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Dois amigos tentaram consertar uma geladeira importada quebrada numa oficina de Brusque e acabaram criando o primeiro refrigerador brasileiro, que em 1950 virou a Consul num galpão de 680 m² em Joinville
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 05/08/2026 às 15:07
Atualizado em 05/08/2026 às 15:17
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A oficina ficava na Rua Tiradentes e fabricava anzóis, fios elétricos e peças de bicicleta. Guilherme Holderegger e Rudolfo Stutzer desmontaram o aparelho peça por peça para entender como funcionava. Entre 1947 e 1950, produziram 31 refrigeradores a querosene antes de virarem fábrica.
Naquela época, geladeira no Brasil era artigo de casa de rico e só existia importada. Foi uma delas, movida a querosene e quebrada, que chegou à pequena oficina de Guilherme Holderegger e Rudolfo Stutzer, na Rua Tiradentes, em Brusque, em Santa Catarina. Os dois desmontaram tudo, estudaram cada peça e decidiram fabricar o primeiro refrigerador brasileiro.
Da oficina de anzóis saiu o protótipo. Entre 1947 e 1950, a dupla produziu 31 aparelhos movidos a querosene naquele galpão de Brusque. Só depois disso, em 15 de julho de 1950, a operação virou fábrica em Joinville, com o nome Consul, conforme registros históricos sobre a marca e reportagem publicada pelo ND Mais.
O que eles faziam antes da geladeira
A oficina não tinha nada de sofisticado. Holderegger e Stutzer fabricavam anzóis, fios elétricos e peças para bicicleta, além de consertar praticamente qualquer coisa que aparecesse pela porta.
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O contexto explica a atividade. O Brasil do pós-guerra sofria com escassez de produtos manufaturados, e oficinas assim preenchiam o vazio deixado pela falta de importação. Foi nesse ambiente que a geladeira quebrada chegou como desafio técnico, e não como oportunidade de negócio planejada.
De onde vem o nome Consul
A marca homenageia quem bancou a operação. Carlos Renaux era um empresário do ramo têxtil de Brusque e havia recebido o título de cônsul honorário do Brasil em Arnhem, na Holanda, o que lhe rendeu o apelido de cônsul na cidade.
Stutzer era motorista e amigo dele, e recorreu a Renaux quando precisou de dinheiro para o próprio negócio. Com o financiamento garantido, o primeiro refrigerador foi batizado de Consul, escrito sem acento, em homenagem ao benfeitor. Quando a oficina virou fábrica, o nome permaneceu e originou a Indústria de Refrigeração Consul.
Quantas pessoas fundaram a empresa
Aqui vale corrigir a versão simplificada que costuma circular. Foram dois os amigos que consertaram a geladeira e construíram o primeiro aparelho, mas a empresa nasceu de uma sociedade com três nomes.
O terceiro é Wittich Freitag, comerciante bem-sucedido de Joinville, que convenceu Holderegger e Stutzer a transformar a produção artesanal em indústria. A reportagem do ND Mais sobre os 65 anos da marca cita os três como os responsáveis pelo primeiro refrigerador que deu origem à empresa, enquanto o verbete da Wikipédia em português menciona apenas os dois primeiros como fundadores. Somando o financiador, são quatro os personagens dessa história.
O galpão de 680 metros quadrados
A fábrica entrou em operação em 15 de julho de 1950, em Joinville, no norte catarinense, num galpão de 680 metros quadrados. É a data considerada como marco de fundação da empresa.
A produção do primeiro ano foi modesta e cabe em uma frase: 22 refrigeradores. Em seis anos, o volume anual já passava de 3 mil unidades. Em 1959, a fábrica registrou produção recorde de mais de 14.600 aparelhos e fez a primeira venda para o exterior, com destino ao Paraguai.
Da vela ao motor elétrico
Os primeiros modelos não tinham nada a ver com o que existe hoje. O refrigerador inicial da marca foi o Consul Q-300, que funcionava por absorção e usava querosene como combustível, tecnologia adequada a um país onde a rede elétrica ainda não alcançava boa parte das casas.
A mudança veio em 1958, quando os aparelhos passaram a ser elétricos. A década seguinte trouxe salto de escala, com produção anual de 30 mil unidades, e também os produtos que marcariam a marca: o Consul Júnior, precursor do frigobar, e a linha Capacidade Total, com paredes comprimidas para ganhar espaço interno. Em 1969 veio o Supercongelador, primeiro freezer doméstico da empresa, e em 1971 o primeiro condicionador de ar.
Como a empresa mudou de dono
A trajetória societária é longa e nem sempre conhecida. A Consul foi uma das fundadoras da Embraco, fabricante de compressores para refrigeração, e mais tarde se uniu à Brastemp para criar a Multibrás.
A virada definitiva ocorreu em 1997, quando a Whirlpool Corporation adquiriu a Brasmotor, então controladora da marca. Desde então, a Consul integra o grupo americano, que é apontado como um dos maiores fabricantes de eletrodomésticos do mundo. Em 1993, a empresa havia inaugurado a terceira fábrica e lançado o primeiro refrigerador slim.
Os produtos que viraram memória afetiva
Algumas linhas ficaram na lembrança de quem cresceu com elas. Em 2007, a marca lançou o Consul Aquarela, refrigerador com pintura especial que permitia desenhar e deixar recados no corpo do aparelho usando uma caneta específica desenvolvida em parceria com a Faber-Castell.
Depois vieram os modelos duplex com variação de cores e, em 2014, uma linha voltada a cervejeiros. Em 2023, aos 73 anos, a empresa lançou uma linha retrô, resgatando elementos visuais clássicos em frigobares coloridos com recursos atuais.
O que dizia a empresa em 2015
Na comemoração dos 65 anos, em novembro de 2015, a companhia inaugurou em Joinville um espaço dedicado à história da marca, com exposição de produtos antigos restaurados.
O então presidente da Whirlpool América Latina, João Carlos Brega, afirmou na ocasião que, apesar do momento econômico delicado do país, a Consul seguia como marca líder no Brasil e na América Latina, e que os produtos estavam presentes em cerca de 50% dos lares brasileiros. Vale registrar que esses dados correspondem a 2015 e não foram atualizados nas publicações consultadas.
O inventor que não parou nas geladeiras
Um dos fundadores merece um parágrafo próprio pelo que fez depois. Rudolf Stutzer seguiu inventando e criou, entre outras coisas, um espetáculo de águas dançantes com chafarizes e luzes montado sobre um ônibus, que percorreu o país e se apresentou em eventos como a Festa das Flores, em Joinville.
Ele também viajou ao Planalto Central para registrar em fotos e filmes a inauguração de Brasília e organizou excursões turísticas de kombi e ônibus pelo Brasil. Chegou a montar no morro do Boa Vista um protótipo de cascata artificial, inspirado no Caracol, de Canela, no Rio Grande do Sul, e sonhava com um parque temático em Joinville. Não encontrou investidores na cidade e recusou a proposta de levar a ideia para Blumenau.
E você, ainda lembra da geladeira que tinha na casa dos seus avós? Conta aqui nos comentários qual era a marca e o modelo, e diga se você sabia que a primeira geladeira brasileira nasceu numa oficina de anzóis no interior de Santa Catarina.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

