6 min de leitura
Depois de passar décadas em um buraco de cimento e criar a filha que nunca conheceu a vida fora do zoológico, elefanta Pocha deixa a Argentina aos 56 anos, encara 3.600 km de estrada durante cinco dias e chega a santuário no Brasil
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 21/08/2026 às 15:27
Atualizado em 21/08/2026 às 15:28
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Mãe e filha viveram por mais de duas décadas em um recinto subterrâneo de concreto em Mendoza. Em maio de 2022, uma operação preparada durante anos levou as duas elefantas asiáticas por terra até Mato Grosso, onde Guillermina encontraria grama, vegetação aberta e outros elefantes depois de passar toda a vida dentro do antigo zoológico.
Durante décadas, o mundo de Pocha e de sua filha Guillermina terminava diante de paredes de pedra e concreto. As duas elefantas asiáticas viviam no antigo Zoológico de Mendoza, posteriormente transformado em Ecoparque, na Argentina, dentro de um recinto subterrâneo que pouco lembrava o ambiente natural da espécie.
Para Pocha, aquela não havia sido sempre a única realidade conhecida. Ela chegou a Mendoza em 1968, ainda jovem, e passou grande parte da vida no local. Anos depois, deu à luz Guillermina dentro do próprio recinto.
A situação da filha era diferente. Guillermina nasceu atrás daqueles muros e nunca havia vivido fora do zoológico, enquanto mãe e filha permaneceram juntas por mais de duas décadas naquele espaço. Em agosto de 2021, o Governo de Mendoza confirmou que ambas já acumulavam mais de 20 anos no recinto subterrâneo e estavam sendo preparadas para uma transferência ao Brasil.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A mudança finalmente aconteceu em maio de 2022. Pocha, então com 56 anos, e Guillermina deixaram Mendoza para uma viagem terrestre de aproximadamente 3.600 quilômetros, com destino ao Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso.
Para sair do fosso, as duas precisaram aprender primeiro a entrar voluntariamente em enormes caixas de transporte
Retirar dois elefantes adultos de um recinto de acesso difícil e colocá-los na estrada por vários dias exigiu meses de adaptação. A preparação tinha um detalhe central: os animais não seriam simplesmente forçados para dentro dos contêineres no dia da partida.
Tratadores passaram a trabalhar com reforço positivo, fazendo Pocha e Guillermina se acostumarem gradualmente com as estruturas que seriam usadas no transporte. Cada caixa pesava cerca de 5 toneladas, tinha aproximadamente 5 metros de comprimento, 2 metros de largura e 3,20 metros de altura, além de câmeras para acompanhamento constante dos animais.
Antes da autorização para viajar, houve ainda uma etapa sanitária. De acordo com o Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina, o Senasa, as elefantas passaram por quarentena, exames, testes diagnósticos e procedimentos exigidos para a emissão do Certificado Veterinário Internacional e entrada no Brasil.
Quando os caminhões deixaram Mendoza, ainda havia cinco dias e milhares de quilômetros pela frente
Pocha e Guillermina partiram do Ecoparque de Mendoza em 7 de maio de 2022. As caixas seguiram sobre caminhões, acompanhadas por veterinários, cuidadores, treinadores e integrantes das equipes responsáveis pelo deslocamento.
A velocidade precisava ser controlada, e a logística previa paradas para verificar o estado dos animais, fornecer água e alimento e garantir que as duas permanecessem em condições adequadas. O deslocamento não era uma viagem convencional de carga, mas uma operação montada em torno das necessidades de dois animais com toneladas de peso e décadas de cativeiro.
Foram cerca de 3.600 quilômetros e cinco dias de estrada até Mato Grosso. As elefantas cruzaram a fronteira e continuaram pelo território brasileiro até a região de Chapada dos Guimarães, onde fica o santuário.
Segundo informações divulgadas na época da saída, Pocha tinha 56 anos e Guillermina estava na faixa dos 24. O destino oferecia recintos naturais muito maiores que o espaço onde viveram em Mendoza, com vegetação e áreas onde os animais poderiam escolher quanto e para onde caminhar.
Na quinta-feira, 12 de maio de 2022, a viagem chegou ao fim. Mãe e filha finalmente estavam dentro do Santuário de Elefantes Brasil.
Para Guillermina, até olhar para o horizonte era uma experiência que não fazia parte da antiga rotina
O contraste entre Mendoza e Mato Grosso ia além da quantidade de metros quadrados disponíveis. No antigo recinto, Guillermina cresceu cercada principalmente por concreto, pedra e uma visão limitada do céu, sem poder observar uma paisagem aberta ou escolher grandes distâncias para caminhar.
O Global Sanctuary for Elephants relata que ela passou cerca de 24 anos naquele ambiente. A organização afirma que a elefanta nunca havia observado o nascer ou o pôr do sol no horizonte antes da mudança e teve de aprender gradualmente a lidar com a quantidade de estímulos encontrada fora das paredes que delimitavam sua vida.
A chegada ao santuário não significou que as duas imediatamente começaram a percorrer grandes extensões de terra. Pocha demorou horas para deixar sua caixa de transporte, e mãe e filha avançaram pouco a pouco, à medida que se acostumavam ao novo local.
Essa adaptação lenta fazia parte do próprio método adotado pelos responsáveis. Não havia a necessidade de obrigá-las a explorar um ambiente que, especialmente para Guillermina, era completamente desconhecido.
O santuário em Mato Grosso substituiu paredes de cimento por áreas de Cerrado, córregos e vegetação
O Santuário de Elefantes Brasil fica na Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, e trabalha com animais retirados de zoológicos, circos e outras situações de cativeiro. O espaço começou a operar em 2016 e foi criado especificamente para receber elefantes na América do Sul.
Hoje, a instituição informa possuir aproximadamente 1.200 hectares, com áreas abertas, pastagens, árvores, córregos e lagos. Os elefantes vivem em grandes recintos e são manejados por contato protegido, sistema no qual uma barreira ou distância física é mantida entre tratadores e animais.
O objetivo não é reproduzir exatamente o habitat asiático ou africano, algo impossível no Cerrado brasileiro. A estrutura procura oferecer espaço, estímulos naturais, possibilidade de escolha e contato social entre elefantes, condições muito diferentes das encontradas em pequenos recintos de zoológicos.
O próprio Santuário de Elefantes Brasil afirma que o manejo inclui reforço positivo e cuidados individualizados, além de acompanhamento veterinário. A propriedade também permite que os animais usem elementos naturais do terreno, como sombra, água, lama e diferentes tipos de vegetação.
Pocha viveu apenas alguns meses no novo espaço, mas Guillermina permaneceu no Brasil
A história das duas no santuário teve uma mudança inesperada poucos meses depois da transferência. Pocha morreu em 6 de outubro de 2022, menos de cinco meses após chegar ao Brasil.
A necropsia apontou posteriormente doença renal crônica grave como causa da morte. O Global Sanctuary for Elephants estima que Pocha tivesse aproximadamente 57 anos e relata que já haviam sido observados alguns sinais de possíveis problemas de saúde, embora nenhuma doença tivesse sido diagnosticada anteriormente.
A morte encerrou uma convivência quase permanente entre mãe e filha que havia durado toda a vida de Guillermina. No período em Mato Grosso, porém, a jovem elefanta já havia começado a conhecer outros indivíduos da espécie, algo que ganhou peso depois que ficou sem a mãe.
Guillermina permaneceu no santuário e passou a explorar espaços maiores, estabelecer relações com outros elefantes e perder o excesso de peso associado à baixa atividade física de seus anos no zoológico. Para um animal que passou as primeiras duas décadas de vida dentro de um fosso de concreto, a viagem de 3.600 quilômetros representou a primeira mudança real de ambiente desde o nascimento.
O caso de Pocha e Guillermina mostra uma operação que levou anos de preparação para retirar duas elefantas de um recinto onde passaram décadas e transportá-las entre dois países. O que você pensa sobre a transferência de animais que viveram por muitos anos em zoológicos para grandes santuários? Deixe sua opinião nos comentários e diga se casos semelhantes deveriam receber mais espaço no debate sobre o futuro dos zoológicos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

