branco e vestiu um avental usado no “Churrasquinho do Romeu”, barraca mantida pelos pais durante os anos em que a família buscava recursos para pagar sua graduação em Medicina.

A troca de roupa havia sido combinada previamente com o fotógrafo, mas não com Patrícia e Jorge Romeu.

Quando perceberam a homenagem, os três choraram diante da representação de uma trajetória que envolveu salgadinhos preparados para venda, carnes colocadas em espetos, jornadas de trabalho que atravessavam a madrugada e uma bolsa de estudos obtida quando o curso corria o risco de ser interrompido.

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Laísa concluiu Medicina e foi aprovada em Pediatria

Laísa concluiu Medicina no Centro Universitário UNIFAA, em Valença, no estado do Rio de Janeiro, em dezembro de 2024.

Pouco depois, foi aprovada para a residência médica em Pediatria, especialidade que havia escolhido para a etapa seguinte da formação.

Documentos do Exame Nacional de Residência, o Enare 2024/2025, confirmam que Laísa apareceu entre os selecionados para o programa de Pediatria do Hospital Regional João Penido, em Juiz de Fora, Minas Gerais.

Uma convocação individual também relacionou a médica ao mesmo hospital como cenário de prática.

O diploma ficou em seu nome, mas a história começou anos antes, quando a possibilidade de estudar Medicina ainda dependia de uma combinação de esforço acadêmico, renda familiar, ajuda comunitária e redução das mensalidades.

Pais buscaram renda extra para pagar Medicina

Patrícia, professora do ensino fundamental e funcionária pública de Rio das Flores, começou a produzir salgadinhos para venda assim que a filha manifestou o desejo de se tornar médica.

O dinheiro arrecadado era separado em uma poupança voltada especificamente para os futuros gastos com a faculdade.

Jorge, que trabalhava em uma gráfica e não havia concluído os estudos, também decidiu buscar uma fonte adicional de renda.

Foi assim que surgiu o “Churrasquinho do Romeu”, inicialmente instalado em uma praça e, posteriormente, transferido para uma esquina próxima à entrada do UNIFAA.

A avó Sueli Soares, a irmã Dayane Romeu, o sobrinho Brenno e o namorado de Laísa, Lucas, também participaram da rede familiar que acompanhou a estudante.

A própria jovem ajudava quando podia, preparando os espetos de carne em casa ou substituindo a mãe na barraca durante compromissos noturnos.

Laísa Alves Romeu vestiu o avental do “Churrasquinho do Romeu” ao lado dos pais, Patrícia e Jorge, durante o ensaio de formatura em Medicina.

Crédito: Divulgação/UNIFAA, via Tribuna Carioca.

Escolha pela Medicina veio depois da Engenharia

O caminho até a faculdade, entretanto, não começou com uma decisão imediata pela Medicina.

Laísa havia escolhido Engenharia e passou cerca de três anos se preparando para os processos seletivos da área.

A aprovação em uma instituição federal provocou uma mudança de direção.

Segundo ela, foi justamente naquele momento que percebeu que não queria seguir a carreira escolhida e passou a olhar para a Medicina como um objetivo possível.

“Foi uma situação muito ruim para mim, pois estava me preparando há três anos. Nesse momento que comecei a olhar para a Medicina com outros olhos e encarar essa faculdade como um sonho”, relatou em entrevista publicada pelo UNIFAA.

A decisão exigiu o retorno ao cursinho, desta vez com maior atenção às disciplinas cobradas nos exames da área da Saúde.

Durante dois anos, Laísa tentou entrar em instituições públicas, mas o desgaste emocional e a demora levaram a família a considerar uma faculdade particular.

Custos quase obrigaram jovem a trancar o curso

A aprovação veio em uma instituição no interior de São Paulo.

Ela cursou dois períodos, porém as mensalidades não eram o único custo: a mudança também trouxe despesas com moradia, alimentação e deslocamento.

No fim de 2019, os pais disseram que o orçamento havia chegado ao limite.

Caso Laísa não conseguisse transferência para uma instituição próxima de casa, seria necessário trancar a graduação por algum tempo para que a família reorganizasse as finanças.

“Se você não conseguir a transferência para Valença, infelizmente você vai ter que trancar o curso por um tempo para que a gente consiga se restabelecer”, disseram os pais, conforme o relato da médica.

Bolsa de estudos evitou interrupção da graduação

A possibilidade de permanecer no curso surgiu por meio de um convênio mantido pelo município de Rio das Flores com o Centro Universitário UNIFAA.

Segundo a publicação da instituição, havia apenas três bolsas simultâneas, mas um dos estudantes beneficiados estava perto de concluir a graduação, o que abriria uma vaga.

Laísa conseguiu a transferência e passou a receber uma bolsa de 40%.

O pagamento das mensalidades dentro do prazo acrescentava mais 10% de desconto, reduzindo pela metade o valor que a família precisava custear.

A mudança para Valença também eliminou parte dos gastos com moradia e permitiu que a estudante permanecesse perto dos pais.

Mesmo com a redução, porém, pagar metade da mensalidade de Medicina continuou exigindo trabalho adicional.

Churrasquinho ganhou clientes perto da faculdade

O “Churrasquinho do Romeu” ganhou mais clientes depois que saiu da praça e foi instalado próximo à faculdade.

Colegas de Laísa passaram a frequentar o ponto, divulgar a barraca e indicá-la para outras pessoas.

A rotina mais intensa ocorreu durante a tradicional Festa da Glória, realizada em Valença.

A família montava a barraca durante os dez dias do evento, período em que Patrícia e Jorge conciliavam o trabalho regular com a venda de alimentos durante a noite e a madrugada.

“Tinha dia que iam dormir 5h da manhã, acordar às 6h, ir para o trabalho, trabalhar o dia inteiro e chegar em casa e ir para a barraca da festa”, contou Laísa.

O relato indica que a jornada de apenas uma hora de descanso estava relacionada especificamente aos dias mais movimentados da festa, e não a uma rotina mantida durante todos os anos da graduação.

Ainda assim, o período mostra como os pais acumulavam funções para preservar o pagamento do curso.

Família assumiu responsabilidade pelas mensalidades

Segundo Laísa, eles repetiam que a responsabilidade dela era estudar e alcançar o melhor desempenho possível.

A parte financeira, mesmo difícil, ficaria sob responsabilidade da família.

“Se preocupe em estudar e ser o melhor que você pode que a parte de pagar vai ser com a gente. Pagávamos metade, mas mesmo assim era muito suado”, recordou.

O esforço dos pais também provocava culpa na estudante.

Ao observar as jornadas prolongadas, Laísa passou a sentir que a escolha pela Medicina havia imposto um peso excessivo à família e procurou acompanhamento psicológico.

“A psicóloga me ajudou a entender que isso não era meu, era uma coisa deles, que eles faziam tudo aquilo porque me amavam”, afirmou.

Laísa Alves Romeu aparece cercada por familiares que acompanharam sua trajetória até a conclusão do curso de Medicina. Crédito: Divulgação/UNIFAA, via Tribuna Carioca.

Desempenho acadêmico acompanhou esforço familiar

Dentro da faculdade, ela buscava responder ao investimento familiar com o desempenho acadêmico.

De acordo com seu relato, não foi reprovada nas disciplinas e manteve boas notas e um coeficiente de rendimento elevado.

Ao fim de cada semestre, enviava uma mensagem aos pais para agradecer e lembrar que faltava uma etapa a menos para a conclusão.

Patrícia e Jorge respondiam que eram eles que agradeciam pela oportunidade de participar da trajetória da filha.

Barraca aproximou família e estudantes

A relação da família com os estudantes também ultrapassou o atendimento na barraca.

Laísa contou que os pais passaram a ser chamados de “tios” por colegas do curso e recebiam presentes e demonstrações de carinho.

Em alguns anos, estudantes que estavam longe de suas famílias chegaram a almoçar na casa de Patrícia durante o Dia das Mães.

O estabelecimento que havia começado como uma forma de completar a renda tornou-se também um ponto de convivência entre a família e parte da comunidade universitária.

Avental do churrasquinho marcou fotos da formatura

Quando chegou o momento das fotografias para o convite de formatura, Laísa procurou uma maneira de registrar o papel desempenhado pelos pais.

O avental do “Churrasquinho do Romeu” apareceu no lugar do jaleco para representar a origem de parte do dinheiro usado na graduação.

A homenagem também reuniu os dois ambientes que haviam acompanhado a estudante: de um lado, a formação médica; do outro, a barraca onde a família preparava e vendia alimentos para manter as mensalidades em dia.

Na colação, Laísa voltou a agradecer aos pais.

Jorge respondeu que, apesar das dificuldades, repetiria todo o esforço caso fosse necessário.

“Minha filha, com toda dificuldade, com todo o esforço, se precisasse eu faria tudo de novo por você”, disse o pai, segundo a lembrança apresentada pela médica.

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Residência médica levou Laísa a Juiz de Fora

Depois da formatura, Laísa se preparou para deixar Valença e morar em Juiz de Fora, onde faria a residência em Pediatria.

Os documentos oficiais do Enare confirmam sua seleção para o Hospital Regional João Penido, embora não tenha sido localizada uma atualização pública detalhada sobre sua rotina atual no programa.

A conclusão do curso não significou o encerramento do negócio familiar.

Ao responder às pessoas que perguntavam sobre o futuro da barraca, Laísa afirmou que o “Churrasquinho do Romeu” continuaria funcionando.

O avental usado nas fotos não escondia o diploma nem substituía o jaleco.

Ele registrava, na mesma imagem, os anos em que uma professora, um trabalhador de gráfica e outras pessoas próximas transformaram salgadinhos e espetos de carne em parte do financiamento necessário para uma graduação em Medicina.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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