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Ele carregava lata de algodão na lavoura aos 7 anos, dirigiu caminhão canavieiro, passou mais de três décadas num posto de Presidente Prudente até virar gerente geral e voltou a estudar cerca de 40 anos depois de terminar a escola; aos 58, entrou no curso de Medicina da Unoeste, a mesma faculdade onde a filha dele já tinha se formado médica
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 10/08/2026 às 12:36
Atualizado em 10/08/2026 às 12:40
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José Aparecido da Silva, conhecido como Cido do Posto Brasil, começou como frentista, virou caixa, tornou-se cotista e chegou à gerência-geral em 32 anos. Aos 58, entrou na 63ª turma da Famepp. A filha Ana Caroline se formou médica pela mesma instituição há três anos.
Ele completa 59 anos em dezembro e passou os últimos 32 em um posto de combustível de Presidente Prudente, onde entrou como frentista, passou pelo caixa, virou cotista do negócio e chegou a gerente geral. Na manhã de quarta-feira, 5 de agosto de 2026, José Aparecido da Silva estava no Teatro César Cava, entre os calouros de Medicina da Faculdade de Medicina de Presidente Prudente, ligada à Universidade do Oeste Paulista, conforme divulgação da própria instituição e cobertura do Portal Prudentino e do Jornal Correio.
Conhecido na cidade como Cido do Posto Brasil, ele avisou que vai deixar o trabalho para estudar em tempo integral. A trajetória até aquela cadeira começou aos sete anos, em uma roça no oeste paulista, com uma lata na mão porque ele ainda não tinha força para arrastar o saco de colheita.
A lata que substituía o saco de estopa
Nascido em Álvares Machado, a cerca de 11 quilômetros de Presidente Prudente, Cido trabalha desde criança. Aos sete anos já ia para a lavoura com os pais, e foram 21 anos em plantações de feijão, amendoim e algodão.
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O detalhe do início explica o tamanho da diferença entre ele e a criança que a tarefa exigia. Na colheita de algodão, o trabalhador amarra na cintura um saco de estopa e vai arrastando enquanto enche. Ele não tinha tamanho nem força para isso. A solução foi colocar as plumas em uma lata e, quando ela enchia, despejar no saco que era arrastado pela manhã. A carreira dele começou fazendo adaptação de ferramenta por falta de porte físico.
O trabalho rural aconteceu entre Álvares Machado e o distrito de Costa Machado, em Mirante do Paranapanema, na região do Pontal do Paranapanema. É a mesma localidade onde nasceu o cantor Tony Tornado, e que hoje concentra um dos maiores números de assentamentos do país. Já adulto, ele virou motorista de caminhão canavieiro.
Trinta e dois anos no mesmo posto
A mudança para Presidente Prudente aconteceu em 1994, três anos depois do casamento com Maria do Socorro. Foi ali que começou a carreira que ocuparia as três décadas seguintes.
A progressão dentro do posto de combustível passou por quatro estágios. Ele entrou como frentista, foi para o caixa, conquistou a condição de cotista do negócio e assumiu a gerência-geral. É uma escada percorrida inteira dentro da mesma empresa, sem diploma superior, e é justamente essa posição de gerente e sócio que ele agora deixa para trás.
O casal teve dois filhos, e cada um seguiu um caminho. Wallas Douglas não quis continuar nos estudos e é cozinheiro em um restaurante na cidade de Lagos, em Portugal.
A filha chegou lá primeiro
A outra filha seguiu exatamente o caminho que o pai queria para si. Ana Caroline formou-se em Medicina pela Unoeste há três anos, na mesma instituição em que ele acaba de ingressar.
Hoje ela atua pelo Programa Mais Médicos em Capela do Alto, município a 35 quilômetros de Sorocaba, no interior paulista, e complementa a renda com plantões em unidades de saúde. A ordem inversa é o que dá o tom da história: a filha se formou médica antes de o pai começar a estudar Medicina, na mesma faculdade e com o mesmo objetivo.
O susto que veio da vesícula
A decisão de mudar de vida ganhou força depois de um episódio de saúde. Em 2019, Cido passou por uma cirurgia para retirada da vesícula, e foi durante o procedimento que os médicos identificaram uma artéria dilatada.
Ele precisou passar por uma segunda operação, dessa vez cardíaca. Seguiu se sentindo bem, mas com obesidade. No início do ano passado, decidiu cuidar da saúde: mudou a alimentação, começou a caminhar e passou a correr, chegando a percorrer 10 quilômetros. Saiu de 103 quilos e perdeu 28. A esposa acompanhou as caminhadas e emagreceu 15 quilos. Vale a observação: as mudanças foram feitas por ele depois de acompanhamento médico e cirurgia cardíaca, e qualquer alteração de rotina alimentar ou de exercício deve passar por avaliação profissional.
Quatro décadas entre a escola e o vestibular
O intervalo entre o fim da escola e a volta aos estudos é o dado que mais impressiona no percurso acadêmico. Ele cursou o antigo primário e o colegial, hoje ensino fundamental e médio, na Escola Estadual Zulenka Rapchan, em Costa Machado, e prestou o vestibular cerca de 40 anos depois de concluir o ensino básico.
A preparação foi feita sozinha. Segundo ele, sempre foi bom aluno e não teve dificuldade de aprendizagem, e para encarar a prova fez uma revisão de conteúdo por conta própria, sem cursinho. Ele reconhece que o vestibular não foi fácil. Entrou na 63ª turma da Famepp e foi recebido pela coordenadora do curso, Nilva Galli, e pela direção da mantenedora.
Como ele pretende pagar o curso
Aqui está a parte prática que a maioria das versões da história não detalha. Para estudar em tempo integral, Cido vai parar de trabalhar, o que significa abrir mão da renda de gerente e sócio.
O plano inicial é custear o curso com o dinheiro da venda das cotas dele no posto e, possivelmente, com a venda de algum imóvel. Mas ele não pretende depender só disso: vai prestar o Exame Nacional do Ensino Médio em dezembro, buscando acesso a alguma linha de financiamento ou bolsa, seja pelo Sisu, pelo ProUni ou pelo Fies. É um plano com prazo curto, porque o dinheiro da venda das cotas tem fim e o curso de Medicina dura seis anos.
Uma ressalva sobre a origem da informação
Vale registrar de onde vem o material. A divulgação original é da própria universidade, e traz avaliações institucionais que não pude verificar de forma independente: a instituição se apresenta como a primeira melhor particular do estado de São Paulo e a terceira do Brasil segundo o Ministério da Educação, com nota máxima no curso de Medicina.
Essas classificações são apresentadas pela própria instituição sobre si mesma, e por isso estão aqui como afirmação dela, não como dado verificado. O restante das informações sobre a trajetória de Cido foi reproduzido de forma consistente pelo Portal Prudentino e pelo Jornal Correio.
Medicina dura seis anos, e depois vem residência. Cido terá 65 anos quando colar grau, se tudo correr no prazo, e abre mão hoje da renda de gerente e sócio para bancar isso.
Conta nos comentários: você deixaria um cargo de gerência estável para começar uma graduação de seis anos perto dos 60? E na sua opinião, o que pesa mais nessa decisão, a conta financeira ou o tempo que ainda se tem pela frente para exercer a profissão?
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lavoura
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

