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Depois de plantar mais de 600 mil árvores em pouco mais de três anos e colocar cerca de 200 hectares em restauração, uma cidade de 24 mil habitantes no norte do Espírito Santo aprovou uma lei que a batizou de Guardiã das Águas, e os produtores rurais explicam o que mudou nas nascentes
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 19/08/2026 às 13:06
Atualizado em 19/08/2026 às 13:07
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Em Pinheiros, no norte capixaba, áreas dentro de propriedades rurais estão sendo destinadas à recuperação de nascentes, APPs e margens de cursos d’água; movimento iniciado em 2023 levou a Câmara Municipal a aprovar o Projeto de Lei nº 30/2026
Mais de 600 mil árvores plantadas e aproximadamente 200 hectares em processo de restauração ambiental mudaram a paisagem de propriedades rurais de Pinheiros, no norte do Espírito Santo, em pouco mais de três anos.
O movimento cresceu a ponto de sair das fazendas e chegar à Câmara Municipal. O Legislativo aprovou o Projeto de Lei nº 30/2026, concedendo ao município o título de “Pinheiros – A Cidade do Reflorestamento e Guardiã das Águas”, segundo informações publicadas pelo Portal Campo Vivo em 18 de agosto.
Por trás dos números está uma característica que ajuda a explicar por que o caso chama atenção no agronegócio: boa parte da transformação ocorre dentro de propriedades privadas, com produtores destinando terrenos à recuperação de nascentes, Áreas de Preservação Permanente (APPs), margens de córregos e outros pontos considerados ambientalmente estratégicos.
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O município não tem 27 mil habitantes, como indicado inicialmente na pauta. Segundo o IBGE, Pinheiros possuía 23.915 moradores no Censo de 2022, enquanto a estimativa disponível para 2025 é de 24.843 habitantes.
O movimento ganhou força em 2023 e levou o reflorestamento para dentro das propriedades rurais
A mobilização que resultou no título atual ganhou força a partir de 2023, por meio do Programa 4C da Nestlé, reunindo produtores locais, Associação dos Irrigantes do Estado do Espírito Santo (Assipes), Sindicato dos Produtores Rurais e Fundação SOS Mata Atlântica.
O foco não foi simplesmente aumentar o número de árvores do município.
Segundo o Campo Vivo, a recuperação concentra-se em APPs, nascentes, margens de cursos d’água e outras áreas estratégicas das propriedades.
Isso muda o significado dos 600 mil plantios. Em uma região dependente da atividade agropecuária, árvore, solo e disponibilidade de água passam a fazer parte da mesma equação econômica.
O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Pinheiros, Abdias Júnior, atribui aos próprios produtores uma parcela central do resultado. São eles que abriram partes das propriedades e aderiram ao processo de recuperação ambiental.
A aproximação entre agricultores e gestão dos recursos hídricos, aliás, antecede o reconhecimento aprovado em 2026. Em junho de 2023, a Agência Estadual de Recursos Hídricos do Espírito Santo (Agerh) já registrava em Pinheiros iniciativas de produtores envolvendo plantio de florestas nativas em áreas de nascentes e terrenos degradados.
Produtor explica por que recuperar uma nascente ultrapassa os limites da própria fazenda
Entre os participantes identificados publicamente está o produtor rural Rafael Ruela.
Ao Campo Vivo, ele explicou que o efeito esperado da recuperação ambiental não termina na divisa da propriedade. Uma nascente recuperada ou uma margem de córrego novamente ocupada por árvores integra um sistema hídrico que continua por outras áreas rurais.
É justamente aí que o título de “Guardiã das Águas” deixa de funcionar apenas como uma homenagem institucional.
O raciocínio dos produtores é econômico e ambiental ao mesmo tempo: quem depende da terra para produzir também depende da disponibilidade de água, e uma intervenção realizada em determinada propriedade pode repercutir ao longo do curso d’água.
Há, entretanto, um limite importante nos dados disponíveis.
A publicação que identifica Rafael Ruela não informa o tamanho de sua propriedade e tampouco apresenta medições comparativas da vazão de uma nascente antes e depois da restauração. Portanto, não é possível afirmar, com os documentos localizados, quantos litros de água uma nascente específica passou a produzir após o reflorestamento.
O resultado mensurável disponível até agora está em outra escala: são centenas de milhares de árvores e aproximadamente duas centenas de hectares submetidos à restauração.
Os 200 hectares começam a formar uma nova cobertura vegetal
Segundo o Campo Vivo, a área recuperada já ultrapassa aproximadamente 200 hectares, com mais de 600 mil árvores plantadas em pouco mais de três anos.
O processo pode resultar na formação de corredores de vegetação e contribuir para proteger nascentes, reduzir erosão, favorecer a infiltração da água no solo e preservar cursos d’água.
Não se trata de uma ideia inteiramente nova em Pinheiros.
Em 2019, a própria Prefeitura já divulgava a adesão de agricultores do município ao Programa Reflorestar, do Governo do Espírito Santo. O programa previa recuperação de vegetação nativa, regeneração natural, sistemas agroflorestais e outras modalidades, inclusive com Pagamento por Serviços Ambientais.
Naquele mesmo ano, outro movimento realizado em Vila Fernandes envolvia plantio de espécies nativas e recuperação de nascentes. A prefeitura registrava que a comunidade desenvolvia ações desse tipo desde 2015.
A diferença em 2026 está na escala alcançada e na transformação dessa mobilização em uma identidade oficialmente reconhecida pelo município.
Lei transforma uma iniciativa das fazendas em identidade do município
A aprovação do Projeto de Lei nº 30/2026 pela Câmara Municipal levou para o plano institucional algo que vinha sendo construído no terreno.
Pinheiros passa a carregar o título de “Cidade do Reflorestamento e Guardiã das Águas”.
A escolha também conversa diretamente com a geografia econômica local. A Prefeitura descreve Pinheiros como município de forte tradição agrícola, enquanto o IBGE registra território de 973,136 km².
É nesse contexto que os 200 hectares precisam ser interpretados. Eles ainda representam uma parcela limitada de um território municipal extenso, mas mostram uma concentração de esforços em locais especialmente relevantes para a água e para a vegetação nativa.
A experiência também coloca produtores rurais em uma posição diferente daquela normalmente associada ao debate ambiental: em vez de aparecerem somente como sujeitos de restrições ambientais, eles passam a ser agentes da restauração realizada dentro das próprias terras.
O próprio município possui histórico de preocupação com a recuperação hídrica. Pinheiros pertence à bacia hidrográfica do rio Itaúnas, e a Agerh já apontava a recuperação de nascentes como uma das ações discutidas com representantes do setor rural local em 2023.
O verdadeiro teste da “Guardiã das Águas” virá nos próximos anos
Plantar 600 mil árvores é um marco facilmente contabilizado. Saber quanto essa vegetação conseguirá transformar a disponibilidade hídrica é uma questão muito mais demorada.
Árvores precisam crescer, áreas restauradas precisam se consolidar e indicadores ambientais precisam ser acompanhados ao longo do tempo.
O próprio Campo Vivo aponta que os efeitos deverão ser observados nas próximas décadas, especialmente sobre nascentes, cursos d’água, biodiversidade e disponibilidade hídrica.
Por isso, a aprovação da lei não encerra a história.
Ela marca uma mudança de escala: um movimento fortalecido dentro das propriedades rurais a partir de 2023 chegou a mais de 600 mil árvores, alcançou cerca de 200 hectares e acabou incorporado à própria identidade oficial de Pinheiros.
Agora, o dado mais importante será outro: acompanhar se as áreas restauradas conseguirão transformar esses números de plantio em água protegida e disponível nas propriedades rurais ao longo dos próximos anos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

