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Ela começou a trabalhar como doméstica aos 11 anos, criou sozinha as três filhas, concluiu o ensino médio pela EJA, tentou o Enem quatro vezes e, aos 61, conquistou o 1º lugar no vestibular 60+ para Ciências Biológicas da Universidade de Brasília

Ela começou a trabalhar como doméstica aos 11 anos, criou sozinha as três filhas, concluiu o ensino médio pela EJA, tentou o Enem quatro vezes e, aos 61, conquistou o 1º lugar no vestibular 60+ para Ciências Biológicas da Universidade de Brasília

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Ela começou a trabalhar como doméstica aos 11 anos, criou sozinha as três filhas, concluiu o ensino médio pela EJA, tentou o Enem quatro vezes e, aos 61, conquistou o 1º lugar no vestibular 60+ para Ciências Biológicas da Universidade de Brasília

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 03/08/2026 às 14:27

Atualizado em 03/08/2026 às 14:28

Curiosidades

Valdina retomou os estudos pela EJA e, após quatro tentativas no Enem, conquistou o 1º lugar em Ciências Biológicas na UnB aos 61 anos.

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Trajetória marcada por trabalho precoce, interrupções escolares, responsabilidades familiares e sucessivas tentativas de ingresso no ensino superior ganhou novo capítulo em uma universidade pública, aproximando experiência profissional, formação acadêmica e uma oportunidade que permaneceu distante por décadas da realidade de milhares de brasileiros.

Aos 61 anos, Valdina Ferreira de Paiva alcançou uma vaga que durante boa parte da vida pareceu distante, depois de começar a trabalhar ainda criança, criar sozinha três filhas, interromper os estudos e enfrentar quatro tentativas sem aprovação pelo Enem.

O resultado veio no vestibular 60+ da Universidade de Brasília, no qual ela conquistou o primeiro lugar entre os aprovados para Ciências Biológicas, transformando uma trajetória de adiamentos em uma nova etapa de formação acadêmica.

Levando para a universidade décadas de contato com plantas, coleções botânicas e materiais usados em pesquisas, Valdina passou a integrar a primeira turma selecionada por uma modalidade de ingresso criada especialmente para candidatos com mais de 60 anos.

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Trabalho doméstico começou aos 11 anos

Segundo o Correio Braziliense, a relação de Valdina com o trabalho começou aos 11 anos, quando atuava como empregada doméstica para sobreviver, experiência que antecedeu uma breve passagem pela costura e o ingresso no Jardim Botânico de Brasília.

Já no herbário da instituição, sua rotina passou a incluir a montagem de materiais botânicos destinados a estudos científicos, atividade que aproximou o curso de Ciências Biológicas de uma experiência profissional construída muito antes da entrada na universidade.

Foi em 1990 que ela ingressou no Jardim Botânico, após ser aprovada em concurso, e passou a atuar em um ambiente voltado à conservação, à organização de coleções e à produção de conhecimento sobre a natureza.

Ao longo dos anos, o contato contínuo com a botânica fortaleceu um interesse que mais tarde seria levado à sala de aula, embora a formação superior permanecesse adiada por responsabilidades familiares, interrupções escolares e dificuldades pessoais.

EJA abriu caminho para a universidade

Valdina retomou os estudos pela EJA e, após quatro tentativas no Enem, conquistou o 1º lugar em Ciências Biológicas na UnB aos 61 anos.

Antes de disputar uma vaga na graduação, Valdina ainda precisava concluir a educação básica, etapa que só se tornou possível pela Educação de Jovens e Adultos, modalidade voltada a quem não terminou os estudos na idade regular.

O ensino médio foi concluído pela EJA em 2017, após sucessivas pausas provocadas por responsabilidades domésticas, pelo cuidado com as filhas e por problemas de saúde que dificultaram a continuidade do percurso escolar ao longo do período.

Entre 2010 e 2011, ela enfrentou um câncer de mama, e o tratamento com radioterapia comprometeu o acompanhamento das aulas, impondo outra interrupção em uma rotina já dividida entre trabalho, família e retomada dos estudos.

Como mãe solo, Valdina nem sempre conseguia conciliar os horários escolares com as necessidades das três filhas, razão pela qual a universidade permaneceu como um projeto adiado enquanto outras responsabilidades ocupavam o centro da vida familiar.

Mesmo assim, o incentivo à educação esteve presente dentro de casa, e as três filhas concluíram a graduação antes da mãe, depois de receberem dela apoio constante para continuar estudando e ampliar as próprias oportunidades profissionais.

Quatro tentativas pelo Enem

Com o ensino médio concluído, Valdina tentou chegar ao ensino superior pelo Enem, mas as quatro participações não resultaram em aprovação, apesar de manterem vivo o projeto de ingressar em uma universidade pública naquele momento.

As provas também evidenciaram a dificuldade de retomar conteúdos escolares depois de tantos anos e competir por uma vaga nos processos tradicionais, especialmente para quem precisava conciliar preparação, trabalho e uma longa distância da sala de aula.

A mudança ocorreu quando surgiu o vestibular 60+ da UnB, processo seletivo voltado exclusivamente a pessoas dessa faixa etária e criado para ampliar o acesso de candidatos com trajetórias escolares interrompidas e experiências profissionais diversas.

Sem criar grandes expectativas, Valdina decidiu participar e encontrou, na sala de prova, concorrentes que já possuíam formação superior, circunstância que aumentou sua insegurança, mas não impediu que completasse todas as etapas do processo de seleção.

Na redação, ela utilizou a própria história para desenvolver o tema sobre terceira idade, oportunidades e desafios cotidianos, conectando a experiência pessoal a uma prova que, inicialmente, também funcionaria como avaliação de seus conhecimentos durante a seleção.

Primeiro lugar em Ciências Biológicas

Ao encontrar o próprio nome na lista de aprovados, Valdina sentiu as pernas tremerem e conferiu o resultado várias vezes, sem imaginar que havia conquistado o primeiro lugar entre as vagas destinadas ao curso de Ciências Biológicas.

A escolha da graduação considerou a compatibilidade de horários, mas também a ligação direta com o trabalho no Jardim Botânico, onde ela prepara materiais para pesquisadores e convive com atividades relacionadas à botânica desde o início da década de 1990.

De um lado, a experiência acumulada no herbário oferece uma base prática para compreender parte dos conteúdos; de outro, as disciplinas universitárias podem ampliar seu entendimento sobre organismos, ecossistemas, procedimentos científicos e pesquisas presentes na rotina profissional.

Universidade deixou de parecer inalcançável

Durante muitos anos, Valdina enxergou a Universidade de Brasília como um espaço distante, associado a um grupo restrito de pessoas, percepção que começou a mudar quando o vestibular 60+ abriu uma porta compatível com sua trajetória.

A aprovação em uma universidade pública não eliminou as dificuldades do caminho, mas fez o acesso deixar de parecer impossível, especialmente após décadas em que trabalho, maternidade, saúde e estudo precisaram disputar o mesmo espaço.

Mesmo depois de conquistar o primeiro lugar, ela não tratou a aprovação como encerramento da jornada, pois reconhece que a graduação exigirá adaptação à rotina acadêmica, leituras, avaliações e contato frequente com novas ferramentas tecnológicas.

Sem pressa para concluir o curso, Valdina considera que a conquista maior estará no diploma, resultado de um processo que deverá respeitar seu ritmo de aprendizagem e transformar experiência profissional em formação acadêmica estruturada ao longo da graduação.

Tecnologia também impõe barreiras

Entre as preocupações relacionadas ao acesso de pessoas idosas ao ensino superior, a dificuldade tecnológica ocupa espaço relevante, sobretudo para candidatos que passaram grande parte da vida sem contato frequente com plataformas digitais e serviços acadêmicos online.

Por essa razão, Valdina defendeu maior divulgação do vestibular 60+ e mais suporte aos participantes em diferentes etapas da seleção, especialmente mulheres que, durante décadas, precisaram dividir o tempo entre trabalho remunerado, cuidados familiares e responsabilidades domésticas.

Dentro de casa, a nova fase também alterou papéis construídos ao longo dos anos, porque a mulher que incentivou as filhas a estudar passou a ocupar a posição de universitária em uma família onde elas já haviam concluído seus cursos.

Ao ingressar na universidade depois dos 60, Valdina transformou a própria trajetória em referência familiar, sem apagar as interrupções que marcaram seu percurso nem tratar a aprovação como resultado de um caminho simples ou contínuo.

Experiência profissional encontra formação acadêmica

Reunidas, as etapas dessa história incluem trabalho doméstico na infância, passagem pela costura, emprego no herbário, maternidade solo, tratamento contra o câncer, conclusão da EJA, quatro tentativas anteriores pelo Enem e responsabilidades domésticas.

Cada uma delas ajuda a explicar por que a graduação começou apenas décadas depois do início da vida profissional, além de mostrar como a oportunidade surgiu quando experiência prática, política de acesso e persistência finalmente se encontraram.

Na universidade, Valdina passou a aproximar dois tipos de conhecimento: a prática adquirida na preparação de materiais botânicos e no convívio com pesquisas ambientais, além da formação teórica oferecida pelo curso de Ciências Biológicas ao longo da graduação.

Ao orientar outras pessoas interessadas em retomar os estudos, ela resumiu a mensagem em uma palavra, foco, expressão que acompanha uma trajetória marcada por interrupções, novas tentativas e a busca de uma oportunidade compatível com sua realidade.

Quantas pessoas que hoje consideram a universidade um sonho distante poderiam encontrar um novo caminho ao conhecer histórias como a de Valdina e programas de acesso pensados para trajetórias escolares interrompidas em diferentes regiões do país?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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