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Dois irmãos alemães desembarcaram em Blumenau com uma única máquina de tricô trazida da Europa, começaram tecendo peça por peça dentro de casa em 1880 e fizeram nascer a Hering, que se tornaria a maior empresa têxtil de vestuário da América Latina e viu a enchente engolir o tear no primeiro ano de produção
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 11/08/2026 às 12:19
Atualizado em 11/08/2026 às 12:26
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Bruno e Hermann Hering vieram da Saxônia, região de tradição em tecelagem, e abriram a Trikotwaren Fabrik Gebrüder Hering em Blumenau. A marca sobreviveu a 145 anos, mas perdeu a independência: foi comprada pelo Grupo Soma em 2021 e hoje integra a Azzas 2154.
Eles não chegaram ao Brasil como industriais. Bruno e Hermann Hering eram tecelões vindos da Saxônia, na Alemanha, de uma linhagem de tecelões e mestres de tecelagem, e enfrentavam dificuldade para prosperar em um país atravessado pela unificação alemã e pela Guerra Franco-Prussiana. Os irmãos decidiram emigrar e se fixaram na colônia de Blumenau, em Santa Catarina.
Foi ali que, em 1880, abriram a Trikotwaren Fabrik Gebrüder Hering, nome que em alemão significa fábrica de artigos de malha dos irmãos Hering. A operação começou dentro do mesmo endereço de uma casa comercial que comprava e revendia produtos coloniais, com uma máquina apenas. Cento e quarenta e cinco anos depois, a marca existe, mas não como empresa independente.
Irmãos vieram de uma família de tecelões da Saxônia
A origem explica a escolha do negócio. A família Hering era originária da região da Saxônia e reunia uma linhagem de tecelões e mestres de tecelagem, ofício transmitido de geração em geração.
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Hermann Hering imigrou em 1878, dois anos antes da fundação da fábrica. Antes de montar a tecelagem, ele trabalhou como escriturário de comerciantes, instalou uma casa comercial e chegou a manter uma fábrica de charutos. A malharia não foi o primeiro negócio dele no Brasil, foi o que deu certo. Os irmãos faziam parte de uma geração mais tardia de imigrantes, justamente a que estabeleceu a indústria manufatureira no Vale do Itajaí a partir da década de 1880.
Blumenau tinha 30 anos quando a fábrica abriu
O contexto da cidade dimensiona o pioneirismo. Em 1880, Blumenau existia havia apenas três décadas, e o Brasil sequer tinha indústria de vestuário estruturada.
O capital que financiou aquela transição veio da própria colônia. Com o esgotamento do modelo de exploração agrícola, os detentores de recursos obtidos na lavoura e no comércio buscaram outra frente e direcionaram dinheiro para a indústria têxtil. Entre 1880 e 1914 nasceu a indústria do Vale do Itajaí, e os irmãos Hering estavam na largada desse ciclo, ao lado de nomes como Carlos Renaux, que imigrou em 1882.
Enchente de 1880 submergiu o tear no primeiro ano
O negócio quase morreu antes de andar. Mal os irmãos haviam começado a produzir, veio a enchente de 1880, uma das cheias históricas do rio Itajaí-Açu.
O prejuízo atingiu os dois ativos que a operação tinha. O estoque de fios foi perdido e o tear ficou submerso. Uma máquina alagada em uma fábrica de uma máquina significa produção zero, e o episódio antecede em mais de um século as enchentes que voltariam a marcar a história econômica de Blumenau. A empresa se recuperou e seguiu operando, mas o registro histórico mostra que o marco fundador de 1880 inclui também a primeira quase falência.
Divergência histórica cerca o número de fundadores
Há um ponto em que as fontes não convergem, e ele merece registro. A maior parte dos documentos, incluindo a Fundação Hermann Hering e o registro da própria empresa, atribui a fundação aos dois irmãos, Bruno e Hermann.
Pesquisa acadêmica citada em periódico do Arquivo Nacional traz outra versão, atribuindo a fundação da primeira indústria têxtil de Blumenau apenas a Hermann Hering, em 1880, com uma pequena malharia que dispunha de um tear. O mesmo trabalho, porém, afirma em outro trecho que foram os irmãos Hermann e Bruno que estabeleceram o empreendimento. A versão consolidada e adotada pela empresa é a dos dois irmãos, e é ela que aparece no nome original da fábrica, que traz a palavra Gebrüder, ou seja, irmãos.
Empresa foi pioneira em artigos de malha no Brasil
O que os irmãos montaram não era apenas mais uma tecelagem. O empreendimento foi pioneiro na produção de artigos de malha no país, segmento que praticamente não existia por aqui naquele momento.
A escolha de produto definiu o resto da trajetória. A fábrica focou em itens populares, de uso cotidiano, e foi essa vocação que atravessou o século seguinte e transformou a marca no que ficou conhecido como o básico do Brasil. O símbolo dos dois peixinhos se tornou uma das identidades visuais mais reconhecidas do varejo brasileiro, e a empresa deu o empurrão que fez de Santa Catarina um polo têxtil e do Vale do Itajaí o principal centro de vestuário do país.
Marca chegou a 805 lojas e receita bilionária
O crescimento levou a Hering muito além de Blumenau. No início dos anos 2000, a empresa atingiu o auge com cerca de 800 lojas e presença em todos os estados brasileiros.
Os números mais recentes disponíveis mostram uma operação que segue grande. O registro de 805 lojas aparece na ficha corporativa, e levantamentos posteriores indicam mais de 740 unidades divididas entre 71 lojas próprias e 671 franquias. A receita bruta chegou a R$ 2,44 bilhões em 2023, alta de 4,9% em relação a 2022. A empresa exporta para mais de 40 países e mantém aproximadamente 750 lojas físicas em atividade, além do comércio eletrônico.
Companhia foi comprada pelo Grupo Soma em 2021
Aqui está a informação que muda a leitura da história. A Hering não é mais uma empresa independente. Em 2021, o Grupo Soma, conglomerado carioca de moda, adquiriu a Companhia Hering.
A operação encerrou o ciclo de mais de 140 anos em que a companhia funcionou sob comando ligado à família fundadora e à sua própria estrutura acionária, quando era listada na bolsa brasileira sob o código HGTX3. Descendentes da família seguem influenciando decisões estratégicas por meio de assentos no conselho, mas sem controle dominante. A marca continua existindo, a empresa não.
Hering integra a Azzas 2154 desde 2024
A cadeia societária ganhou mais um elo três anos depois. Em 2024, o Grupo Soma se combinou com a Arezzo&Co, e dessa fusão nasceu a Azzas 2154, plataforma que reúne dezenas de marcas de moda.
Hoje a Hering opera sob esse guarda-chuva, seguindo as regras de governança do Novo Mercado da bolsa brasileira, com exigência de conselheiros independentes, relatório anual de sustentabilidade e comitês de gestão de risco. A estratégia atual passa por megalojas, colaborações com outras marcas e campanhas que exploram a nostalgia do básico brasileiro, com meta de chegar a 110 megalojas até 2026.
Fundação criada em 1935 preserva a memória em Blumenau
O legado físico da história dos irmãos continua em pé na cidade onde tudo começou. A Fundação Hermann Hering, estabelecida em 1935, mantém ações de educação e de formação de trabalhadores têxteis em Blumenau e região.
Sob a guarda dela estão imóveis históricos preservados e a Vila Operária, conjunto de moradias construído para os funcionários da fábrica, modelo urbano comum na industrialização do Vale do Itajaí. O bairro Bom Retiro, berço da Cia. Hering, e os antigos teares também integram o acervo de memória da empresa.
Título de maior da América Latina segue sendo o da marca
A definição de maior empresa têxtil de vestuário da América Latina aparece no registro corporativo da companhia e continua sendo usada para descrever a operação da Hering. Vale entender o que ela significa hoje.
O grupo que controla a marca, a Azzas 2154, é descrito como o maior conglomerado de marcas de vestuário do Brasil. A Hering, dentro dele, é uma das marcas de maior peso e a de maior tradição, mas já não responde sozinha por uma estrutura corporativa própria. De empresa fundada por dois irmãos com uma máquina, ela virou ativo de uma plataforma de moda listada em bolsa, percurso que resume a industrialização brasileira inteira em uma só trajetória.
Conta nos comentários: você tinha ideia de que a Hering não pertence mais aos donos originais e hoje faz parte de um grupo de moda formado por dezenas de marcas? E na sua opinião, marca que troca de dono depois de mais de um século ainda carrega a mesma história ou vira só um nome comprado?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

