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Duas torres no deserto ganharam uma pele viva de mais de 2 mil guarda-sóis que abrem e fecham sozinhos seguindo o sol, dispensando cortinas e vidro escuro e derrubando o calor solar que entra no prédio em mais de 50%
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 06/08/2026 às 07:15
Atualizado em 06/08/2026 às 07:16
Construção
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As Torres Al Bahar ficam em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, têm cerca de 145 metros de altura e 29 andares. Os painéis são feitos de fibra de vidro revestida com PTFE e ficam montados a dois metros de distância da fachada principal.
Duas torres cilíndricas idênticas em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, receberam uma segunda pele formada por aproximadamente 2.098 elementos de sombreamento em forma de guarda-chuva, que se abrem e fecham conforme a posição do sol, conforme estudo de caso publicado pelo site Parametric Architecture. O projeto é do escritório Aedas Architects.
O efeito principal desse sistema é térmico. A fachada dinâmica reduz em mais de 50% o ganho solar do edifício, o que diminui a necessidade de refrigeração e permite manter vidros bastante transparentes atrás dos painéis, deixando a luz natural entrar sem o calor que normalmente vem junto.
Uma treliça de madeira que virou máquina
A referência que originou o desenho é bem mais antiga que qualquer tecnologia envolvida no projeto. Trata-se do mashrabiya, treliça de madeira historicamente usada na arquitetura árabe para proporcionar sombra, privacidade e ventilação natural.
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O escritório partiu dos padrões geométricos e dos detalhes desse elemento para transformar toda a fachada em uma pele responsiva, em vez de aplicar a referência apenas como ornamento.
A tradução do conceito começou com um recurso simples. Um modelo de origami foi usado para entender como a unidade triangular do painel funcionaria, teste manual que antecedeu toda a modelagem digital que viria depois.
A planta que nasceu de três círculos
A forma do edifício também segue geometria de origem regional. O plano das torres foi baseado em seis arcos tangentes, derivados da interseção de três círculos.
O formato afunila levemente em direção à base, o que realça o perfil esguio do conjunto. Entre os dois volumes existe um pódio compartilhado, projetado para interação com a comunidade, espaços de transição e estacionamento subterrâneo.
A escolha do cilindro não é apenas estética. A planta circular reduz a superfície exposta ao sol em relação a um volume retangular de mesma área, o que ajuda a limitar o ganho de calor antes mesmo de qualquer sistema de sombreamento entrar em ação.
Como funcionam os painéis que seguem o sol
Cada unidade é feita de fibra de vidro revestida com PTFE e montada sobre uma estrutura de aço. As peças são programadas para se mover em tempo real, acompanhando a trajetória do sol ao longo do dia.
A lógica de operação é direta. Quando o sol se intensifica sobre determinado lado do edifício, as unidades correspondentes se fecham e bloqueiam a radiação. Quando ele se afasta, os painéis se abrem e liberam a entrada de luz natural.
O conjunto forma uma camada independente. A estrutura de sombreamento fica posicionada a dois metros de distância do edifício principal, arranjo de dupla pele que cria um espaço ventilado entre o painel e o vidro, onde o calor absorvido se dissipa antes de chegar ao interior.
Por que isso substitui cortina e vidro escuro
A solução resolve um dilema conhecido de quem projeta em clima quente. Vidro escuro ou refletivo barra o calor, mas escurece o ambiente e obriga a acender luz artificial durante o dia. Cortina interna barra a luz, mas não impede o calor de atravessar o vidro antes.
O sombreamento externo ataca o problema no ponto certo, interceptando a radiação antes que ela entre. Isso permite especificar vidro de alta transparência sem penalidade térmica.
O resultado combina duas coisas que costumam ser excludentes. A luz natural inunda os espaços internos de escritório enquanto o brilho excessivo é controlado, condição associada no projeto à melhora de produtividade dos ocupantes.
O software que desenhou cada peça
A complexidade do sistema exigiu ferramentas de projeto que vão além do desenho convencional. A equipe usou modelagem paramétrica e algorítmica para definir a geometria dos painéis e o comportamento do conjunto.
Softwares avançados foram empregados para analisar orientação do edifício, padrões de movimento e desempenho construtivo, com uso extensivo de modelagem da informação da construção e de programas de modelagem tridimensional e de superfícies complexas.
A fabricação seguiu a mesma lógica de precisão. Os componentes da fachada foram pré-fabricados e testados quanto à precisão de movimento antes da instalação, procedimento que buscava garantir funcionamento confiável sob as condições climáticas severas da região.
Quem ocupa e quanto mede
O conjunto serve como sede do Conselho de Investimentos de Abu Dhabi e do Banco Al Hilal. São 29 andares e aproximadamente 145 metros de altura em cada volume.
O projeto foi desenvolvido pela Aedas Architects em colaboração com a empresa de engenharia Arup e com a parceira local Diar Consult, com execução da construtora Al-Futtaim Carillion. A proposta era criar espaço de trabalho flexível e compartilhado.
Os números de área divergem entre os registros do próprio material. A ocupação conjunta é apontada em 70 mil metros quadrados em um trecho e a área do projeto em 52 mil metros quadrados na ficha técnica, diferença que provavelmente separa área total do terreno e área construída.
A certificação e o prêmio
O edifício alcançou certificação ambiental de nível prata, marca descrita como rara entre construções comerciais de grande altura na região do Golfo.
O reconhecimento decorre de um conjunto de medidas que vai além da fachada, incluindo redução de consumo de energia, aproveitamento de iluminação natural, conservação de água, uso de materiais locais adaptados ao clima desértico, sistema avançado de gestão predial e paisagismo desenhado para minimizar consumo hídrico.
Em 2012, o projeto recebeu ainda um prêmio de inovação em edifícios altos, concedido por um conselho internacional dedicado ao tema. O reconhecimento veio pela combinação entre referência cultural, resposta ao clima e engenharia, e não apenas pelo efeito visual da fachada.
Uma referência para quem constrói em clima extremo
O que torna o caso relevante para quem projeta em regiões quentes é a ordem das decisões. Primeiro veio a leitura do clima e da tradição construtiva local, depois a forma do edifício e só então a tecnologia de controle.
A fachada responde às exigências ambientais em tempo real, mas o princípio que a orienta tem séculos de uso na região: interceptar o sol antes que ele atinja a abertura, em vez de tentar corrigir o problema depois.
É essa inversão que o projeto propõe como método. A tecnologia foi usada para executar uma ideia antiga em escala e velocidade impossíveis à mão, e não para substituir a lógica que já funcionava.
E você, moraria ou trabalharia em um prédio cuja fachada se mexe sozinha o dia inteiro? Acha que soluções assim fazem sentido no clima brasileiro ou o custo inviabiliza? Conta nos comentários qual edifício mais te impressionou pela forma como lida com o sol.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

