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Depois de trabalhar na roça e se tornar gari, pai criou 8 filhos ao lado da esposa dona de casa, com pouco dinheiro e sem condições de pagar colégios particulares, mas os dois colocaram tudo o que podiam na educação dos filhos e viram todos os oito chegarem ao serviço público, com aprovações em tribunais, ministério e secretarias
Escrito por Ana Alice
Publicado em 11/08/2026 às 15:57
Atualizado em 11/08/2026 às 15:58
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A trajetória de Bartíria e Paulino Doxa mostra como uma família de poucos recursos transformou a educação em prioridade e viu os oito filhos conquistarem espaço no serviço público em diferentes órgãos do Distrito Federal.
Quando a história de Bartíria e Paulino Doxa ganhou repercussão nacional, em maio de 2016, o casal já podia olhar para os oito filhos e encontrar algo em comum entre todos eles: os oito haviam chegado ao serviço público.
As aprovações espalharam a família por órgãos como Ministério Público da União, Tribunal Regional Federal, Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios e secretarias de Educação, Fazenda e Saúde do Distrito Federal.
O resultado contrastava com o ponto de partida da família.
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Paulino passou parte da vida trabalhando na roça e depois se tornou gari.
Bartíria, que não teve oportunidade de avançar nos próprios estudos, cuidava da casa e dos filhos e complementava a renda quando podia, costurando e lavando roupas para outras pessoas.
Dinheiro para escolas particulares e materiais caros não fazia parte daquela realidade.
Uma década depois da reportagem original, documentos públicos permitem atualizar parte dessa trajetória.
Mauro Jean Pires Doxa aparece vinculado ao Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região em registros de 2025 e no ambiente institucional do tribunal em 2026, enquanto Paulo Sérgio Pires Doxa consta na relação de servidores do TJDFT em janeiro de 2026.
A história familiar também atravessou uma perda.
Paulino Pires Doxa morreu em 21 de julho de 2025, segundo registro oficial do Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal que concedeu pensão à viúva, Bartíria Silvestre Pires, a partir daquela data.
Família deixou a fazenda em Goiás e recomeçou em Planaltina
Bartíria e Paulino se conheceram enquanto viviam em uma fazenda no interior de Goiás.
Foi ali que nasceram os três primeiros filhos do casal.
Conforme as crianças cresceram, porém, os pais começaram a considerar que permanecer na área rural poderia limitar as oportunidades educacionais disponíveis para elas.
A família então deixou a fazenda e seguiu para Planaltina, no Distrito Federal.
Bartíria contou, em 2016, que tinha aproximadamente 28 anos quando fez essa mudança.
A adaptação não foi simples.
“Vim para Planaltina com cerca de 28 anos, foi difícil. Mas sempre tive vontade de que meus filhos estudassem, porque isso eu não pude”, recordou.
O desejo esbarrava em uma limitação bastante concreta: o orçamento doméstico.
Segundo ela, não havia dinheiro para colocar os filhos em colégios particulares.
Paulino trabalhava fora e recebia pouco, embora o salário mensal trouxesse alguma estabilidade para uma casa com oito crianças.
Bartíria permanecia mais próxima da rotina dos filhos.
Além de cuidar da casa, ela fazia trabalhos extras sempre que surgia uma oportunidade.
“Eu cuidava dos filhos em casa e ajudava quando podia, costurando e lavando roupa para os outros”, contou na época.
Bartíria não pôde estudar, mas fez da educação dos filhos uma prioridade
A mãe chegou a tentar entrar no próprio serviço público.
Bartíria prestou um concurso para merendeira da Secretaria de Educação, mas não foi aprovada.
Em vez de seguir tentando outras seleções, manteve sua rotina como dona de casa e concentrou parte de seus esforços na vida escolar dos filhos.
Na reportagem publicada pelo Diario de Pernambuco em 25 de maio de 2016, quando tinha 75 anos, ela associava diretamente sua dedicação à educação das crianças às oportunidades que não havia recebido quando jovem.
Paulino, por sua vez, percorreu um caminho diferente.
Ele trabalhou na roça até os 36 anos, quando participou de um processo seletivo para o Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal, o SLU.
A experiência acumulada no campo acabou sendo útil justamente na etapa prática da seleção.
Segundo a história contada pela família, Paulino gostava de lembrar que havia tirado nota 10 na prova prática.
A tarefa era capinar.
A aprovação abriu uma nova etapa.
Paulino tornou-se gari e construiu uma trajetória de 35 anos no mesmo órgão, aposentando-se posteriormente como operador de máquinas.
A “caneta” era o patrimônio que Paulino queria deixar aos filhos
Mesmo sem uma condição financeira que permitisse oferecer escolas privadas aos oito filhos, Paulino repetia uma ideia dentro de casa.
Quem recordou a frase foi Mauro Doxa, o caçula.
“Meu pai sempre disse que o estudo muda a realidade social e a caneta era o maior patrimônio que poderia nos deixar”, afirmou Mauro na reportagem de 2016.
O primeiro resultado que chamou a atenção dos irmãos veio de Gervani, o primogênito.
Logo depois de concluir o Ensino Médio, ele participou de seu primeiro concurso para a antiga Fundação Educacional.
Aos 19 anos, foi aprovado em primeiro lugar para a Secretaria de Educação.
A aprovação ajudou a transformar uma orientação repetida pelos pais em um caminho concreto para os outros irmãos.
Quando a história da família foi publicada, em 2016, Gervani acumulava 25 anos de atuação como secretário escolar e continuava estudando com o objetivo de tentar outras seleções.
Ele também passou a procurar concursos e avisar aos irmãos quando encontrava novas oportunidades.
Ao explicar a influência do pai, resumiu: “O que ele podia dar para nós era educação e foi o que ele fez.”
Caçula da família chegou a acumular dez nomeações em concursos
Mauro também transformou os concursos em parte importante de sua trajetória profissional.
Em 2016, a reportagem registrava que o caçula da família já acumulava dez nomeações, havia trabalhado no Superior Tribunal de Justiça e ocupava o cargo de analista do Ministério Público da União.
O caminho, segundo ele, estava longe de ser simples.
Uma das dificuldades era justamente financiar a preparação.
Cursinhos e materiais de qualidade custavam dinheiro, algo que tinha peso considerável para candidatos com poucos recursos.
Mauro lembrava que pessoas de condições financeiras e formações muito diferentes disputavam as mesmas vagas.
Registros mais recentes mostram que a carreira continuou avançando.
Documentos institucionais do TRT da 10ª Região colocavam Mauro Jean Pires Doxa na Escola Judicial do tribunal em 2025, na área de formação técnico-administrativa e gerencial.
O ambiente virtual oficial do TRT-10 também mantém perfil funcional em seu nome em 2026.
Oito filhos chegaram ao serviço público em diferentes órgãos
Na fotografia da família registrada em 2016, havia filhos trabalhando em diferentes estruturas do poder público.
A reportagem citava Ministério Público da União, Tribunal Regional Federal, TJDFT e as secretarias de Fazenda, Educação e Saúde do Distrito Federal entre os destinos profissionais alcançados pelos oito irmãos.
Paulo, outro filho do casal, já estava naquele período em seu terceiro cargo público e atuava como técnico administrativo do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.
Nesse caso, há uma atualização documental.
Em abril de 2024, a Corregedoria do TJDFT destacou Paulo Sérgio Pires Doxa entre os servidores de uma unidade judicial agraciada com selo de qualidade.
Em janeiro de 2026, a tabela oficial de lotação do tribunal continuava registrando Paulo como técnico judiciário.
Não foram encontrados registros públicos suficientemente claros para atualizar, com o mesmo grau de segurança, a situação profissional atual de todos os oito irmãos.
Por isso, as lotações de órgãos e secretarias atribuídas à família devem ser entendidas como o retrato documentado pela reportagem publicada em 2016, e não como uma lista necessariamente válida para todos eles em 2026.
Paulino abriu no serviço público um caminho seguido pelos filhos
Na prática, o primeiro servidor público daquela casa havia sido o homem que passou anos trabalhando na lavoura.
Depois vieram os filhos.
Um conquistou o primeiro lugar aos 19 anos, outros passaram por tribunais, ministério e secretarias, e os concursos começaram a circular dentro da própria família como oportunidades que um irmão mostrava ao outro.
A tradição já começava a alcançar a geração seguinte quando a história foi publicada.
Paulo, então pai de uma criança de quase dois anos, contou que pretendia dar três presentes ao filho para que ele pudesse escolher os próprios caminhos no futuro: um violão, uma bola de futebol e uma caneta.
A escolha da caneta recuperava justamente a imagem usada por Paulino durante a criação dos oito filhos.
Sem patrimônio elevado para dividir, sem colégio particular e com a renda construída a partir do trabalho no SLU e dos serviços que Bartíria fazia em casa, o casal colocou a educação no centro das possibilidades que conseguia oferecer.
Paulino não chegou a acompanhar indefinidamente os próximos capítulos dessa história.
Documento do Governo do Distrito Federal registra sua morte em julho de 2025, quase uma década depois de sua família ganhar destaque pelas aprovações dos filhos.
Ainda assim, registros oficiais de 2026 mostram ao menos dois deles, Mauro e Paulo, vinculados a tribunais federais ou distritais, décadas depois de a primeira aprovação de Gervani abrir caminho dentro de casa.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

