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Dos 9 aos 19 anos, brasiliense vendeu cocadas nas ruas para comprar livros e passagem, acordava às 4h, enfrentava ônibus lotado e levava pão amanhecido com margarina na mochila, entrou na UnB aos 17, continuou trabalhando para pagar os estudos, acumulou cinco graduações e virou servidor da Câmara dos Deputados

Dos 9 aos 19 anos, brasiliense vendeu cocadas nas ruas para comprar livros e passagem, acordava às 4h, enfrentava ônibus lotado e levava pão amanhecido com margarina na mochila, entrou na UnB aos 17, continuou trabalhando para pagar os estudos, acumulou cinco graduações e virou servidor da Câmara dos Deputados

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Dos 9 aos 19 anos, brasiliense vendeu cocadas nas ruas para comprar livros e passagem, acordava às 4h, enfrentava ônibus lotado e levava pão amanhecido com margarina na mochila, entrou na UnB aos 17, continuou trabalhando para pagar os estudos, acumulou cinco graduações e virou servidor da Câmara dos Deputados

Escrito por Geovane Souza

Publicado em 11/08/2026 às 16:45

Atualizado em 11/08/2026 às 16:46

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Ex-vendedor de cocadas que entrou na UnB aos 17 anos acumulou cinco graduações e construiu carreira no serviço público.

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Filho de carpinteiro e dona de casa, Cristian Santos transformou a biblioteca em refúgio quando ainda vendia doces pelas ruas de Brazlândia. A aprovação precoce na Universidade de Brasília abriu uma trajetória que passaria por cinco graduações, mestrado, doutorado, serviço público e livros premiados

Quando tinha 9 anos, Cristian Santos começou a caminhar pelas ruas de Brazlândia, no Distrito Federal, vendendo as cocadas preparadas pela mãe. O dinheiro não era apenas uma ajuda para a família. Parte dele pagava livros, material escolar e as passagens de ônibus necessárias para continuar estudando.

A rotina se prolongou por uma década. Cristian vendeu os doces dos 9 aos 19 anos e atravessou boa parte da infância e da adolescência dividindo o tempo entre escola, trabalho e leitura. Aos 17, conseguiu uma aprovação que mudaria o rumo da história: entrou no curso de Biblioteconomia da Universidade de Brasília, a UnB.

Anos depois, o antigo vendedor ambulante já acumulava cinco graduações pela UnB, mestrado, doutorado e uma carreira no serviço público. Em 2015, quando sua trajetória ganhou repercussão nacional, ele trabalhava como bibliotecário da Câmara dos Deputados.

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De acordo com reportagem publicada pelo UOL em 10 de agosto de 2015, Cristian era formado em Biblioteconomia, Filosofia, Tradução, Teologia e Letras, com habilitação em Língua e Literatura Francesas. Naquele momento, sua dissertação de mestrado já havia recebido reconhecimento internacional e a pesquisa do doutorado havia se transformado em livro.

Antes da universidade, a pobreza aparecia no uniforme, na mochila e até no que havia para comer

Ex-vendedor de cocadas que entrou na UnB aos 17 anos acumulou cinco graduações e construiu carreira no serviço público.

Cristian cresceu em Brazlândia, região administrativa do Distrito Federal. O pai trabalhava como carpinteiro e a mãe cuidava da casa. Foi ela quem passou a preparar as cocadas que o filho vendia no centro da cidade.

A falta de dinheiro aparecia em situações aparentemente simples da vida escolar. Havia dificuldade para comprar material didático, roupas e outros itens exigidos pela escola. Vender doces também expunha sua condição econômica diante dos colegas e, segundo ele relataria anos depois, tornou-se motivo de preconceito.

A leitura funcionou como uma saída possível dentro daquela realidade. Cristian frequentava uma biblioteca comunitária e passava tempo consultando livros e enciclopédias como Barsa e Larousse, além de observar cada detalhe daquele espaço, do mobiliário ao pequeno jardim de inverno.

Outro relato de sua infância mostra até onde chegava a dificuldade financeira. Conforme reproduziu o Conselho Regional de Biblioteconomia da 6ª Região, a família chegou a substituir o gás por lenha e Cristian enfrentou episódios de constrangimento por causa de roupas e uniforme escolar. A mesma publicação registra que sua mãe começou a produzir as cocadas quando ele completou 9 anos e que parte do dinheiro servia para comprar alimentos e passe escolar.

No ensino médio, o dia começava às 4h e o almoço só chegava por volta das 15h

A situação ficou ainda mais dura quando Cristian passou a estudar no tradicional Centro de Ensino Médio Elefante Branco, na Asa Sul, distante de sua casa. Para chegar à escola, precisava começar o dia quando boa parte da cidade ainda dormia.

Ele acordava às 4h, preparava o café e ajudava na limpeza da casa. O trabalho doméstico tinha uma razão adicional: sua mãe enfrentava diabetes e hipertensão. Por volta das 5h10, Cristian embarcava no ônibus que o levava em direção à escola.

Na mochila, além do material, carregava uma refeição simples. Era um pão francês do dia anterior com margarina, que costumava comer por volta das 7h, sentado diante da biblioteca da escola. Segundo seu relato, aquele pão muitas vezes precisava sustentá-lo até o almoço, que acontecia apenas por volta das 15h.

As horas dentro do transporte também eram aproveitadas. Cristian lia literatura brasileira durante o percurso e passava parte das tardes na Biblioteca Érico Veríssimo. Aos poucos, o lugar que inicialmente oferecia abrigo da pobreza passou a apontar uma possibilidade profissional.

Uma palestra apresentou a Biblioteconomia e, aos 17 anos, veio a aprovação na UnB

A escolha pela Biblioteconomia surgiu depois de uma palestra assistida durante o ensino médio. Cristian percebeu que a formação reunia assuntos que já faziam parte de seus interesses, como livros, línguas, literatura, filosofia, arte e organização do conhecimento.

A aprovação na Universidade de Brasília veio aos 17 anos. Entrar em uma universidade pública, porém, não eliminou imediatamente as dificuldades financeiras. Durante os dois primeiros anos do curso, ele continuou vendendo cocadas na vizinhança.

O dinheiro ajudava a pagar as passagens, cópias dos textos utilizados nas disciplinas e refeições no Restaurante Universitário. Na época relatada por Cristian, uma refeição no chamado bandejão custava R$ 0,50.

Concluir Biblioteconomia também não encerrou seus estudos. Vieram outras formações e, posteriormente, o mestrado em Ciência da Informação e o doutorado em Literatura e Práticas Sociais. A trajetória acadêmica passou a se cruzar cada vez mais com os temas que o acompanhavam desde as primeiras bibliotecas da infância.

Cinco graduações foram seguidas por mestrado, doutorado e pesquisas sobre literatura e religião

No mestrado, Cristian pesquisou arquivos eclesiásticos e documentos ligados à formação da memória brasileira. Sua dissertação recebeu premiação no Concurso Latino-Americano Fernando Báez, realizado no campo da informação e da preservação documental.

O doutorado foi concluído em 2010. Na pesquisa, ele examinou a presença de padres, beatas e outras figuras religiosas na literatura anticlerical brasileira. O trabalho posteriormente deu origem ao livro “Devotos e Devassos”, publicado pela Edusp.

A obra analisa como religiosos foram representados por escritores em um período marcado pela expansão de ideias republicanas, anticlericais e de separação entre Igreja e Estado. A pesquisa utilizou, entre outros textos, obras de autores ligados ao naturalismo brasileiro.

Em 2016, cerca de um ano depois da reportagem que tornou sua história mais conhecida, “Devotos e Devassos” conquistou o Prêmio Casa de las Américas na categoria Literatura Brasileira. Segundo o PublishNews, o livro nasceu diretamente da pesquisa desenvolvida por Cristian no doutorado.

A carreira pública levou o antigo vendedor de cocadas à Câmara dos Deputados

A relação de Cristian com o serviço público também passou pelas bibliotecas. Registros oficiais da Câmara dos Deputados mostram Cristian José Oliveira Santos entre os aprovados para a área de Bibliotecário no concurso realizado pela Casa, com nomeação publicada em 25 de junho de 2009. Ele aparece na terceira colocação da listagem correspondente ao cargo.

Na Câmara, passou a atuar com informação, acervos e cultura. Em registros posteriores, também aparece envolvido em discussões públicas sobre bibliotecas e políticas de incentivo à leitura.

Sua carreira ainda avançaria para postos de gestão cultural. Em 2018, por exemplo, a própria Câmara o identificava como bibliotecário da instituição durante uma audiência pública que discutia a universalização das bibliotecas nas escolas brasileiras.

Cristian também realizou pós-doutorado em História. Em entrevista divulgada pela Rádio Câmara em 2021, já aparecia apresentado como pós-doutor em História, doutor em Literatura e tradutor, uma ampliação da trajetória acadêmica iniciada décadas antes nas bibliotecas de Brazlândia.

Décadas depois das cocadas, ele chegou à gestão de cultura e memória de um tribunal superior

A trajetória profissional continuou depois da passagem pelos setores culturais da Câmara e por funções ligadas às políticas públicas do livro. Nos registros mais recentes, seu nome completo aparece como Cristian José Oliveira Santos Brayner, também conhecido profissionalmente como Cristian Brayner.

Atualmente, o Superior Tribunal de Justiça identifica Cristian Brayner como secretário de Cultura e Memória do STJ, responsável por uma área diretamente relacionada à preservação documental, histórica e cultural da instituição. O cargo fecha, pelo menos até aqui, um percurso ligado justamente ao tipo de espaço que marcou sua infância.

A distância entre os dois momentos é grande. De um lado está o menino que saía com cocadas feitas pela mãe para conseguir dinheiro para livros, comida e transporte. Do outro, o pesquisador, escritor e servidor público que construiu a carreira trabalhando com bibliotecas, documentos, literatura e memória.

E você, já conhecia a história de Cristian Santos e imaginava que o menino que vendia cocadas para conseguir estudar chegaria a cinco graduações, ao doutorado e a uma carreira ligada às maiores instituições públicas do país? Deixe nos comentários o que mais chamou sua atenção nessa trajetória e compartilhe sua opinião sobre o papel da educação e das bibliotecas em histórias como essa.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

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