Ícone do site Portal Estado do Acre Notícias

Ela deixou a escola após a 4ª série para trabalhar como doméstica e ajudar a família, voltou aos estudos pela EJA aos 52 anos, formou-se em Direito aos 60 e, aos 64, passou na OAB após insistir até conquistar a profissão que parecia distante

Ela deixou a escola após a 4ª série para trabalhar como doméstica e ajudar a família, voltou aos estudos pela EJA aos 52 anos, formou-se em Direito aos 60 e, aos 64, passou na OAB após insistir até conquistar a profissão que parecia distante

6 min de leitura

Ela deixou a escola após a 4ª série para trabalhar como doméstica e ajudar a família, voltou aos estudos pela EJA aos 52 anos, formou-se em Direito aos 60 e, aos 64, passou na OAB após insistir até conquistar a profissão que parecia distante

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 10/08/2026 às 00:21

Atualizado em 10/08/2026 às 00:22

Curiosidades

Canal

Após décadas longe da escola, Marina voltou pela EJA, formou-se em Direito aos 60 anos e conquistou a aprovação na OAB aos 64 anos.

Seja o primeiro a reagir!

Prefira o CPG no Google

Décadas longe da sala de aula não impediram uma brasileira de reconstruir a própria formação, enfrentar uma graduação exigente e buscar uma nova profissão na maturidade. A trajetória reúne trabalho precoce, responsabilidades familiares, retorno aos estudos e uma sequência de desafios superados ao longo dos anos.

Marina Neves passou décadas longe da sala de aula antes de transformar uma escolarização interrompida ainda na infância em uma trajetória que chegou ao ensino superior e à advocacia.

Depois de abandonar os estudos após a 4ª série para trabalhar como empregada doméstica e ajudar a família, ela retomou a educação básica aos 52 anos, concluiu o ensino médio, cursou Direito durante cinco anos e, aos 64, conseguiu aprovação no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil.

Até chegar à carteira profissional, o percurso foi construído em diferentes etapas.

Além de recuperar conteúdos escolares deixados para trás por aproximadamente quatro décadas, Marina precisou se adaptar ao ritmo da universidade e continuar estudando mesmo após receber o diploma, já que a aprovação no exame profissional ainda era necessária para exercer a advocacia.

Infância difícil afastou Marina Neves da escola

Segundo relato publicado pelo UOL, Marina nasceu no interior de São Paulo e se mudou para Bauru ainda criança.

Quando tinha 7 anos, perdeu o pai, enquanto a mãe trabalhava como doméstica para sustentar a família.

ARTIGO CONTINUA ABAIXO

Veja também

Diante das dificuldades financeiras, ela começou a trabalhar depois de terminar a 4ª série, por volta dos 12 anos, justamente como empregada doméstica na casa de sua professora.

A rotina profissional passou, então, a dividir espaço com outras responsabilidades, entre elas os cuidados com o irmão mais novo.

O afastamento da escola, inicialmente ligado às necessidades daquele período, acabou se prolongando por décadas.

Aos 16 anos, Marina se casou e teve o primeiro filho ainda na adolescência; o segundo nasceu quando ela tinha 22 anos, ampliando as responsabilidades familiares durante uma fase em que o retorno aos estudos continuava distante.

Após décadas longe da escola, Marina voltou pela EJA, formou-se em Direito aos 60 anos e conquistou a aprovação na OAB aos 64 anos.

Enquanto os filhos cresciam, Marina trabalhou na indústria alimentícia, e o marido atuava na indústria têxtil em Bauru.

Mais tarde, com os filhos já adultos e empregados, ela deixou o trabalho fora de casa e passou a dedicar maior parte da rotina às atividades familiares.

Vieram também os cuidados com os netos e, durante vários anos, com o sogro idoso e de saúde debilitada.

Entre compromissos domésticos, familiares e atividades religiosas, a formação interrompida ainda na infância permaneceu adiada até que uma nova possibilidade começou a tomar forma.

Retorno aos estudos pela EJA aconteceu aos 52 anos

Ao perceber que poderia reservar parte do tempo para um projeto próprio, Marina voltou a considerar a escola.

Depois de conversar com o marido e receber apoio para a decisão, começou a procurar informações sobre os caminhos disponíveis para retomar a educação básica.

Foi aos 52 anos que ela procurou a Educação de Jovens e Adultos em Bauru e realizou a matrícula.

Voltar à sala de aula significava reencontrar disciplinas e hábitos de estudo depois de aproximadamente quatro décadas, mas também representava a chance de avançar por etapas educacionais que haviam ficado inacessíveis durante a juventude.

Primeiro veio a conclusão do ensino fundamental em uma escola pública da cidade.

Na sequência, Marina ingressou no ensino médio e terminou essa etapa em aproximadamente um ano e meio, sem encerrar ali os novos planos que começavam a surgir.

Antes mesmo de receber o certificado, a possibilidade de cursar uma faculdade já fazia parte de suas decisões.

O retorno que inicialmente tinha como objetivo completar a educação básica passou, assim, a abrir espaço para um projeto acadêmico muito maior.

Faculdade de Direito abriu uma nova etapa

A escolha pelo Direito ocorreu depois de testes vocacionais e conversas sobre qual graduação seguir.

Marina fez a matrícula e iniciou uma rotina universitária bastante diferente daquela que conhecera na educação básica, agora cercada por colegas de outra geração e por novas exigências acadêmicas.

Embora fosse a estudante mais velha da turma, ela participou das atividades previstas pelo curso e permaneceu na graduação durante os cinco anos de formação.

Nesse período, acumulou também experiências práticas ligadas à futura profissão.

Entre as atividades realizadas estavam estágios na Central de Polícia Judiciária de Bauru e no núcleo de prática da própria instituição de ensino.

Já durante a formação, o Direito Penal despertou seu interesse e acabou influenciando a escolha do trabalho de conclusão de curso, dedicado ao inquérito policial.

Quando terminou a graduação, Marina tinha 60 anos.

O diploma marcou uma mudança profunda em relação à infância, quando a necessidade de trabalhar havia interrompido sua escolarização depois da 4ª série, mas ainda restava uma exigência importante antes do exercício profissional.

Aprovação na OAB veio após novas tentativas

Com a faculdade concluída, a preparação passou a se concentrar no Exame da Ordem.

Na primeira tentativa da etapa inicial, Marina alcançou 39 pontos, apenas um abaixo dos 40 necessários para seguir adiante, resultado que a levou a reorganizar os estudos e tentar novamente.

Sem abandonar o objetivo, fez outra inscrição e continuou a preparação por conta própria, recorrendo a livros, cursos e aulas disponíveis gratuitamente.

Na tentativa seguinte, chegou a 49 pontos e garantiu a classificação para a segunda fase, na qual escolheu Direito Penal.

A aprovação definitiva, porém, ainda exigiria novas provas.

Depois de não conseguir superar a etapa seguinte naquela ocasião, Marina voltou a prestar o exame e continuou estudando mesmo após outras reprovações na segunda fase.

A conquista veio no XXXIII Exame da Ordem, quando, aos 64 anos, ela conseguiu superar a última etapa e ficou apta a receber a carteira profissional.

Desde o retorno à educação básica, haviam se acumulado anos de ensino fundamental e médio, cinco anos de faculdade e sucessivas tentativas até a habilitação para atuar como advogada.

Trajetória também alcançou outra geração da família

A mudança construída por Marina não ficou restrita à própria formação.

Dentro da família, uma de suas netas também se tornou bacharel em Direito, enquanto a nova advogada passou a relacionar sua experiência à possibilidade de incentivar outras mulheres que tiveram projetos educacionais interrompidos.

Após a aprovação profissional, os planos incluíam continuar estudando na área jurídica e buscar uma especialização ligada ao Direito Penal e à proteção das mulheres.

O interesse em seguir aprendendo permanecia conectado à mesma trajetória iniciada quando decidiu voltar à escola depois de décadas afastada.

Separadas por muitos anos, duas fases passaram a fazer parte da mesma história: na infância, o trabalho e as necessidades familiares colocaram os estudos em segundo plano; na vida adulta, a educação recuperou espaço até chegar a uma profissão que exigia graduação e aprovação em um exame específico.

Se Marina conseguiu recomeçar aos 52 anos depois de deixar a escola ainda na 4ª série, quantas trajetórias podem mudar quando alguém encontra uma oportunidade de voltar a estudar?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

Sair da versão mobile