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Dos 12 aos 18 anos, ajudante de pedreiro que andava descalço na periferia de São Paulo não tinha dinheiro nem para a passagem até Brasília, teve uma semana para reunir documentos, ganhou bolsa para estudar Medicina em Cuba e voltou como médico para atender no mesmo bairro onde cresceu
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 13/08/2026 às 22:36
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Trajetória marcada por trabalho precoce, limitações financeiras e uma oportunidade inesperada conecta a periferia de São Paulo a uma formação médica no exterior. O caminho reúne documentos providenciados às pressas, uma viagem decisiva, barreiras de idioma e um retorno profissional ao bairro onde tudo começou.
Nelson Fabio Pimenta passou a adolescência trabalhando como ajudante de pedreiro para contribuir com as despesas de uma família de nove irmãos e, enquanto crescia andando descalço pelas ruas de Sapopemba, na periferia de São Paulo, chegou à vida adulta sem condições de pagar faculdade.
Anos depois, surgiu uma oportunidade que exigia reunir documentos em apenas uma semana para disputar uma bolsa de estudos em Cuba, mas o primeiro obstáculo apareceu antes mesmo da seleção: ele precisava chegar a Brasília e não tinha dinheiro sequer para a passagem.
A trajetória foi registrada pela Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, que reconstruiu o caminho de Nelson desde os trabalhos exercidos na juventude até o retorno ao bairro onde cresceu, já formado em Medicina e atuando diretamente junto à comunidade.
Segundo o órgão municipal, ele nasceu em Ribeirão Preto, no interior paulista, foi o quinto filho de uma família com nove irmãos e viveu na periferia da capital, onde trabalhou como ajudante de pedreiro entre os 12 e os 18 anos.
De ajudante de pedreiro ao interesse pela saúde
Sem recursos para custear uma graduação, Nelson encontrou primeiro outros caminhos na educação e nas artes, estudou artes, tornou-se professor de teatro em uma escola infantil e participou de movimentos sociais, além de coordenar grupos de jovens ligados a igrejas católicas da região.
O interesse profissional pela saúde ganhou força quando ele começou a trabalhar como agente comunitário, função que o colocou em contato direto com moradores e serviços de saúde e ajudou a definir a área em que pretendia construir a própria carreira.
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Mesmo já decidido a permanecer na área, Medicina continuava distante de sua realidade financeira, e Nelson contou à Secretaria Municipal da Saúde que chegou a considerar Enfermagem por acreditar que seria uma alternativa mais compatível com o orçamento disponível naquele período.
Na época em que trabalhava como agente comunitário, seu salário era de R$ 403, valor citado pelo próprio profissional na reportagem oficial, e até essa opção exigiria um esforço financeiro que ele não sabia se conseguiria sustentar por todo o curso.
Bolsa para estudar Medicina em Cuba surgiu por indicação
A mudança de direção começou por meio de um padre conhecido de sua atuação em grupos de jovens, que percebeu a afinidade de Nelson com a saúde e o recomendou ao presidente de uma associação responsável por indicar candidatos a bolsas em países latino-americanos.
Foi nesse contexto que apareceu a possibilidade de estudar Medicina em Cuba, acompanhada de uma exigência imediata: Nelson recebeu apenas uma semana para providenciar toda a documentação necessária e levá-la à Embaixada de Cuba, em Brasília, para participar do processo seletivo.
O problema, porém, não se limitava à papelada, porque ele contou à Secretaria Municipal da Saúde que não tinha dinheiro nem para pagar a passagem até a capital federal, e a viagem só se tornou possível com ajuda do presidente da associação.
Mesmo depois de conseguir chegar a Brasília, a candidatura esteve perto de fracassar, já que parte dos documentos precisava passar pelo departamento de assistência consular e Nelson tinha apenas um dia disponível para um procedimento que normalmente exigia dois.
Documentação quase impediu a candidatura
Após telefonemas e tentativas para resolver o impasse dentro do prazo, ele conseguiu o carimbo necessário e entregou a documentação à embaixada, encerrando apenas a primeira etapa de um processo que ainda incluía prova, entrevista e análise documental antes da aprovação.
Quando a bolsa foi confirmada, começou outra corrida contra o tempo, pois, segundo o relato publicado pela Secretaria Municipal da Saúde, transcorreram somente 43 dias entre Nelson tomar conhecimento da oportunidade e embarcar para Cuba para iniciar a formação médica.
A chegada ao país trouxe ainda uma barreira linguística, porque Nelson não conhecia o idioma espanhol e passou a conviver com estudantes de diferentes partes da América Latina, incluindo argentinos, colombianos e venezuelanos, enquanto começava a rotina acadêmica em território cubano.
Com a convivência diária e a necessidade constante de comunicação, o aprendizado da língua avançou durante os estudos, e Nelson passou a cursar Medicina na Escuela Latino Americana de Medicina, em Havana, transformando uma possibilidade antes financeiramente distante em uma profissão concreta.
Retorno ao Brasil exigiu revalidação do diploma
O retorno ao Brasil, contudo, não significou entrada imediata no consultório, porque ele ainda precisava revalidar o diploma obtido no exterior e, enquanto não podia exercer Medicina, começou a trabalhar na área de coordenação do município de Suzano, na Região Metropolitana de São Paulo.
Depois dessa etapa, permaneceu por três anos e meio como gerente de uma Unidade Básica de Saúde situada em uma área carente da região, acumulando experiência na gestão antes de ter a oportunidade de atuar diretamente como médico em uma comunidade semelhante àquela onde cresceu.
Essa possibilidade apareceu por meio do Programa Mais Médicos, no qual Nelson pretendia ingressar já no primeiro ciclo, embora, conforme o relato da Secretaria Municipal da Saúde, tenha entrado apenas no terceiro por causa de atraso na emissão de documentos solicitados pelo Ministério da Saúde.
Quando finalmente pôde escolher onde trabalhar, decidiu voltar para uma região que conhecia desde criança e passou a atuar como clínico geral na Saúde da Família, na Unidade Básica de Saúde Juta II, em Sapopemba, na periferia paulistana onde havia crescido.
Médico voltou para atender em Sapopemba
O retorno produziu reencontros pouco comuns dentro do consultório, porque entre os pacientes atendidos estavam pessoas que haviam estudado com ele na escola pública e moradores que conheciam sua história antes da formação universitária e acompanhavam sua trajetória desde os anos vividos no bairro.
Também voltaram a fazer parte de sua rotina profissional as mesmas ruas pelas quais caminhara descalço na infância, agora percorridas durante o exercício da Medicina em um território onde já havia estudado, participado de atividades comunitárias e trabalhado como agente de saúde.
Conhecer previamente a região influenciava a relação com a comunidade, e Nelson declarou à Secretaria que havia escolhido trabalhar ali justamente porque sabia como era a realidade enfrentada pelos moradores e conseguia compreender de perto as dificuldades presentes naquele território.
O trabalho incluía visitas a pacientes em locais onde, segundo ele, outros profissionais demonstravam receio de entrar, reforçando a ligação entre sua experiência pessoal no bairro e a atuação médica desenvolvida depois de uma trajetória marcada por diferentes funções e deslocamentos.
Do trabalho braçal ao consultório no bairro de origem
Do trabalho braçal entre os 12 e os 18 anos à formação em outro país, o percurso passou por teatro, movimentos comunitários, atuação como agente de saúde, uma semana para reunir documentos e uma viagem a Brasília que ele inicialmente não tinha condições de pagar.
Depois de retornar ao Brasil e cumprir as etapas necessárias para exercer a profissão, Nelson voltou ao ponto geográfico de onde havia partido e passou a atender moradores das mesmas ruas em que cresceu sem condições financeiras de pagar uma faculdade.
Se uma oportunidade como essa exigisse decidir em poucos dias, reunir documentos às pressas e partir para outro país sem sequer ter dinheiro para pagar a primeira viagem, você teria coragem de enfrentar todas essas etapas e tentar mudar a própria trajetória?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

