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Dos 9 aos 15 anos consertava pneus e lavava carros com o pai numa cidade gaúcha, prestou mais de 20 concursos em quatro anos estudando com 200 quilos de resumos e virou juiz federal em Anápolis

Dos 9 aos 15 anos consertava pneus e lavava carros com o pai numa cidade gaúcha, prestou mais de 20 concursos em quatro anos estudando com 200 quilos de resumos e virou juiz federal em Anápolis

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Dos 9 aos 15 anos consertava pneus e lavava carros com o pai numa cidade gaúcha, prestou mais de 20 concursos em quatro anos estudando com 200 quilos de resumos e virou juiz federal em Anápolis

Escrito por Bruno Teles

Publicado em 05/08/2026 às 15:33

Atualizado em 05/08/2026 às 15:38

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Ele começou a consertar pneus aos 9 anos, estudou com 200 quilos de resumos em 34 caixas e prestou mais de 20 concursos até virar juiz federal em Anápolis

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Rolando Valcir Spanholo assumiu a 1ª Vara da Justiça Federal em Anápolis, em Goiás, em 1º de junho de 2015, aos 38 anos. O material de estudo acumulado ao longo de quatro anos ocupava 34 caixas. Depois da aprovação, tudo foi encaminhado para reciclagem.

O material de estudo dele foi pesado. Deu 200 quilos, distribuídos em 34 caixas de papelão. Foi com essa pilha que o advogado gaúcho Rolando Valcir Spanholo, filho de borracheiro e costureira, se preparou para os concursos que o levaram ao cargo de juiz federal substituto na 1ª Vara de Anápolis, em Goiás, conforme reportagem de Bruna Scirea publicada pelo jornal Zero Hora em 1º de junho de 2015 e repercutida pelo Jornal Opção.

A trajetória começou muito antes. Ele começou a trabalhar aos 9 anos na oficina do pai, em Sananduva, município de cerca de 15 mil habitantes no norte do Rio Grande do Sul, a aproximadamente 400 quilômetros de Porto Alegre. Lavava carro, limpava cabine de caminhão e fazia pequenos reparos em pneus.

A casa em que ele cresceu

Ele começou a consertar pneus aos 9 anos, estudou com 200 quilos de resumos em 34 caixas e prestou mais de 20 concursos até virar juiz federal em Anápolis

Spanholo é o terceiro de cinco irmãos. O pai era borracheiro e a mãe, costureira, e foi principalmente por necessidade da família que ele assumiu rotina de adulto ainda criança.

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A dificuldade aparece em um detalhe doméstico que ele conta sem dramatizar: os irmãos trocavam roupas e sapatos entre si para não irem à faculdade vestidos do mesmo jeito todos os dias. Depois da borracharia, ele passou a trabalhar no ramo das confecções ao lado da mãe, e foi com esse trabalho que a família sustentou os estudos dos filhos.

A faculdade a 250 quilômetros de casa

O curso de Direito foi feito na Universidade de Passo Fundo, com recursos de crédito educativo, seguindo o caminho já trilhado pelos irmãos. O problema era a distância: cerca de 250 quilômetros entre a casa e a instituição.

A rotina aos 17 anos era brutal. O dia começava às 7h, percorrendo a região para oferecer cortinas e lençóis de porta em porta. No fim da tarde, ele voltava para casa e pegava o ônibus rumo à faculdade. O retorno acontecia depois de uma da madrugada. Muitas vezes não conseguia nem tomar banho antes das aulas por causa do tempo de deslocamento.

O aluno que ficou de exame dez vezes

O desempenho acadêmico não foi brilhante, e ele nunca escondeu isso. As faltas eram frequentes por causa do trabalho, em média duas por semana, e o resultado apareceu no boletim: ficou de exame nos dez semestres do curso.

Ele conta que só levou a graduação adiante porque os colegas conheciam a realidade dele e emprestavam cadernos para copiar ou tirar cópia das anotações. Admite ter estudado muito pouco por livros de doutrina durante a faculdade, simplesmente porque não tinha como. O horário de estudo dele era outro: o ônibus, durante as viagens de ida e volta, e os domingos, já que os sábados eram reservados para vendas nas cidades mais distantes.

Os quatro graus e meio de miopia

Existe uma marca física dessa rotina que ele atribui diretamente ao método improvisado. São quatro graus e meio de miopia, resultado de anos lendo dentro de ônibus em movimento.

O relato dele sobre o trajeto é preciso: dormia cerca de 15 minutos e depois estudava até chegar à universidade, e fazia o mesmo na volta. Ele mesmo brinca que os óculos que carrega no rosto são consequência direta de estudar dentro do ônibus.

Quinze anos de advocacia antes da virada

A ideia de ser magistrado veio tarde, já no fim da faculdade, por influência de um professor. Até ali, o objetivo declarado era mais simples: melhorar de vida.

Ele chegou a prestar concursos para promotor e para juiz naquele período, sem sucesso, e decidiu advogar. Foram quinze anos exercendo a advocacia em Sananduva. O ponto de virada aconteceu quando uma juíza assumiu na comarca da cidade. Ela havia sido colega dele na Escola Superior de Magistratura e insistiu para que voltasse a perseguir a carreira.

O método dos 200 quilos

Ele começou a consertar pneus aos 9 anos, estudou com 200 quilos de resumos em 34 caixas e prestou mais de 20 concursos até virar juiz federal em Anápolis

Sem condições de frequentar curso preparatório, ele montou o próprio sistema de estudo, e é ele que explica a montanha de papel. Começou fazendo resumos das matérias e grifando as principais leis, para recuperar a noção das grandes áreas do Direito.

Depois passou a estudar com base em provas antigas. Também produziu sinopses de informativos dos tribunais superiores e usou a internet para pesquisa. O resultado somou 200 quilos de material em 34 caixas, acumulados ao longo de quatro anos. Para suportar a pressão e o esgotamento emocional do período, ele conta que assistia a vídeos motivacionais nas redes sociais.

Mais de 20 provas em quatro anos

Entre 2010 e 2014, Spanholo prestou mais de 20 concursos públicos. A rotina de inscrição, deslocamento, prova e resultado se repetiu dezenas de vezes até a aprovação.

O resultado do certame do Tribunal Regional Federal saiu em novembro de 2014. Ele ficou entre os primeiros colocados e se disse surpreso com a própria classificação. Um detalhe do contexto reforça o tamanho do feito: segundo apurou o Zero Hora, entre os aprovados no concurso, apenas dois eram gaúchos, e foi justamente esse dado que o convenceu a dar entrevista, na expectativa de motivar outros conterrâneos.

Onde ele foi parar

Ele começou a consertar pneus aos 9 anos, estudou com 200 quilos de resumos em 34 caixas e prestou mais de 20 concursos até virar juiz federal em Anápolis

Aqui vale corrigir uma confusão que se espalhou na cobertura da época. Diversas publicações noticiaram que ele havia se tornado juiz em Brasília ou no Distrito Federal.

A posse ocorreu no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, sediado em Brasília, seguida de quase um semestre de formação. Mas a lotação efetiva foi outra: em 1º de junho de 2015, ele passou a atuar como juiz federal substituto na 1ª Vara da Justiça Federal em Anápolis, em Goiás. O material de estudo que o levou até ali, aliás, teve destino prosaico depois da aprovação: foi encaminhado para reciclagem.

O que ele disse sobre a própria bagagem

A frase mais forte da entrevista não é sobre concurso nem sobre esforço. É sobre o que ele pretendia levar para dentro do gabinete.

Segundo Spanholo, a pessoa forma a bagagem intelectual mas não muda a própria trajetória, e quem esquece de onde veio pode entrar em uma zona perigosa, que abre brecha para abusos. Ele acrescentou que todos são passíveis de erro, mas que jamais conseguiria olhar um processo sem o raciocínio de quem viveu a dificuldade. E completou dizendo que quem aprendeu a vender de porta em porta sabe tratar bem as pessoas, e que isso fica. As informações desta matéria correspondem a junho de 2015, quando ele tomou posse na vara goiana.

E você, conhece alguém que passou anos tentando um concurso público? Conta aqui nos comentários quanto tempo levou e qual foi o método de estudo, e diga se acha que a origem de um juiz muda a forma como ele decide um processo.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

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