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Depois de viver nas ruas e sobreviver por anos na Rodoviária do Plano Piloto, homem guarda livros sob um bueiro, faz longas caminhadas a pé para estudar, passa no primeiro vestibular de 2006 da UnB e, seis anos depois, entrega a monografia com menção máxima e se forma em Pedagogia aos 29 anos
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 12/08/2026 às 17:41
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Trajetória marcada por situação de rua, longas caminhadas e livros escondidos em um bueiro atravessou anos de dificuldades até chegar a uma universidade pública. O percurso inclui aprovação no vestibular, apoio institucional, seis anos de graduação e uma monografia que recebeu a maior menção possível.
Sérgio Reis Ferreira passou anos em situação de rua e enfrentou uma rotina de estudos marcada pela ausência de moradia, pelos longos deslocamentos a pé e pela falta de um local seguro onde pudesse guardar livros, cadernos e outros pertences.
Enquanto tentava sobreviver na região da Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, parte do material usado nos estudos chegou a ficar escondida sob um bueiro, recurso improvisado por quem não dispunha de uma casa ou sequer de um armário.
A mudança mais significativa dessa trajetória ocorreu quando Sérgio conquistou uma vaga no primeiro vestibular de 2006 da Universidade de Brasília, a UnB, instituição em que ingressou no curso de Pedagogia e iniciou uma nova etapa de sua formação.
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Seis anos depois daquela aprovação, ele entregou a monografia que marcou o encerramento da graduação, trabalho dedicado justamente às dificuldades enfrentadas por moradores de rua do Distrito Federal que buscam uma oportunidade de inserção por meio da educação formal.
Avaliada com menção máxima pela banca, a pesquisa representou a conclusão acadêmica de um estudante que havia passado parte da vida dormindo ao relento e que, aos 29 anos, conseguia terminar uma graduação em uma universidade pública federal.
Da Rodoviária do Plano Piloto ao vestibular da UnB
Registrada pelo Correio Braziliense em reportagem produzida pela UnB Agência, a trajetória também revela dificuldades anteriores à chegada a Brasília, incluindo uma infância marcada por maus-tratos e abandono em Ipatinga, Minas Gerais, além de períodos vividos em instituições para menores.
Antes de se estabelecer na capital federal, Sérgio também esteve nas ruas do Rio de Janeiro e enfrentou diferentes situações de vulnerabilidade, até passar a sobreviver durante anos nos arredores da Rodoviária do Plano Piloto, um dos principais pontos de circulação de Brasília.
Sem uma residência onde pudesse organizar a própria rotina, ele precisava adaptar necessidades básicas às possibilidades encontradas nos espaços públicos, realidade que interferia diretamente não apenas na vida cotidiana, mas também na maneira como preservava livros, cadernos e materiais usados nos estudos.
Entre essas adaptações estava uma solução particularmente incomum: guardar parte do material sob um bueiro, onde alguns itens acabavam danificados por ratos e baratas, situação que, segundo seu relato, provocava constrangimento quando precisava conviver com os demais estudantes da universidade.
Também faziam parte daquela rotina os extensos deslocamentos realizados sem transporte, já que o caminho até as atividades acadêmicas incluía longas caminhadas a pé, enquanto tarefas básicas, como higiene pessoal e lavagem de roupas, dependiam de locais públicos disponíveis pela cidade.
Segundo a reportagem, Sérgio tomava banho no Parque da Cidade e chegou a lavar roupas no Lago Paranoá, circunstâncias que evidenciavam a distância entre sua realidade cotidiana e aquela encontrada entre grande parte dos estudantes que frequentavam normalmente o campus universitário.
Apoio da UnB ajudou na permanência no curso de Pedagogia
Conquistar a vaga no vestibular, entretanto, não eliminou os obstáculos que poderiam impedir sua permanência na universidade, razão pela qual diferentes setores da UnB passaram a participar de uma rede destinada a oferecer condições para que ele continuasse regularmente matriculado.
Alimentação, transporte, assistência social e orientação pedagógica estiveram entre os suportes oferecidos a Sérgio, dentro de uma estrutura que envolveu professores, profissionais da área social e setores responsáveis por assuntos comunitários ao longo de sua permanência na graduação.
Entre os envolvidos nesse acompanhamento estava o professor Cristiano Alberto Muniz, que posteriormente se tornaria orientador de sua monografia, além de profissionais responsáveis por auxiliar o estudante diante das dificuldades materiais e das exigências próprias da rotina acadêmica.
Mais do que entrar diariamente em uma sala de aula, permanecer no ensino superior exigia adaptação a horários, normas, avaliações, produção de trabalhos e diferentes formas de convivência, desafios que se somavam à vulnerabilidade econômica enfrentada por Sérgio fora do ambiente universitário.
A entrada na UnB havia ocorrido por meio do primeiro vestibular realizado pela instituição em 2006, aprovação que abriu caminho para uma graduação concluída seis anos mais tarde, depois de um processo marcado por instabilidades e pelo acompanhamento de diferentes áreas da universidade.
Ao longo desse período, o apoio institucional tornou-se parte da própria permanência acadêmica, permitindo que dificuldades relacionadas à alimentação, ao transporte e à organização cotidiana fossem enfrentadas enquanto Sérgio avançava nas disciplinas necessárias para terminar o curso de Pedagogia.
Monografia sobre educação e população em situação de rua recebe menção máxima
Quando chegou à etapa final da graduação, Sérgio decidiu transformar parte da experiência que havia vivido em objeto de pesquisa, aproximando sua formação acadêmica de um problema social que conhecia diretamente desde os anos passados em situação de rua.
O trabalho recebeu o título As dificuldades dos moradores de rua do Distrito Federal de se inserirem por meio da educação formal e concentrou a análise nos obstáculos encontrados por pessoas em situação de extrema vulnerabilidade que tentam acessar oportunidades educacionais.
Além de abordar aspectos de sua própria trajetória, a monografia reuniu experiências relacionadas a outras pessoas que enfrentavam condições semelhantes, permitindo discutir como a ausência de estrutura básica pode interferir na adaptação às regras e exigências presentes no ambiente universitário.
Questões ligadas a horários, normas, produção acadêmica e convivência fizeram parte da análise desenvolvida por Sérgio, que relacionou essas exigências às dificuldades enfrentadas por estudantes em extrema vulnerabilidade ao tentar ingressar e permanecer dentro de uma instituição de ensino superior.
Ao final da avaliação, a banca atribuiu menção máxima à monografia, reconhecendo academicamente um trabalho construído durante a graduação e apresentado como pesquisa universitária, sem reduzir seu valor ao caráter excepcional da história pessoal vivida pelo próprio autor.
Durante a defesa, Sérgio falou por cerca de 45 minutos, conforme registrado na reportagem, enquanto o professor Cristiano Muniz, responsável pela orientação, ressaltou que os resultados alcançados naquele trabalho pertenciam ao estudante e ao percurso acadêmico desenvolvido por ele.
A entrega da pesquisa também ganhou um caráter simbólico quando Sérgio levou o trabalho ao então reitor José Geraldo de Sousa Junior, encerrando uma etapa iniciada seis anos antes com a aprovação que havia garantido sua entrada na Universidade de Brasília.
Na ocasião, integrantes da instituição que haviam participado do acompanhamento acadêmico estiveram presentes e relembraram dificuldades enfrentadas ao longo do curso, período em que a permanência do estudante exigiu atenção a questões que ultrapassavam os limites convencionais da sala de aula.
Livros escondidos sob um bueiro fizeram parte da rotina de estudos
Muito antes da apresentação da monografia, a relação de Sérgio com a educação já precisava conviver diariamente com as limitações impostas pela falta de moradia, condição que transformava tarefas simples de qualquer rotina de estudos em dificuldades concretas de organização e sobrevivência.
Não ter residência significava viver sem armário para guardar materiais, sem banheiro disponível no cotidiano e sem uma estrutura doméstica para preparar as atividades acadêmicas, fatores que obrigavam o estudante a encontrar soluções improvisadas para continuar frequentando a universidade.
Mesmo nesse cenário, os livros permaneceram presentes em seu percurso e precisaram ser protegidos da maneira possível, ainda que isso significasse deixá-los escondidos em um espaço improvisado sob a cidade, sujeitos às condições encontradas naquele ambiente.
Anos depois, justamente a experiência de conviver com essas limitações ajudaria a definir o tema escolhido para sua pesquisa acadêmica, aproximando a formação em Pedagogia das barreiras enfrentadas pela população em situação de rua no acesso à educação formal.
Em vez de direcionar a monografia para uma realidade distante de sua própria experiência, Sérgio concentrou o trabalho em um problema que havia acompanhado diretamente, relacionando os conhecimentos adquiridos durante o curso a situações observadas antes e durante sua passagem pela universidade.
Dessa forma, a pesquisa acadêmica reuniu elementos de formação profissional e de uma trajetória pessoal marcada pela vulnerabilidade, sem deixar de tratar o tema dentro das exigências de um trabalho universitário submetido à avaliação formal de uma banca examinadora.
Seis anos entre a aprovação no vestibular e a formação em Pedagogia
Embora a aprovação no vestibular tenha aberto as portas da universidade, ela representou apenas uma etapa de um percurso que ainda exigiria seis anos para ser completado, período durante o qual diferentes formas de assistência fizeram parte das condições necessárias à permanência acadêmica.
Ao longo da graduação, alimentação, transporte, acompanhamento social e orientação pedagógica integraram essa estrutura de suporte, enquanto a própria UnB mobilizava setores distintos para atender um estudante cuja situação de extrema vulnerabilidade apresentava desafios pouco comuns dentro da rotina universitária.
No encerramento do curso, alguns elementos concretos permitiam dimensionar a transformação ocorrida durante aquele período: o homem que havia precisado esconder livros sob um bueiro chegava à etapa de entregar uma pesquisa universitária avaliada com a maior menção possível.
Também as longas caminhadas realizadas para participar das atividades acadêmicas passaram a integrar uma trajetória que terminou dentro do curso de Pedagogia, justamente a área escolhida por Sérgio para estudar as dificuldades de acesso e permanência na educação formal.
Aos 29 anos, ele concluiu a graduação levando para o trabalho final uma discussão sobre educação, população em situação de rua e os obstáculos enfrentados por pessoas que tentam estudar sem dispor sequer das condições materiais mais básicas para organizar o cotidiano.
Encerrava-se, assim, uma etapa iniciada com a aprovação no vestibular da Universidade de Brasília e construída durante seis anos de estudos, enquanto a própria experiência de vulnerabilidade vivida por Sérgio se transformava em tema de uma pesquisa acadêmica reconhecida pela banca.
Quantas pessoas que vivem em condições extremas poderiam chegar ao ensino superior se encontrassem acesso à educação e uma estrutura capaz de garantir sua permanência?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

