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Depois de viver nas ruas de Fortaleza, passar fome e chegar a comer restos encontrados no lixo, maranhense voltou a estudar quase 20 anos depois, trabalhou como entregador para pagar Direito, aproveitou intervalos das entregas para estudar e passou na OAB de primeira ainda no 9º semestre
Escrito por Ana Alice
Publicado em 13/08/2026 às 07:30
Atualizado em 13/08/2026 às 07:31
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Depois de quase duas décadas longe da escola, Sérgio Chaves Pereira conciliou trabalho, faculdade e preparação para a OAB até transformar uma trajetória marcada por fome e situação de rua em carreira jurídica.
Quando recebeu a carteira profissional da Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará, em fevereiro de 2023, Sérgio Chaves Pereira carregava o número 50.000 da seccional.
O número simbólico encerrava uma etapa que havia começado muito longe dos tribunais.
Nascido em Imperatriz, no Maranhão, Sérgio passou parte da adolescência sem moradia estável, enfrentou fome, abandonou a escola, trabalhou em lava a jato, lanchonetes e entregas e permaneceu cerca de duas décadas afastado das salas de aula.
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Aos 30 anos, decidiu retomar os estudos.
Concluiu a educação básica pelo Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos, o Encceja, em 2018, entrou em uma faculdade particular de Direito e continuou trabalhando para custear a formação.
Ainda no 9º semestre, prestou pela primeira vez o 34º Exame de Ordem Unificado e foi aprovado.
Na etapa objetiva, obteve 51 pontos, 11 acima dos 40 exigidos para avançar no exame.
A regra de 40 acertos em uma prova de 80 questões é confirmada pela Fundação Getulio Vargas, responsável pela aplicação do Exame de Ordem.
Infância de Sérgio Pereira foi marcada por mudanças e interrupção dos estudos
Antes de chegar à faculdade, Sérgio atravessou uma infância de deslocamentos.
Os pais se separaram quando ele tinha sete anos.
Com a mãe e os irmãos, foi para o Pará, mas problemas de convivência familiar fizeram com que passasse períodos entre Pará e Maranhão e também nas casas de uma avó e de uma tia.
Nesse movimento constante, a escola acabou ficando para trás.
Aos 12 anos, segundo o relato detalhado publicado pelo Correio Braziliense em dezembro de 2022, Sérgio decidiu interromper uma das viagens familiares e desembarcou em Teresina, no Piauí.
Sem estrutura para se manter, passou a viver nas ruas.
A fome chegou ao ponto de fazê-lo procurar alimento entre o que era descartado.
“Cheguei a comer coisas do lixo”, recordou ao jornal.
Quando conseguia algum trabalho ocasional, muitas vezes a recompensa era a própria refeição.
Aquela fase ocorreu quando ele ainda era adolescente e sem uma rede familiar próxima que garantisse moradia, alimentação e continuidade escolar.
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Chegada a Fortaleza mudou a trajetória do futuro advogado
Depois de Teresina, Sérgio seguiu para Fortaleza.
Relatos posteriores publicados pelo O Povo registram que ele chegou à capital cearense em 2002 e continuava em situação de extrema vulnerabilidade.
Dois dias depois da chegada, enquanto vigiava carros no estacionamento de um supermercado, conheceu Raimundo Nascimento, conhecido como Nonato.
Raimundo era proprietário de um lava a jato no Bairro de Fátima.
Ele ofereceu ao adolescente emprego, alimentação e um lugar para morar.
Sérgio permaneceu com a família de Nonato por cerca de quatro anos e afirmou posteriormente que era tratado como os filhos do casal.
A oportunidade permitiu que começasse a construir alguma estabilidade.
Depois de trabalhar no lava a jato e juntar dinheiro, Sérgio conseguiu alugar um lugar para morar, comprou uma bicicleta e passou a fazer entregas.
Ao longo dos anos seguintes, exerceu diferentes atividades, entre elas trabalhos em lanchonetes, promoção de vendas, lavagem de carros e serviços de entrega.
Abordagem em supermercado aproximou Sérgio do Direito
A decisão de voltar a estudar não nasceu apenas da vontade de melhorar a renda.
Um episódio vivido já adulto fez Sérgio olhar para o Direito de outra maneira.
Ele relatou que foi abordado por dois seguranças dentro de um supermercado sob suspeita de furto.
Mesmo apresentando a nota fiscal das compras, afirmou ter sido levado a um banheiro, intimidado e obrigado a retirar a roupa.
Depois do episódio, procurou uma delegacia para registrar a ocorrência.
Segundo seu relato, ouviu que naquele momento não havia agentes suficientes para atender o caso.
A experiência reforçou a intenção de compreender os próprios direitos e acabou influenciando sua decisão de retomar a educação formal.
Aos 30 anos, depois de quase duas décadas distante da escola, ele reorganizou a rotina.
Em 2018, concluiu os estudos por meio do Encceja.
Com o certificado em mãos, o próximo objetivo passou a ser a graduação.
Trabalho de entregador ajudou a pagar a faculdade de Direito
Sérgio entrou em uma instituição particular e utilizou parte do dinheiro obtido trabalhando como entregador para pagar o curso.
Durante um período, manteve dois empregos.
“Trabalhava dia e noite, em dois empregos”, contou ao recordar o início da graduação.
Mais tarde, deixou um dos turnos para poder frequentar a faculdade à noite.
Isso não significou abandonar o trabalho.
O emprego continuou sendo necessário para manter as mensalidades e as despesas familiares.
A rotina passou a funcionar em torno de pequenos intervalos.
Sérgio chegava mais cedo ao trabalho para estudar, aproveitava momentos disponíveis durante as entregas e seguia diretamente para a faculdade no período noturno.
Aulas em áudio também entraram nessa estratégia.
Enquanto trabalhava, ouvia conteúdos acadêmicos pelo fone de ouvido.
Em casa, espalhava anotações por locais que consultava com frequência.
Anos depois, o próprio presidente da OAB-CE recordaria publicamente esse método ao falar da entrega da carteira profissional, destacando que o então entregador encontrava maneiras de acompanhar aulas durante a rotina de trabalho.
Faculdade exigiu reconstruir até a relação com a língua portuguesa
O tempo afastado da escola apareceu rapidamente quando Sérgio entrou no ensino superior.
Ele relatou que chegou à faculdade sentindo uma diferença significativa em relação à formação dos colegas e percebeu que precisaria dedicar mais tempo ao estudo.
As dificuldades não ficaram restritas às disciplinas jurídicas.
Sérgio contou que também foi alvo de comentários por causa da forma como escrevia e falava.
Uma apresentação em sala, na qual foi corrigido publicamente por colegas, levou-o a intensificar os estudos de português.
Segundo seu relato, as notas inicialmente eram baixas, mas melhoraram ao longo dos semestres.
Ele afirmou não ter sido reprovado em nenhuma disciplina.
Também disse ter enfrentado episódios que interpretou como discriminação racial e social dentro da faculdade, incluindo a informação de que colegas policiais teriam consultado seus antecedentes.
As dificuldades acadêmicas acabaram levando à criação de um método cada vez mais disciplinado.
Além das leituras indicadas pelos professores, Sérgio buscava aulas gravadas e provas anteriores.
Foi essa estratégia que também levou para a preparação da OAB.
Treze provas anteriores entraram na preparação para a OAB
Quando chegou ao 9º semestre de Direito, Sérgio decidiu prestar o Exame de Ordem.
Era sua primeira tentativa.
Em vez de depender apenas de um cronograma separado da faculdade, passou a encaixar a preparação na rotina que já havia desenvolvido.
Ele afirma ter resolvido as 13 provas anteriores da OAB disponíveis naquele período.
Na primeira fase do 34º Exame de Ordem Unificado, atingiu 51 pontos.
O exame objetivo tinha 80 questões, e o mínimo necessário para avançar era de 40 acertos.
A aprovação aconteceu ainda antes da conclusão da graduação.
Esse detalhe exige uma distinção: passar no Exame de Ordem não torna automaticamente o estudante advogado.
Sérgio ainda precisava concluir a faculdade e cumprir os requisitos para obter a inscrição profissional.
Em dezembro de 2022, ele estava no 10º semestre, havia apresentado o trabalho de conclusão de curso e aguardava a colação de grau prevista para fevereiro de 2023.
Carteira número 50 mil da OAB Ceará chegou em fevereiro de 2023
A etapa seguinte veio em 28 de fevereiro de 2023.
Na sede da OAB Ceará, Sérgio recebeu formalmente sua carteira profissional.
Por uma coincidência institucional, a inscrição dele marcou o número 50.000 da história da seccional cearense.
O Conselho Federal da OAB também registrou o episódio durante as comemorações pelos 90 anos da seccional.
A entidade identificou Sérgio como ex-morador de rua e antigo entregador de comida por aplicativo ao destacar a marca de 50 mil inscrições.
Aquele momento também corrigiu uma situação temporal presente nas primeiras reportagens.
Em dezembro de 2022, Sérgio já havia sido aprovado no exame, mas ainda era estudante.
Somente depois de concluir a graduação e receber sua inscrição na OAB passou formalmente à condição de advogado.
Homem que o acolheu nas ruas voltou a procurá-lo como advogado
Uma das consequências mais inesperadas da trajetória apareceu no fim de 2023.
Raimundo Nascimento, o Nonato, homem que havia oferecido teto e trabalho a Sérgio quando ele chegou a Fortaleza, procurou o antigo ajudante do lava a jato.
Desta vez, precisava dele como advogado.
Nonato enfrentava uma questão jurídica decorrente de um acidente de trânsito em Juazeiro do Norte e pediu auxílio.
Sérgio participou do caso e informou posteriormente que foi firmado um acordo entre as partes.
O reencontro ocorreu depois de aproximadamente 12 anos sem que os dois mantivessem contato presencial regular.
“Nonato foi um anjo de Deus”, disse Sérgio ao recordar quem lhe ofereceu apoio quando ainda vivia em extrema vulnerabilidade.
Em janeiro de 2024, O Povo informou que Sérgio estava se especializando em Direito e Processo Penal.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

