6 min de leitura
Dono da megaloja Havan avalia levar suas lojas para fora do Brasil e o motivo é escancarado, no Paraguai o imposto máximo é 10%, e mais de 33 mil brasileiros pediram residência no país vizinho só neste semestre
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 01/08/2026 às 14:00
Atualizado em 01/08/2026 às 14:10
Construção
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Luciano Hang esteve em Assunção em 2 de julho de 2026 e se reuniu com o presidente Santiago Peña. Depois da viagem, passou a falar publicamente sobre a possibilidade de abrir a primeira unidade da rede fora do Brasil. A carga tributária paraguaia é o argumento central do empresário.
O interesse ficou explícito depois de uma viagem de dois dias. O dono da megaloja Havan, Luciano Hang, se encontrou com o presidente paraguaio Santiago Peña em Assunção em 2 de julho de 2026 e, ao voltar, passou a defender publicamente a possibilidade de instalar a primeira unidade da varejista fora do território brasileiro, conforme reportagem de Sofia Volpi publicada pelo portal Crusoé em 31 de julho de 2026 e cobertura da Gazeta do Povo, do Poder360 e da Revista Oeste no início daquele mês.
O motivo declarado é tributário. O Paraguai opera sob o modelo apelidado de 10-10-10, com alíquota máxima de 10% de imposto de renda para pessoas físicas e jurídicas e mais 10% de imposto sobre valor agregado, equivalente aproximado do ICMS brasileiro. Renda de origem estrangeira não é tributada no país, e o IVA pode cair pela metade ou ser dispensado em situações específicas, como nas compras de turistas.
O que aconteceu na viagem a Assunção
Hang desembarcou acompanhado de diretores e assessores, com agenda que incluiu visitas a empresas e reuniões para avaliar o ambiente de negócios. O encontro com Peña ocorreu na quinta-feira, 2 de julho, e a viagem se encerrou na sexta-feira, 3.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O presidente paraguaio registrou o encontro nas redes sociais e fez questão de lembrar um dado que muita gente desconhece: parte considerável dos lençóis, toalhas e artigos vendidos nas lojas da rede no Brasil já traz o selo de fabricação paraguaia. Segundo Peña, o empresário chegou atraído por comentários de outros empresários da região sobre as oportunidades no país.
A Havan já produz no Paraguai há tempo
Esse é o ponto que muda a leitura da notícia. A rede não está descobrindo o Paraguai agora, ela já opera lá pelo sistema de maquiladoras, fábricas instaladas em território paraguaio com incentivos fiscais voltados à exportação.
A Lei de Maquila cobra apenas 1% de tributo sobre o valor agregado gerado no país, isenta o pagamento de impostos sobre dividendos e dispensa tributos na importação de máquinas. Na prática, sai mais barato importar do país vizinho do que produzir no Brasil, mesmo somando o custo de transporte. O que está em avaliação agora é diferente: não fabricar, mas vender, com loja física aberta ao consumidor paraguaio.
O caso da Lupo que colocou o assunto na roda
O movimento ganhou visibilidade nacional por causa de outra empresa. Em entrevista à Folha de S.Paulo, a presidente executiva da Lupo, Liliana Aufiero, afirmou que a fabricante de meias, fundada em 1921 por um imigrante italiano em Araraquara, não escolheu o Paraguai por vontade própria.
A frase dela foi direta: a Lupo não foi para o Paraguai, o Brasil empurrou a empresa para lá, porque os impostos estão consumindo a operação de forma violenta. A fábrica paraguaia da companhia fica em Ciudad del Este, recebeu R$ 30 milhões em investimento e emprega cerca de 110 pessoas.
Hang endossou a fala da concorrente
O empresário publicou um desabafo nas redes apoiando a declaração da executiva, escrevendo que a fala repercutiu no país inteiro e com razão, porque a empresa não foi para o Paraguai por escolha, e sim por pressão do ambiente brasileiro.
Sobre a própria avaliação, ele afirmou que o Paraguai vive um momento de grande transformação, com impostos baixos, liberdade econômica, contas equilibradas e estímulo ao empreendedorismo. Também reproduziu uma frase que atribuiu a Peña, segundo a qual o país não cobra muitos impostos justamente para que o governo não fique gigante, cabendo o crescimento à iniciativa privada. O empresário classificou a gestão paraguaia como exemplo para toda a América Latina.
Quem já foi antes
A migração tem concentração setorial clara. O têxtil lidera, com Lupo, Döhler e Karsten, três nomes fortes do polo catarinense, além das fabricantes de calçados Dass e Kidy. A JBS anunciou US$ 70 milhões de investimento para voltar a operar no país.
A lógica é a mesma em todos os casos, e ela não depende de posição política: quando a diferença de carga tributária supera o custo logístico adicional, a conta fecha do outro lado da fronteira. O Paraguai construiu um sistema desenhado exatamente para capturar essa decisão, combinando alíquotas baixas com o regime de maquila voltado à exportação.
O fluxo de pessoas também bateu recorde
Não são só empresas. O número de brasileiros que pediram residência no Paraguai chegou a 33.243 apenas no primeiro semestre de 2026, alta de 62% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Esse deslocamento tem história anterior. A região do departamento de Alto Paraná, em cidades como Santa Rita, já abrigava uma colônia brasileira formada a partir dos anos 1970 por agricultores que cruzaram a fronteira em busca de terra mais barata. A partir de 2023, novos grupos passaram a se estabelecer por lá, agora com perfil diferente, atraídos por tributação e custo de vida.
O tamanho da operação brasileira segue crescendo
Sair do país não significa reduzir a presença aqui. A rede está em 23 estados, emprega cerca de 23 mil pessoas e projeta encerrar 2026 com 200 megalojas e faturamento de R$ 22 bilhões, no ano em que completa quatro décadas.
O calendário de inaugurações continua cheio, com abertura marcada em Caldas Novas, em Goiás, para 29 de agosto. A expansão internacional aparece como frente adicional, não como substituição. Depois do Paraguai, o empresário seguiu para o Uruguai e sinalizou interesse também naquele mercado, dizendo em vídeo que um dia talvez tenha uma loja por lá.
O que ainda não existe
Convém separar intenção de decisão. Não há anúncio de investimento, valor, cronograma, endereço definido ou pedido de licenciamento para uma unidade paraguaia. O que existe é interesse manifestado publicamente pelo controlador da empresa depois de uma viagem oficial.
A distância entre as duas coisas costuma ser grande em varejo físico, que exige terreno, obra, licenciamento, cadeia de fornecimento e adaptação ao mercado local. A notícia aqui é o argumento tributário exposto de forma aberta, e não a abertura de uma loja que ainda não tem data.
E você, acha que a carga tributária brasileira está empurrando empresas para fora do país, ou o movimento é mais oportunismo do que necessidade? Conta aqui nos comentários se você conhece alguém que mudou negócio ou residência para o Paraguai e como foi a experiência.
Tags
Havan
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

