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Ela estudou apenas até a 3ª série, passou décadas entre trabalho e cuidados com a família, voltou à sala de aula depois dos 50 pela EJA, entrou em uma universidade federal pelo Enem e, aos 73 anos, transformou o crochê em um TCC sobre liberdade e conquistou nota máxima

Ela estudou apenas até a 3ª série, passou décadas entre trabalho e cuidados com a família, voltou à sala de aula depois dos 50 pela EJA, entrou em uma universidade federal pelo Enem e, aos 73 anos, transformou o crochê em um TCC sobre liberdade e conquistou nota máxima

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Ela estudou apenas até a 3ª série, passou décadas entre trabalho e cuidados com a família, voltou à sala de aula depois dos 50 pela EJA, entrou em uma universidade federal pelo Enem e, aos 73 anos, transformou o crochê em um TCC sobre liberdade e conquistou nota máxima

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 04/08/2026 às 23:39

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Após voltar aos estudos pela EJA, Maria Clair entrou na FURG e conquistou nota máxima com um TCC sobre crochê e liberdade aos 73 anos.

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Trajetória marcada por interrupções, retorno tardio aos estudos e criação ligada à memória familiar levou uma brasileira à universidade pública, onde o crochê ganhou dimensão artística e acadêmica, revelando uma história de persistência, adaptação tecnológica, liberdade na maturidade e reconhecimento diante da banca.

Maria Clair Alves estudou somente até a terceira série do ensino fundamental, permaneceu décadas afastada da escola e retomou a formação depois dos 50 anos pela Educação de Jovens e Adultos, abrindo caminho para uma conquista acadêmica alcançada aos 73.

Esse retorno levou ao Enem, ao ingresso no curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande e à nota 10 em um trabalho de conclusão que transformou crochê, memórias e borboletas em uma reflexão sobre liberdade na maturidade.

Reconhecida como a pessoa mais velha a apresentar um TCC no bacharelado em Artes Visuais da universidade, Maria Clair reuniu familiares, professores e colegas durante a defesa realizada no Instituto de Letras e Artes Visuais, no Campus Carreiros.

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Crochê transforma memórias em TCC nota 10

Segundo reportagem da GZH, a banca concedeu avaliação máxima ao trabalho “Metamorfose na maturidade: o fio do crochê como poética artística da liberdade”, que relacionou a trajetória da estudante à transformação simbolizada pelas borboletas ao longo do projeto.

Na parte prática, peças produzidas em crochê ocuparam o prédio das Artes e levaram ao ambiente acadêmico uma técnica frequentemente associada ao espaço doméstico, aos saberes femininos e às experiências transmitidas entre diferentes gerações ao longo de décadas.

Mais do que um recurso estético, o crochê permitiu recuperar lembranças, valorizar práticas femininas e discutir mudanças possíveis durante o envelhecimento, enquanto as borboletas representaram a passagem do casulo para a liberdade e a ocupação de novos espaços.

Retorno à EJA depois dos 50 anos

Após voltar aos estudos pela EJA, Maria Clair entrou na FURG e conquistou nota máxima com um TCC sobre crochê e liberdade aos 73 anos.

Antes de chegar à universidade, porém, o percurso educacional havia sido interrompido ainda na infância, quando Maria Clair deixou a escola depois de concluir apenas três séries e passou a priorizar o trabalho, a família e a criação da filha.

Mesmo mantendo o desejo de estudar, as responsabilidades cotidianas afastaram a sala de aula durante grande parte da vida adulta, até que, depois dos 50 anos, ela se matriculou na EJA em uma escola próxima de casa.

Realizadas à noite, as aulas exigiram conciliar deslocamentos, compromissos familiares e conteúdos que não faziam parte de sua rotina havia décadas, mas a estudante permaneceu no processo até concluir as etapas necessárias da educação básica.

Para finalizar o ensino fundamental, Maria Clair realizou avaliações da rede pública estadual e, posteriormente, ingressou em um núcleo de Educação de Jovens e Adultos, no qual eliminou disciplinas de áreas como matemática, química, física, biologia e língua estrangeira.

Enem e Sisu abriram as portas da universidade

Em vez de encerrar a retomada após concluir a educação básica, ela seguiu o incentivo dos familiares e decidiu prestar o Exame Nacional do Ensino Médio, embora naquele período também estivesse concentrada em provas para o serviço público municipal.

O desempenho obtido no Enem permitiu sua participação no processo de seleção para o ensino superior pela primeira vez, transformando uma etapa inicialmente voltada à conclusão escolar em oportunidade concreta de acesso a uma universidade federal.

Como primeira escolha, Maria Clair indicou um curso de Letras com formação em português e espanhol, mas foi Artes Visuais, selecionado como segunda opção, que garantiu sua entrada na Universidade Federal do Rio Grande pelo Sistema de Seleção Unificada.

A aprovação converteu um objetivo mantido por décadas em rotina acadêmica e colocou a estudante diante de conteúdos teóricos, produção artística, atividades de extensão e ferramentas tecnológicas ausentes de sua formação inicial na vida cotidiana.

Graduação exigiu adaptação às ferramentas digitais

Durante a graduação, a adaptação a plataformas digitais e novas formas de trabalho exigiu esforço adicional, enfrentado com o apoio de professores e colegas que ajudaram Maria Clair a acompanhar tarefas, conteúdos e demandas do ambiente universitário.

Embora a diferença de idade não tenha impedido sua participação, a estudante relatou situações de preconceito, incluindo a afirmação de que uma pessoa idosa estaria ocupando uma vaga que poderia pertencer a alguém mais jovem.

Diante desse tipo de comentário, a permanência no curso e a qualidade da produção acadêmica sustentaram sua defesa de que o ensino superior também deve acolher pessoas que retomam os estudos na maturidade em qualquer idade.

Também decisivo ao longo do bacharelado, o acolhimento da coordenação, dos docentes e dos colegas fortaleceu a experiência universitária e passou a integrar o próprio TCC, construído como expressão artística e relato de uma mulher idosa no ensino superior.

Arte têxtil levou experiências pessoais à pesquisa

Após voltar aos estudos pela EJA, Maria Clair entrou na FURG e conquistou nota máxima com um TCC sobre crochê e liberdade aos 73 anos.

Ao unir vida pessoal e produção acadêmica, Maria Clair transformou o crochê aprendido fora da universidade em linguagem artística, incorporou memórias familiares à pesquisa e colocou a maturidade no centro de uma obra sobre mudança, liberdade e pertencimento.

Expostas em um espaço de circulação do campus, as borboletas ampliaram o alcance do projeto para além da banca e mostraram como um conhecimento cotidiano pode receber novas leituras quando inserido em uma formação artística.

Nesse contexto, o trabalho artesanal foi apresentado como expressão cultural, memória coletiva e ferramenta de elaboração da experiência feminina e suas transformações sociais, enquanto a pesquisa discutiu o lugar das pessoas idosas dentro da universidade.

Por meio do simbolismo da metamorfose, a estudante relacionou a presença desse público no ambiente acadêmico às borboletas que deixam o casulo, criando uma imagem capaz de conectar envelhecimento, transformação pessoal e ocupação de novos espaços.

Educação pública acompanhou toda a formação

Ao longo de toda a formação básica, Maria Clair frequentou escolas públicas, realizou o Enem em 2014 e participou do Sisu no ano seguinte, quando foi aprovada em Artes Visuais sem ter dedicado uma preparação exclusiva ao exame.

A notícia da aprovação chegou por intermédio de um sobrinho, que também havia ajudado na inscrição, e o apoio familiar continuou durante a graduação, acompanhado pela assistência da universidade diante das exigências acadêmicas e dos desafios tecnológicos.

Na etapa final do bacharelado, a produção das peças reuniu ancestralidade feminina, envelhecimento, memória, arte têxtil e liberdade, enquanto a transformação das borboletas forneceu a imagem central que organizou o trabalho apresentado à banca ao longo da pesquisa.

Projeto de extensão aproxima universidade e comunidade

Além do TCC, Maria Clair passou a participar de um projeto de extensão que leva o crochê a escolas e instituições da cidade, aproximando universidade e comunidade por meio de uma prática desenvolvida fora do ensino formal.

Sem anunciar planos imediatos de cursar mestrado, ela manifestou o desejo de permanecer próxima da vida acadêmica, continuar aprendendo e compartilhar seus conhecimentos em outros espaços depois da formatura, mantendo ativa a relação construída com a universidade.

Entre as borboletas instaladas no campus, a nota máxima conquistada e as atividades realizadas fora dele, quantos saberes acumulados ao longo de uma vida ainda podem encontrar reconhecimento quando uma universidade abre espaço para novos começos?

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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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