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Diagnosticada com esclerose múltipla depois de abandonar o vestibular de Medicina com a mão formigando e a visão embaçada, Carolina ouviu que não conseguiria se formar, enfrentou a doença, conquistou o diploma e hoje usa a própria experiência para reconhecer sinais e ajudar outros pacientes

Diagnosticada com esclerose múltipla depois de abandonar o vestibular de Medicina com a mão formigando e a visão embaçada, Carolina ouviu que não conseguiria se formar, enfrentou a doença, conquistou o diploma e hoje usa a própria experiência para reconhecer sinais e ajudar outros pacientes

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Diagnosticada com esclerose múltipla depois de abandonar o vestibular de Medicina com a mão formigando e a visão embaçada, Carolina ouviu que não conseguiria se formar, enfrentou a doença, conquistou o diploma e hoje usa a própria experiência para reconhecer sinais e ajudar outros pacientes

Escrito por Felipe Alves da Silva

Publicado em 19/08/2026 às 23:45

Atualizado em 19/08/2026 às 23:46

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Médica que convive com esclerose múltipla transforma a própria experiência como paciente em um olhar mais atento durante os atendimentos.

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A primeira crise apareceu justamente quando Carolina Miranda Aranha tentava entrar em Medicina; dez anos depois, a experiência de estar dos dois lados do atendimento mudou a forma como ela recebe pacientes em Santos

Carolina Miranda Aranha estava fazendo uma prova que poderia decidir seu futuro quando o próprio corpo a obrigou a parar. Era novembro de 2015, durante o vestibular de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Um forte formigamento na mão e a visão embaçada fizeram a jovem abandonar o exame e procurar atendimento.

O que parecia um problema surgido no pior momento possível acabaria mudando não apenas a trajetória de Carolina até o diploma, mas também a médica que ela se tornaria.

Depois de acompanhamento com neurologista e uma sequência de exames, veio a confirmação no início de 2016: esclerose múltipla.

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Carolina ainda teria pela frente vestibular, faculdade, tratamento e uma frase que ouviu mais de uma vez: ela não conseguiria se formar em Medicina.

Conseguiu.

Hoje, atuando como médica generalista em Santos, no litoral de São Paulo, ela carrega para dentro do consultório uma experiência incomum. Carolina não conhece a esclerose múltipla apenas pelos livros. Conhece também a espera por exames, a incerteza diante dos sintomas, o tratamento e a rotina de quem precisa conviver com a doença.

Foto: Arquivo Pessoal e Gabriel Cardim

O vestibular interrompido foi o começo de uma investigação que mudaria sua vida

Carolina queria cursar Medicina desde a adolescência, inspirada pelo tio. O plano já estava traçado quando os primeiros sintomas apareceram durante o vestibular da Unicamp.

Após deixar a prova, iniciou uma investigação médica. Até então, apesar do interesse pela área da saúde, ela sabia pouco sobre esclerose múltipla.

A confirmação trouxe mais perguntas do que respostas naquele primeiro momento.

Ao g1, Carolina descreveu a reação como uma grande incógnita sobre o que aconteceria com sua vida. O conhecimento sobre a doença e sobre aquilo que seria possível fazer apesar dela veio gradualmente.

A esclerose múltipla é uma doença neurológica, crônica e autoimune que atinge o sistema nervoso central. Segundo a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem), células de defesa do organismo atacam estruturas do sistema nervoso, podendo provocar lesões no cérebro e na medula.

A condição costuma atingir principalmente adultos jovens, frequentemente entre 20 e 40 anos, e apresenta maior incidência entre mulheres.

Para Carolina, porém, receber o diagnóstico não foi o único obstáculo. O desafio seguinte seria convencer outras pessoas — e, em alguma medida, provar a si mesma — de que o projeto profissional continuava possível.

“Muita gente me desencorajou”: o diagnóstico passou a ser usado como argumento contra o sonho de Medicina

Já em tratamento, Carolina continuou tentando uma vaga.

Foi quando começou a ouvir que talvez devesse abandonar o plano.

Segundo contou ao g1, diretores de cursinho pré-vestibular e outras pessoas chegaram a dizer que ela não conseguiria terminar Medicina. A preocupação estava relacionada às exigências da graduação e à dificuldade de conciliá-las com a esclerose múltipla.

Ela decidiu continuar.

O apoio dos pais, do tio, do neurologista e posteriormente da direção da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) tornou-se parte importante desse percurso.

Carolina foi aprovada em Medicina em Santos. A mudança para a Baixada Santista ainda trouxe outro desafio: o calor.

Temperaturas elevadas podem provocar piora temporária de determinados sintomas em algumas pessoas com esclerose múltipla. Carolina contou que chegou a receber a recomendação médica de procurar cidades mais frias, mas escolheu estudar em Santos.

Adaptou a rotina.

Atualmente, organiza os horários para evitar os períodos de calor mais intenso e segue trabalhando na própria cidade onde realizou a graduação.

Tratamento passou a dividir espaço com faculdade, exercícios e rotina profissional

Foto: Arquivo Pessoal

A esclerose múltipla não tem cura, mas existem tratamentos destinados a controlar a atividade da doença e reduzir seus impactos.

No caso de Carolina, a rotina relatada inclui suplementação de vitamina D, prática de exercícios físicos e infusão hospitalar de medicamento imunobiológico.

A disciplina necessária para administrar tratamento e formação médica acabou produzindo algo que dificilmente poderia ser aprendido apenas em uma sala de aula: a experiência prolongada de ocupar o lugar do paciente.

Depois de formada, essa vivência passou a interferir diretamente na maneira como Carolina trabalha.

“Até porque eu sou uma grande paciente”, resumiu ao g1 ao explicar como acredita que a doença aumentou sua empatia e humanização no atendimento.

A frase ajuda a entender a particularidade de sua história. Carolina não deixou de ser paciente quando vestiu o jaleco. Passou a ocupar os dois lugares.

Do outro lado do atendimento, os sintomas que ela própria sentiu passaram a chamar sua atenção

Como médica generalista, Carolina trabalha em pronto-socorro e recebe pacientes com diferentes queixas.

É nesse ambiente que a experiência pessoal com a esclerose múltipla ganhou uma consequência concreta.

Ela afirma já ter identificado pacientes com sinais que mereciam investigação neurológica e feito encaminhamentos para especialistas. Segundo seu relato, alguns desses pacientes posteriormente receberam diagnóstico de esclerose múltipla.

A familiaridade não substitui exames nem a avaliação especializada, mas pode influenciar aquilo que chama a atenção durante um atendimento.

Carolina explica que determinados sinais podem se confundir com manifestações de outras condições. Ter experimentado sintomas e acompanhado a própria doença durante anos, segundo ela, facilita compreender aquilo que alguns pacientes tentam descrever.

É justamente aí que sua história deixa de ser apenas uma trajetória de superação pessoal. O diagnóstico recebido quando ainda tentava entrar na faculdade passou, anos depois, a influenciar a maneira como ela observa pessoas que chegam ao pronto-socorro sem saber exatamente o que está acontecendo com o próprio corpo.

Uma situação semelhante àquela que ela viveu em 2015.

Uma paciente diagnosticada ajudou a transformar a experiência pessoal em conscientização

A decisão de tornar pública a própria história também nasceu dentro do atendimento.

Carolina contou que uma das pacientes diagnosticadas foi quem a incentivou a falar sobre sua experiência. Para a médica, aquele momento representou uma “virada de página”: ela poderia contribuir simultaneamente como profissional e como pessoa que convive com a doença.

A iniciativa ganha significado especial durante o Agosto Laranja, período dedicado à conscientização sobre a esclerose múltipla.

Um dos pontos defendidos por Carolina é a importância de investigar sintomas e buscar atendimento, porque o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem ter impacto no prognóstico e na qualidade de vida.

Ela também procura combater a ideia de que receber o diagnóstico significa necessariamente abandonar planos profissionais ou pessoais.

Carolina é hoje uma demonstração prática da mensagem que transmite aos pacientes. A jovem que precisou deixar uma prova de Medicina por causa de sintomas que ainda não compreendia atravessou o diagnóstico, ouviu previsões de que não terminaria a faculdade e chegou justamente ao lugar que buscava naquela manhã de vestibular.

Agora, quando encontra alguém assustado diante de sintomas ou de um diagnóstico de esclerose múltipla, ela pode falar como médica.

Mas também sabe exatamente como é estar sentado do outro lado.

Fonte: reportagem do g1, com relato de Carolina Miranda Aranha e informações da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem).


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

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