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Ela tinha 14 anos quando policiais bateram à porta e sua mãe passou a ser acusada de homicídio na Bahia, 12 anos depois, aquela adolescente havia se formado em Direito, estudado o processo por anos, sentou-se ao lado da própria mãe como sua advogada e saiu do Tribunal do Júri após os jurados decidirem pela absolvição
Escrito por Ana Alice
Publicado em 15/08/2026 às 05:57
Atualizado em 15/08/2026 às 06:07
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Doze anos depois de ver a mãe ser acusada de homicídio, Camila Pita chegou ao Tribunal do Júri como advogada, participou da defesa e acompanhou uma decisão que encerrou um processo iniciado quando ela ainda era adolescente.
Camila Pita tinha 14 anos quando policiais bateram na porta da casa onde vivia com a mãe, em Valença, no sul da Bahia, na madrugada seguinte à morte de um empresário.
Doze anos depois, ela voltaria a encontrar aquele mesmo caso em um lugar que dificilmente poderia imaginar na adolescência: a bancada de defesa do Tribunal do Júri, já formada em Direito e atuando como advogada da própria mãe.
O julgamento de Rosália Maria Negrão Pita começou na manhã de 24 de setembro de 2024, no Fórum Gonçalo Porto de Souza, e atravessou a madrugada.
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Por volta de 0h50 do dia 25, quatro votos já haviam formado maioria pela absolvição, encerrando a votação antes que fosse necessário contabilizar os outros três jurados.
Rosália respondia pela morte do empresário José Antônio Silva Braga, conhecido como Tony Veículos, ocorrida em 13 de março de 2012.
Ele tinha 35 anos e morreu depois de ser atingido no coração por um disparo de revólver calibre 38.
A arma foi encontrada no banco do passageiro do carro.
O Ministério Público sustentava que Rosália havia cometido homicídio e também a acusava de fraude processual.
A defesa, por outro lado, argumentava que o disparo havia sido feito pelo próprio empresário, de forma acidental ou intencional.
Ao final de mais de 16 horas de julgamento, os jurados absolveram Rosália das acusações.
Para Camila, entretanto, aquela madrugada havia começado muito antes.
Camila tinha 14 anos quando o caso começou
Na noite de 13 de março de 2012, José Antônio morreu em Valença, município do Baixo Sul baiano.
Rosália, que mantinha um relacionamento com ele, tornou-se inicialmente testemunha e depois suspeita durante a investigação.
Camila contou posteriormente à Agência Pública que acordou durante a madrugada com policiais procurando pela mãe.
Naquele momento, tinha apenas 14 anos e ainda não compreendia exatamente o que havia acontecido.
Pouco a pouco, o processo criminal passou a ocupar espaço dentro da rotina da família.
Segundo a versão apresentada pela defesa, Rosália e José Antônio haviam encerrado o relacionamento cerca de duas semanas antes.
Camila afirmou à BBC News Brasil que ele tentava retomar o namoro e que a mãe resistia à reconciliação.
Rosália declarou que, na noite da morte, ouviu o disparo quando estava de costas para o empresário e que, ao perceber o que havia ocorrido, começou a pedir ajuda.
A família de José Antônio não concordava com essa versão e defendia a hipótese de que ele havia sido morto.
Essa divergência acompanharia o processo pelos 12 anos seguintes.
Processo ajudou Camila Pita a escolher o Direito
Quando a morte aconteceu, Camila estava no ensino médio e ainda começava a pensar em uma profissão.
O processo da mãe alterou esse caminho.
“Comecei a estudar muito o processo para entender”, contou Camila ao explicar como surgiu o interesse pelo Direito.
Ela prestou vestibular e ingressou no curso de Direito da Universidade do Estado da Bahia, a Uneb, no campus de Valença.
Na faculdade, aproximou-se especialmente do Direito Penal e do funcionamento do Tribunal do Júri.
O caso familiar permaneceu tão presente que chegou à vida acadêmica. O trabalho de conclusão de curso de Camila tratou justamente do processo envolvendo a mãe.
A jovem também decidiu acumular experiência prática antes que Rosália fosse levada ao plenário.
Quando chegou o momento de defender a mãe, Camila já tinha aproximadamente três anos de atuação profissional e participaria de seu oitavo Tribunal do Júri.
Ou seja, ela não entrou naquele julgamento apenas como filha.
Chegou regularmente inscrita como advogada e com experiência anterior em sessões do júri.
Esse detalhe se tornaria decisivo horas depois.
Ministério Público denunciou Rosália em 2013
A investigação policial durou cerca de um ano.
Em julho de 2013, o Ministério Público da Bahia apresentou denúncia contra Rosália com base no inquérito policial.
A acusação sustentava que havia indícios de autoria e materialidade suficientes para que o caso prosseguisse.
Segundo a tese do Ministério Público, o homicídio teria sido motivado pelo relacionamento conturbado e pelo término entre Rosália e José Antônio.
A acusação também apontava uma suposta tentativa de alteração da cena, razão pela qual havia imputação de fraude processual.
A Justiça recebeu a denúncia e, posteriormente, decidiu que Rosália deveria ser submetida ao Tribunal do Júri.
Em 2020, o Tribunal de Justiça da Bahia negou recurso apresentado pela defesa e manteve a determinação para que o julgamento popular fosse realizado.
Rosália permaneceu em liberdade enquanto aguardava o julgamento.
Foi justamente essa longa espera que permitiu que a filha, adolescente quando o episódio ocorreu, concluísse o ensino médio, ingressasse na universidade, se formasse e acumulasse experiência suficiente para participar da defesa.
Perícias viraram ponto central da acusação e da defesa
Boa parte do debate no processo se concentrou nos vestígios encontrados após o disparo.
A arma havia sido localizada dentro do veículo, no banco do passageiro.
Segundo reportagem da BBC News Brasil, nenhuma das impressões digitais coletadas na arma foi identificada como pertencente a Rosália.
Os exames destinados a procurar resíduos relacionados ao disparo também foram discutidos durante anos.
A Agência Pública relata que o exame residuográfico realizado nas mãos de José Antônio e de Rosália apresentou resultado negativo.
Já a BBC descreveu os resultados como inconclusivos para ambos, razão pela qual a defesa sustentava que o teste não poderia, isoladamente, estabelecer quem havia efetuado o disparo.
Outro ponto de disputa era o que José Antônio conseguiria fazer depois de ser atingido.
A perícia foi interpretada pela acusação como incompatível com alguns trechos da narrativa apresentada por Rosália.
Durante o júri, a defesa apresentou vídeos e documentos médicos para sustentar que uma pessoa atingida no coração poderia manter movimentos por alguns segundos antes de perder os sentidos.
O advogado Fabiano Pimentel também argumentou que o intervalo entre o tiro e a chegada das testemunhas seria curto demais para que Rosália executasse toda a sequência de ações atribuída a ela pela acusação sem deixar outros vestígios.
Nenhum desses elementos, isoladamente, determinou o resultado.
Eles fizeram parte de um conjunto de argumentos apresentado aos jurados, que também ouviram a versão do Ministério Público.
Promotoria pediu que Camila deixasse a bancada da defesa
O julgamento começou às 8h30 de 24 de setembro de 2024 e se prolongou por mais de 16 horas.
Cinco testemunhas da acusação e duas da defesa foram ouvidas durante a sessão.
Em determinado momento, surgiu uma situação que Camila não esperava.
A promotoria pediu que ela fosse retirada da equipe responsável por defender Rosália devido ao vínculo familiar com a ré.
Camila relatou que ficou desesperada com a possibilidade de não poder continuar.
O juiz Diogo Souza Costa, que presidia a sessão, indeferiu o pedido depois de verificar que a jovem estava regularmente inscrita na Ordem dos Advogados e que já havia participado de outros julgamentos.
Ela permaneceu na bancada.
A equipe de defesa seguiu apresentando sua tese ao Conselho de Sentença até a madrugada.
Assista o vídeo
Quatro votos formaram maioria pela absolvição
Sete jurados compunham o Conselho de Sentença.
Pouco antes de 1h do dia 25 de setembro de 2024, começou a votação que definiria o resultado.
Os quatro primeiros votos contabilizados foram suficientes para estabelecer a maioria pela absolvição.
Por isso, os votos dos outros três integrantes não precisaram ser revelados, procedimento que também preserva o sigilo da votação do Tribunal do Júri.
Rosália foi absolvida.
O resultado alcançou tanto a acusação de homicídio quanto a de fraude processual.
Camila contou que chorou depois de ouvir a decisão.
Para ela, o julgamento encerrava um período iniciado quando ainda era adolescente e que havia influenciado diretamente a escolha de sua profissão.
“A sensação é de alívio para a gente”, afirmou após o resultado.
Ministério Público explicou posição depois da absolvição
A existência da absolvição não apaga o fato de que acusação e defesa defenderam interpretações diferentes sobre a morte de José Antônio.
A família do empresário havia sustentado publicamente antes do julgamento que acreditava na hipótese de homicídio.
Já a defesa de Rosália afirmou durante todo o processo que ela não realizou o disparo.
Em entrevista à Agência Pública publicada em maio de 2025, a promotora Rita de Cássia Pires Bezerra Cavalcanti, responsável pela acusação no júri, afirmou que não havia motivo para reabrir publicamente a discussão sobre as provas após a decisão e que havia aceitado o resultado alcançado pelo Conselho de Sentença.
A promotora também ressaltou que não havia participado da investigação inicial, da denúncia nem da instrução do processo.
Segundo ela, sua atuação ocorreu especificamente na sessão do júri, mais de uma década depois do começo do caso.
A declaração de 2025 acrescentou um detalhe simbólico à passagem do tempo.
Durante o período em que o processo aguardou o julgamento, a própria promotora avançou na carreira enquanto Camila terminou o ensino médio, passou pela universidade e se tornou advogada.
Mãe falou sobre a atuação da filha depois do julgamento
Meses após a absolvição, Rosália concedeu entrevista à Agência Pública e falou pela primeira vez de forma mais extensa sobre a experiência.
Ela destacou especialmente a presença de Camila ao seu lado no tribunal.
Para Rosália, ver a filha na bancada da defesa depois de tudo que havia acontecido desde os 14 anos da jovem foi motivo de orgulho.
A trajetória também passou a projetar Camila profissionalmente.
Registros públicos e perfis profissionais continuam identificando Camila Pita Miranda como advogada com atuação especialmente ligada à área criminal na Bahia.
O resultado de setembro de 2024, no entanto, permanece como o episódio que tornou sua história conhecida nacionalmente.
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Ana Alice
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A adolescente que começou a ler documentos para tentar entender por que a mãe estava sendo acusada chegou ao plenário 12 anos depois com carteira da OAB, formação jurídica e experiência em outros júris.
Sua mãe saiu dali absolvida.
E a mesma investigação que havia interferido na adolescência de Camila acabou também determinando o caminho profissional que a colocou diante dos sete jurados naquela madrugada.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

