Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Depois que o último trem partiu em 1988, uma gigantesca estação de 18 andares foi saqueada, inundada e apodreceu até virar símbolo da decadência de Detroit, mas a Ford mobilizou 3.100 trabalhadores, retirou 3,5 milhões de galões de água, restaurou 8 milhões de tijolos em um projeto de mais de US$ 900 milhões e a transformou no centro onde pretende criar os carros do futuro

Depois que o último trem partiu em 1988, uma gigantesca estação de 18 andares foi saqueada, inundada e apodreceu até virar símbolo da decadência de Detroit, mas a Ford mobilizou 3.100 trabalhadores, retirou 3,5 milhões de galões de água, restaurou 8 milhões de tijolos em um projeto de mais de US$ 900 milhões e a transformou no centro onde pretende criar os carros do futuro

8 min de leitura

Depois que o último trem partiu em 1988, uma gigantesca estação de 18 andares foi saqueada, inundada e apodreceu até virar símbolo da decadência de Detroit, mas a Ford mobilizou 3.100 trabalhadores, retirou 3,5 milhões de galões de água, restaurou 8 milhões de tijolos em um projeto de mais de US$ 900 milhões e a transformou no centro onde pretende criar os carros do futuro

Escrito por Ana Alice

Publicado em 05/08/2026 às 23:36

Atualizado em 05/08/2026 às 23:37

Curiosidades

Canal

Assista o vídeo
Michigan Central renasceu após décadas de abandono: Ford restaurou a estação de Detroit para abrigar tecnologia, cultura e mobilidade. (Imagem: Ilustrativa)

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Após décadas de abandono, a antiga estação ferroviária de Detroit ressurgiu como um polo de tecnologia, cultura e mobilidade, preservando marcas da ruína enquanto recebe empresas, estudantes e projetos ligados ao futuro da cidade.

Durante décadas, janelas quebradas, paredes cobertas por pichações e salões tomados pela água fizeram da Michigan Central Station uma das ruínas urbanas mais conhecidas dos Estados Unidos.

O edifício monumental de Detroit, abandonado depois da partida do último trem, voltou a receber trabalhadores, estudantes, empresas de tecnologia e visitantes após uma restauração conduzida pela Ford.

A estação foi reaberta oficialmente em 06 de junho de 2024, depois de seis anos de obras.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

O prédio tornou-se a principal peça de um distrito de tecnologia e cultura de 30 acres, equivalente a aproximadamente 12 hectares, instalado no bairro de Corktown.

A recuperação envolveu mais de 3.100 profissionais e cerca de 1,7 milhão de horas de trabalho.

Equipes retiraram milhões de litros de água do subsolo, recuperaram elementos históricos e instalaram redes modernas de eletricidade, comunicação e encanamento em uma construção inaugurada no início do século XX.

Em vez de voltar a funcionar apenas como terminal ferroviário, o complexo passou a receber projetos ligados à mobilidade, à energia, à fabricação avançada e ao desenvolvimento de novos produtos.

A criação de automóveis faz parte do plano, mas não resume todas as atividades previstas para o local.

Uma estação construída para impressionar quem chegava a Detroit

A Michigan Central Station abriu as portas em dezembro de 1913, antes do previsto, depois que um incêndio atingiu o antigo terminal ferroviário da cidade.

O projeto foi desenvolvido por Warren & Wetmore e Reed & Stem, escritórios também associados à Grand Central Terminal de Nova York.

O conjunto reúne uma estação de três pavimentos e uma torre de escritórios com 18 andares.

Na época de maior movimento, durante a década de 1940, o terminal atendia mais de 4 mil passageiros por dia e abrigava aproximadamente 3 mil trabalhadores em seus escritórios.

Seus grandes salões recebiam pessoas que chegavam a Detroit em busca de empregos nas fábricas e oportunidades em uma cidade que se consolidava como centro mundial da indústria automobilística.

Trens conectavam a região a cidades como Chicago, Nova York e Toronto.

No entanto, a expansão das rodovias, a popularização dos automóveis e o crescimento das viagens aéreas reduziram gradualmente a circulação ferroviária de passageiros.

A partir da década de 1950, o movimento entrou em queda e diferentes tentativas de venda ou reaproveitamento do prédio não avançaram.

O último trem deixou a Michigan Central Station em 1988

Às 11h30 de 05 de janeiro de 1988, o trem número 353 partiu em direção a Chicago e encerrou 74 anos de operações ferroviárias na Michigan Central Station.

Depois disso, o terminal foi fechado e permaneceu sem uso regular por três décadas.

Sem uma função definida e com poucos recursos para manutenção, o edifício começou a se deteriorar.

Invasores retiraram metais, equipamentos, peças decorativas e outros materiais que ainda poderiam ser vendidos ou reaproveitados.

A ausência de janelas permitiu a entrada de chuva, neve e animais.

Água se acumulou no subsolo, partes do acabamento se desprenderam e a estrutura passou a atrair exploradores urbanos, fotógrafos e visitantes que entravam ilegalmente no imóvel.

O tamanho da construção tornou a degradação especialmente visível.

Enquanto outras fábricas e edifícios de Detroit também eram fechados, a torre da Michigan Central continuava dominando a paisagem de Corktown.

Em 2009, o Conselho Municipal de Detroit chegou a aprovar a demolição da estação.

Restrições financeiras, disputas judiciais e a proteção relacionada ao valor histórico impediram que a decisão fosse executada.

A ruína acabou associada à crise econômica e populacional da cidade, que enfrentou o fechamento de negócios, a saída de moradores e, em 2013, o maior processo de falência municipal da história dos Estados Unidos até então.

Michigan Central Station permaneceu abandonada por três décadas, com janelas destruídas, fachada deteriorada e áreas internas expostas ao clima e ao vandalismo. Crédito: Ford Motor Company/Michigan Central

Ford comprou a estação e iniciou uma restauração de seis anos

A mudança começou em 2018, quando a Ford adquiriu a estação e estruturas próximas para criar um novo distrito voltado à mobilidade e à inovação.

As obras de recuperação começaram no fim daquele ano.

O projeto mais amplo recebeu investimento superior a US$ 900 milhões, incluindo a restauração do terminal e o desenvolvimento do campus ao redor.

O objetivo era combinar escritórios, laboratórios, áreas de fabricação, espaços públicos, comércio e infraestrutura para testes tecnológicos.

A primeira dificuldade estava escondida sob o edifício.

Ao longo das obras, as equipes bombearam cerca de 3,5 milhões de galões de água, equivalentes a aproximadamente 13,2 milhões de litros, do porão da estação.

Também foram retirados 3.990 metros cúbicos de entulho.

O volume de água considera tanto o acúmulo encontrado no início da intervenção quanto novas entradas registradas durante uma inundação que atingiu Detroit em 2021.

Mais de 3.100 trabalhadores especializados participaram do processo, acumulando aproximadamente 1,7 milhão de horas de serviço.

Pedreiros, eletricistas, engenheiros, arquitetos, restauradores, carpinteiros e especialistas em conservação histórica trabalharam em diferentes áreas do prédio.

Oito milhões de tijolos foram recuperados na restauração

O edifício é composto por aproximadamente 8 milhões de tijolos.

Durante a recuperação, partes da alvenaria foram desmontadas para permitir reparos na estrutura metálica, enquanto peças danificadas passaram por limpeza, novo rejuntamento, substituição ou reprodução.

A restauração não consistiu em trocar todo o material antigo por elementos novos.

Sempre que possível, os profissionais conservaram as peças originais e produziram réplicas apenas quando o nível de deterioração impedia o reaproveitamento.

Na fachada, a Ford precisou obter mais de 600 toneladas de calcário.

Para manter a aparência original, a equipe localizou no estado de Indiana a mesma pedreira que havia fornecido pedras para a construção da estação mais de um século antes.

Um único capitel de pedra, instalado na entrada norte, exigiu 428 horas de trabalho manual para ser reproduzido.

A peça pesa cerca de 5,2 toneladas e foi esculpida a partir de fotografias, fragmentos remanescentes e levantamentos digitais.

Tecnologias de digitalização em três dimensões ajudaram a registrar detalhes que precisavam ser reconstruídos.

Os modelos permitiram comparar formas, dimensões e ornamentos antes da produção de novas peças.

Teto histórico recebeu 29 mil peças e quilômetros de rejunte

Um dos trabalhos mais delicados ocorreu no Grand Hall, espaço conhecido por seu teto abobadado revestido com ladrilhos Guastavino.

A restauração envolveu 29 mil peças, das quais somente cerca de 1.300 precisaram ser substituídas.

Para recuperar o teto do antigo salão de espera e do Grand Hall, as equipes aplicaram o equivalente a 8,7 milhas de rejunte, ou aproximadamente 14 quilômetros.

O número correto é 8,7 milhas, e não 8,6 milhões de milhas, como apareceu em algumas versões da reportagem original.

Além disso, foram recuperados ou reproduzidos milhares de metros quadrados de pisos de mármore, reboco decorativo, terracota, janelas, luminárias e acabamentos.

A modernização exigiu aproximadamente 300 milhas, cerca de 482 quilômetros, de cabos elétricos e de comunicação.

Outros nove quilômetros de tubulações foram instalados para atender às novas funções do prédio.

O trabalho também preservou parte das marcas deixadas durante o abandono.

Especialistas analisaram pichações e intervenções artísticas acumuladas nas paredes, selecionando alguns trechos para permanecerem visíveis como registro de uma fase da história do edifício.

Assista o vídeo

Google e funcionários da Ford ocuparam os primeiros escritórios

A reabertura pública começou com um evento realizado em 06 de junho de 2024, seguido por dias de visitação ao térreo restaurado.

Durante os primeiros meses, mais de 100 mil pessoas passaram pela estação.

O programa educacional Google Code Next tornou-se o primeiro ocupante de escritórios da torre em julho daquele ano.

A iniciativa oferece formação em ciência da computação para estudantes negros, latinos e indígenas do ensino médio.

Funcionários da Ford começaram a se transferir para o prédio em outubro de 2024.

As equipes instaladas na estação incluem profissionais ligados a veículos elétricos, serviços integrados e projetos que exigem colaboração com empresas, universidades e startups.

Bill Ford, presidente executivo da montadora e bisneto de Henry Ford, afirmou que esperava transformar o projeto em um catalisador capaz de levar Detroit e a indústria automobilística para o futuro.

Distrito tecnológico vai além dos carros do futuro

Embora a história da Ford esteja diretamente ligada aos automóveis, o distrito Michigan Central possui um campo de atuação mais amplo.

Empresas desenvolvem projetos de transporte aéreo, baterias, carregamento elétrico, logística, robótica, fabricação avançada e circulação urbana.

O campus oferece laboratórios, oficinas de prototipagem, áreas de testes e uma via pública preparada para carregamento sem fio de veículos elétricos.

O objetivo é permitir que produtos sejam criados, experimentados e ajustados em condições próximas às encontradas nas cidades.

O edifício Newlab, instalado em um antigo depósito de livros próximo à estação, abriga startups que trabalham em parceria com empresas maiores, órgãos públicos e instituições acadêmicas.

Em fevereiro de 2026, o distrito informava reunir mais de 2 mil profissionais, 240 empresas e mais de 150 startups.

A rede também incluía universidades, fundos de investimento, organizações comunitárias e parceiros como Google, Ford, Newlab e o governo de Michigan.

Na própria estação, o Michigan Central Mezz abriu em abril de 2026 com cerca de 1.580 metros quadrados de escritórios compartilhados, salas de reunião e áreas de colaboração.

O espaço permite que novas equipes trabalhem dentro do edifício sem precisar ocupar um andar inteiro.

Hotel e novo terminal ferroviário fazem parte dos planos

A torre ainda passa por novas etapas de ocupação.

Um hotel da marca NoMad, vinculada à Hilton, deverá ocupar os cinco andares superiores e receber quase 180 quartos, incluindo 30 suítes.

A abertura está prevista para 2027.

Segundo o projeto, será a primeira vez na história da estação que os pavimentos 14 a 18 serão efetivamente ocupados.

Enquanto isso, o governo de Michigan, a prefeitura de Detroit e a Michigan Central iniciaram estudos para construir um novo terminal multimodal em um terreno próximo ao prédio histórico.

O acordo anunciado em outubro de 2025 separou US$ 40 milhões para avaliações preliminares e trabalhos de engenharia.

A proposta inclui uma estação de trens de passageiros e ônibus intermunicipais, mas o desenho final, o orçamento completo e o cronograma ainda não foram definidos.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

Sair da versão mobile