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Dos 9 aos 15 anos consertava pneus e lavava carros com o pai numa cidade gaúcha, prestou dezenas de concursos ao longo de anos, estudou com 200 quilos de resumos e virou juiz federal empossado em Brasília
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 04/08/2026 às 07:52
Curiosidades
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Rolando Valcir Spanholo tinha 38 anos quando tomou posse. Ele e os quatro irmãos trocavam roupas e sapatos entre si para não chegar à faculdade sempre iguais, e o material de estudo acumulado até a aprovação encheu 34 caixas, depois enviadas para reciclagem.
O juiz federal Rolando Valcir Spanholo, de 38 anos, atribui a disciplina e a motivação o percurso que o levou de borracheiro a magistrado, conforme reportagem publicada pelo g1 DF, assinada por Raquel Morais. Ele é natural de Sananduva, no interior do Rio Grande do Sul, e dedicou os quatro anos anteriores à posse à preparação para concursos.
Nesse período, acumulou 200 quilos de resumos de disciplinas jurídicas, material que ocupou 34 caixas e foi encaminhado para reciclagem depois da aprovação. O resultado do concurso para o Tribunal Regional Federal saiu em novembro de 2014, e ele ficou entre os 60 primeiros classificados.
Seis anos consertando pneu ao lado do pai
O trabalho começou cedo na vida dele e dos irmãos. Entre os 9 e os 15 anos, os cinco consertavam pneus e lavavam carros junto com o pai, em uma cidade do interior gaúcho.
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As condições dessa atividade aparecem em detalhe no relato dele. No inverno, mãos e pés ficavam quase sempre congelados, porque não havia luvas de borracha nem outros equipamentos de proteção que hoje são comuns e obrigatórios.
A alternativa disponível era acender fogo para aquecer, o que criava outro problema. Os choques térmicos eram inevitáveis, e a família convivia com fissuras nas mãos e nos pés, consequência direta da alternância entre o frio e o calor improvisado.
A regra da educação dentro de casa
em que começou a ajudar o pai como borracheiro e lavador
de carros (Foto: Rolando Valcir Spanholo/Arquivo Pessoal)
A dureza da rotina produziu uma reação específica na criação dos filhos. Segundo o relato, a condição levava a família a ser muito severa em relação à educação, na convicção de que só assim todos teriam oportunidades melhores.
Esse esforço coletivo resultou no ingresso dos cinco irmãos em um curso de direito. A instituição, porém, ficava a 250 quilômetros de casa.
O custeio veio do próprio trabalho deles. Para pagar os estudos, os irmãos aprenderam a costurar cortinas e edredons e a fazer bordados. Cinco filhos de borracheiro entrando ao mesmo tempo em uma faculdade a 250 quilômetros de distância, com o curso bancado por costura, é o dado que dimensiona o esforço familiar.
As roupas trocadas entre os irmãos
Um detalhe da rotina universitária dele resume a situação financeira daquele período. Os cinco irmãos trocavam roupas e sapatos entre si, para não aparecer todos os dias vestidos do mesmo jeito na instituição.
Para ele, a graduação em si já representava uma superação. A ideia de se tornar magistrado surgiu tarde, apenas no fim do curso e por influência de um professor. Até então, o objetivo declarado era simplesmente melhorar de vida.
Essa distinção importa para entender a trajetória. O plano de carreira não existia no início; existia a necessidade de sair daquela realidade, e a definição do objetivo veio depois, quando alguém de fora apontou uma possibilidade que ele não enxergava.
As vendas de porta em porta e o almoço debaixo da árvore
Depois de obter a habilitação para dirigir, ele passou a trabalhar também com vendas. A rotina consistia em sair cedo, rodar o dia inteiro e bater de porta em porta pelos municípios da região, oferecendo produtos diretamente nas casas.
O almoço acontecia dentro do carro, na sombra de alguma árvore, por questão de economia. O cardápio eram fatias de pão caseiro com um pedaço de frango empanado frio ou uma torrada, preparados pela mãe, acompanhados de água levada em garrafa plástica.
No fim da tarde, ele voltava para casa a fim de pegar o ônibus até a faculdade. Por causa da distância, muitas vezes não conseguia tomar banho antes das aulas, e as faltas por causa do trabalho chegavam a duas por semana em média.
Exame final em todos os dez semestres
A consequência acadêmica dessa rotina foi direta e ele não a esconde. Ficou de exame em todos os dez semestres do curso, situação que decorre da frequência irregular e do tempo praticamente inexistente para estudo.
O que sustentou a graduação foi a solidariedade dos colegas. Eles conheciam a realidade dele e emprestavam os cadernos para que copiasse ou tirasse cópia das anotações, já que ele confessa ter estudado muito pouco por livros de doutrina, porque não tinha condições.
O horário de estudo dele era outro. Estudava dentro do ônibus, nas viagens de ida e volta, e aos domingos, porque os sábados eram usados para fazer vendas nas cidades mais distantes.
O curso em Porto Alegre e a primeira temporada de concursos
Aos 22 anos, sem familiares ou conhecidos na área, ele prestou seleção para uma escola de preparação e aperfeiçoamento voltada a interessados na magistratura, em Porto Alegre, por insistência de um professor.
A aprovação foi surpresa e criou uma nova rotina de deslocamento. Ele passou a estudar de segunda a sexta a 400 quilômetros de casa, trabalhando em escritórios nos fins de semana.
Terminado o curso e já casado, veio a primeira temporada de concursos. Entre 1999 e 2003, chegou perto da aprovação para promotor, procurador, juiz do trabalho e juiz estadual. A desistência veio por motivo familiar, já que a mulher havia acabado de ter um bebê e o casal decidiu, em conjunto, adiar o objetivo.
A retomada em 2010 e as reprovações
O retorno aconteceu em 2010, agora com foco na área federal. A pausa cobrou seu preço.
Ele relata ter sofrido para refazer a base de conhecimento perdida durante o intervalo e ter levado bastante tempo até voltar a um nível competitivo. Foram muitas reprovações no caminho.
O relato dele sobre esse período tem até um traço de humor. De tanto ficar próximo da nota de corte sem alcançá la, brinca ter se tornado especialista em calcular e antecipar as notas de corte das provas objetivas. Foram dezenas de seleções desde a retomada, informação que o material apresenta sem número exato.
O método construído a partir de quem já tinha passado
Diante das reprovações, ele mudou a abordagem. Passou a estudar a trajetória de pessoas que já haviam sido aprovadas no concurso que pretendia, buscando identificar o que havia em comum entre elas em estratégias e métodos.
A conclusão foi que boa parte dessas práticas não servia para o caso dele. Limitações de tempo, de lugar e de idade impediam frequentar cursos preparatórios ou estudar por doutrina densa, o que o levou a arriscar estratégias próprias, moldadas à realidade que tinha. Algumas funcionaram, outras não.
O que deu certo formou o núcleo do método. Ele passou a fazer resumos das matérias e a grifar as principais leis para recuperar a noção geral das áreas do direito, depois migrou para o estudo por provas anteriores, produziu sinopses de informativos dos tribunais superiores e usou a internet para pesquisa. Esse acervo foi o que resultou nos 200 quilos distribuídos em 34 caixas.
As seis horas de confinamento antes da prova oral
A etapa que ele descreve como mais tensa foi a prova oral. Antes dela, passou quase seis horas trancado em uma sala de confinamento, procedimento que impede o contato com o mundo externo, para depois ser arguido por cinco examinadores sobre todos os ramos do direito.
Para suportar a pressão e o esgotamento emocional ao longo da preparação, ele conta que também assistia a vídeos motivacionais em redes sociais.
O relato dele sobre aquele momento é de retrospecto. Diz que a vida inteira passou pela cabeça em fração de segundos, com lembrança de cada fase, dos pais, dos familiares, das privações e das quedas. Ele afirma ter entrado na sala pronto para lutar por si e por todas as pessoas que o ajudaram a chegar ali.
O que ele diz a quem procura por conselho
(Foto: Tribunal Regional Federal/Divulgação)
Depois da repercussão da história, ele passou a ser procurado diariamente por pessoas que afirmam ter se inspirado nela, e diz ser avesso a divulgar a própria trajetória.
O que chama atenção dele é que os relatos ultrapassam o universo dos concursos públicos e chegam a questões da vida privada de quem procura. A leitura que ele faz é de que as pessoas parecem precisar de uma prova visível de que também podem superar os próprios limites.
A mensagem que ele repete é de que, se um ex-borracheiro e ex-lavador de carros conseguiu, qualquer outra pessoa também pode. Vale registrar que essa é a leitura dele sobre a própria história, e o percurso descrito envolveu também fatores que não dependem de esforço individual, como o apoio dos irmãos, a solidariedade dos colegas de faculdade e a orientação de um professor em dois momentos decisivos.
Um percurso de quase três décadas
O intervalo entre o primeiro pneu consertado e a posse cobre quase trinta anos. Começou aos 9 anos, em uma borracharia familiar sem equipamento de proteção, e terminou em uma sala de arguição com cinco examinadores.
Entre os dois pontos houve graduação com exame final em todos os semestres, dez anos de interrupção por decisão familiar, retomada em 2010, dezenas de reprovações e um método de estudo construído do zero porque os caminhos convencionais não cabiam na realidade dele.
E você, teria fôlego para retomar um objetivo depois de sete anos parado e de dezenas de reprovações? Acha que histórias assim provam que é possível ou mostram o quanto ainda é difícil? Conta nos comentários o objetivo que você adiou e ainda pretende retomar.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

