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Depois de passar 40 anos sozinha no antigo zoológico de Mendoza, a elefanta Kenya chegou ao santuário brasileiro em Mato Grosso aos 44 anos; até então, era a última elefanta mantida em cativeiro na Argentina.

Depois de passar 40 anos sozinha no antigo zoológico de Mendoza, a elefanta Kenya chegou ao santuário brasileiro em Mato Grosso aos 44 anos; até então, era a última elefanta mantida em cativeiro na Argentina.

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Depois de passar 40 anos sozinha no antigo zoológico de Mendoza, a elefanta Kenya chegou ao santuário brasileiro em Mato Grosso aos 44 anos; até então, era a última elefanta mantida em cativeiro na Argentina.

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 22/08/2026 às 07:57

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A elefanta Kenya – Crédito: Divulgação/Governo de Mendoza

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Kenya viveu cerca de 40 anos praticamente isolada em Mendoza e percorreu 3.400 km até um santuário brasileiro, onde passou seus últimos cinco meses antes de morrer aos 44 anos.

Em 9 de julho de 2025, a elefanta-africana Kenya, de 44 anos, terminou uma viagem terrestre de aproximadamente 3.400 quilômetros entre Mendoza, na Argentina, e a Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso. Segundo o Santuário de Elefantes Brasil, ela havia chegado ao antigo zoológico argentino ainda com cerca de quatro anos e passou as quatro décadas seguintes praticamente sozinha em um recinto de solo duro e paredes de concreto. Sua saída também encerrou uma era: Kenya era a última elefanta mantida em cativeiro na Argentina.

Kenya chegou à Argentina ainda muito jovem

Há poucas informações documentais sobre os primeiros anos de Kenya. O Santuário de Elefantes Brasil informa que ela teria vindo de um zoológico alemão e chegado a Mendoza quando tinha aproximadamente quatro anos, no início da década de 1980.

Kenya chegou à Argentina ainda muito jovem – Reprodução

A partir daí, praticamente toda sua vida transcorreu dentro da mesma instituição. O antigo zoológico foi posteriormente transformado no Ecoparque Mendoza, dentro de uma política argentina de substituição gradual do modelo zoológico tradicional e transferência de animais exóticos para instalações especializadas.

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Kenya permaneceu até 2025.

Foram cerca de quatro décadas praticamente sem companhia de outro elefante

Segundo o santuário, Kenya não dividia o recinto com outro elefante e passou cerca de 40 anos sozinha em uma área com solo árido, terra compactada e estruturas de concreto.

Outros elefantes viveram no Ecoparque Mendoza durante parte desse período, mas ficavam em recintos diferentes.

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Ela podia eventualmente ouvi-los e se comunicar à distância, mas não compartilhar normalmente o mesmo espaço.

O Santuário de Elefantes Brasil chegou a registrar um detalhe simbólico do recinto: em uma das paredes havia uma pintura de elefante, enquanto Kenya permanecia sem um companheiro real da mesma espécie ao seu lado.

Argentina levou anos para preparar a retirada de seus elefantes

A transferência de Kenya fazia parte de um processo muito maior. Outras elefantas de Mendoza já haviam seguido para o Brasil. Pocha e sua filha Guillermina chegaram ao Santuário de Elefantes Brasil em 2022. Antes delas, outras operações internacionais haviam criado experiência logística para deslocar animais de várias toneladas através das rodovias sul-americanas.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal, a operação relacionada a Kenya foi resultado de mais de sete anos de planejamento. Ela também se tornou a segunda elefanta-africana transferida da Argentina para o santuário brasileiro em 2025, depois de Pupy, proveniente de Buenos Aires.

Quando Kenya cruzou a fronteira, a Argentina ficou oficialmente sem elefantes em cativeiro.

Viagem começou em 4 de julho de 2025

Kenya deixou Mendoza em 4 de julho de 2025. O transporte foi feito por terra dentro de uma caixa especialmente preparada.

A equipe não utilizou sedação durante o percurso, prática que o santuário evita porque o animal precisa permanecer consciente, equilibrar o próprio corpo e reagir normalmente aos movimentos do veículo.

A elefanta Kenya sendo transportada – Crédito: Divulgação/Governo de Mendoza

Uma câmera instalada dentro do contêiner permitia acompanhar seu comportamento durante a viagem.

O trajeto estimado diretamente pelo santuário era de aproximadamente 3.400 km. A PRF descreveu a operação internacional em uma escala próxima de 4 mil km considerando todo o deslocamento logístico.

Cinco dias separaram Mendoza de Mato Grosso

A viagem durou cerca de cinco dias. A equipe fazia paradas de acordo com o comportamento de Kenya, além de acompanhar alimentação, hidratação e sinais físicos. O princípio declarado pelo santuário era deixar o próprio animal determinar o ritmo sempre que possível.

Em 7 de julho, a Polícia Rodoviária Federal escoltou o transporte na região de Foz do Iguaçu, após a entrada no território brasileiro. Depois, o comboio seguiu em direção ao Mato Grosso.

Na manhã de 9 de julho, Kenya finalmente chegou à propriedade.

Novo lar tinha cerca de 1.100 hectares de ambiente natural

O Global Sanctuary for Elephants descreve o Santuário de Elefantes Brasil como uma propriedade de cerca de 2.800 acres, aproximadamente 1.130 hectares, composta por áreas naturais de Cerrado e recintos de grande escala.

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Isso não significa que Kenya tivesse todos os 1.100 hectares exclusivamente à sua disposição. A propriedade é dividida em diferentes habitats, setores de manejo e áreas separadas para elefantes asiáticos e africanos.

Ainda assim, a mudança de escala era brutal.

Ela deixava um recinto artificial após quatro décadas para encontrar solo natural, vegetação, lama, árvores e espaço suficiente para escolher onde caminhar dentro de seu setor.

Patas e pele já mostravam consequências de décadas em recinto artificial

Os primeiros exames e observações revelaram problemas que exigiriam tratamento prolongado. Segundo o perfil oficial de Kenya, as almofadas das patas traseiras estavam excessivamente crescidas.

O santuário previa meses de manejo e aparos graduais, aproveitando inclusive o período chuvoso, quando os tecidos ficariam mais macios.

Sua pele também apresentava uma espessa camada de tecido morto. Banhos de lama, atrito em árvores, produtos tópicos e água passaram a fazer parte do cuidado planejado para remover progressivamente esse material.

Uma das presas também havia crescido de maneira inadequada.

Pela primeira vez em décadas, Kenya poderia compartilhar espaço com outra africana

Poucos meses antes, o santuário havia recebido Pupy, outra elefanta-africana proveniente da Argentina. A chegada criou uma possibilidade inédita para Kenya: depois de cerca de 40 anos sem dividir normalmente seu espaço com outra elefanta, ela poderia desenvolver uma relação social com Pupy.

A aproximação ocorreu gradualmente.

Segundo registros posteriores do próprio santuário, as duas inicialmente foram cautelosas, mas a relação se fortaleceu. Kenya acabou assumindo uma espécie de comportamento protetor em relação à companheira.

Esse vínculo, entretanto, também duraria pouco.

Pupy morreu em outubro de 2025

Pupy morreu em 10 de outubro de 2025, aproximadamente seis meses depois de chegar ao Brasil e três meses depois da chegada de Kenya.

Ela tinha cerca de 35 anos. A necropsia posteriormente apontou graves problemas gastrointestinais e pulmonares associados a infecção por protozoários e amebas, segundo informações divulgadas pelo santuário.

Kenya permaneceu sozinha no habitat africano.

O santuário afirmou posteriormente que as causas das mortes de Pupy e Kenya apresentavam características diferentes e não havia indicação preliminar de que um mesmo processo tivesse provocado os dois óbitos.

Em dezembro, Kenya começou a apresentar dificuldade respiratória

Nos primeiros dias de dezembro, Kenya ainda caminhava e interagia normalmente em diferentes momentos.

A situação mudou rapidamente. Em 13 de dezembro, o Global Sanctuary for Elephants informou que sua respiração havia se tornado anormal. Ela começou a receber antibióticos e chegou a demonstrar melhora temporária, mas voltou a apresentar sinais preocupantes.

Também surgiu naquele período um problema em uma articulação da pata dianteira.

Nos dias seguintes, a elefanta perdeu energia, apresentou menor interesse por alimento e permaneceu mais tempo parada.

Kenya morreu em 16 de dezembro, apenas cinco meses após o resgate

Na noite anterior à morte, Kenya finalmente se deitou depois de permanecer vários dias sem fazê-lo.

Na manhã de 16 de dezembro de 2025, sua respiração mudou progressivamente e ela morreu enquanto integrantes da equipe acompanhavam seu estado. Tinha aproximadamente 44 anos.

Do dia em que pisou no santuário, em 9 de julho, até a morte, passaram-se pouco mais de cinco meses.

A história que havia começado como o encerramento de quatro décadas de cativeiro argentino terminou, portanto, muito antes do que os responsáveis esperavam.

Necropsia mostrou danos internos muito mais graves do que os exames sugeriam

Os resultados preliminares trouxeram uma explicação para a rápida deterioração. Radiografias mostraram osteomielite severa, uma infecção óssea grave. Kenya havia perdido a extremidade óssea de grande parte dos dedos e apresentava degradação articular crônica no cotovelo.

Também foram identificados nódulos, úlceras, um grande cisto e alterações em diferentes órgãos.

O achado mais preocupante estava nos pulmões. De acordo com o patologista citado pelo santuário, havia alta probabilidade de tuberculose avançada, com infiltrações granulares nos dois pulmões e colapso de alvéolos.

O comunicado deixou claro que se tratava de uma avaliação preliminar e que culturas laboratoriais ainda demandavam tempo.

Quatro décadas de cativeiro terminaram em apenas cinco meses de espaço aberto

Kenya chegou à Argentina com aproximadamente quatro anos. Saiu de lá aos 44, depois de cerca de 40 anos no mesmo complexo e grande parte desse tempo praticamente isolada.

Em julho de 2025, atravessou 3.400 quilômetros em cinco dias, cruzou uma fronteira internacional e se tornou a elefanta cuja saída encerrou definitivamente o cativeiro de elefantes na Argentina.

Sua permanência no Brasil durou apenas cinco meses.

Foi tempo suficiente para caminhar sobre solo natural, tomar banhos de lama, explorar vegetação e finalmente compartilhar espaço com outra elefanta-africana.

Mas a necropsia mostrou que, por trás dessas mudanças externas, seu organismo carregava problemas crônicos muito mais antigos.

Kenya deixou quarenta anos de confinamento para trás em julho de 2025, mas os danos acumulados ao longo dessa história continuaram acompanhando-a até sua morte em dezembro.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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