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Ele foi carroceiro e servente de pedreiro, reprovou duas vezes no vestibular de Medicina nos anos 1950, virou empresário, se formou em Direito aos 65, passou em Medicina aos 84, sofreu um AVC no meio do curso e recebeu o diploma de médico aos 90 anos em Goiânia

Ele foi carroceiro e servente de pedreiro, reprovou duas vezes no vestibular de Medicina nos anos 1950, virou empresário, se formou em Direito aos 65, passou em Medicina aos 84, sofreu um AVC no meio do curso e recebeu o diploma de médico aos 90 anos em Goiânia

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Ele foi carroceiro e servente de pedreiro, reprovou duas vezes no vestibular de Medicina nos anos 1950, virou empresário, se formou em Direito aos 65, passou em Medicina aos 84, sofreu um AVC no meio do curso e recebeu o diploma de médico aos 90 anos em Goiânia

Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges

Publicado em 08/08/2026 às 10:34

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Carroceiro e servente de pedreiro, ele reprovou duas vezes em Medicina nos anos 1950, passou aos 84 e virou médico aos 90 anos em Goiânia.

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Órfão de pai antes dos dois anos, Valdomiro de Sousa trabalhou como carpinteiro, serralheiro, carroceiro e servente de pedreiro sem nunca abandonar o sonho de infância. Passou seis décadas entre a primeira reprovação no vestibular e o diploma que recebeu aos 90 anos, em Goiânia.

Aos 90 anos, o empresário Valdomiro de Sousa concluiu o curso de Medicina em Goiânia, realizando um desejo que carregava desde criança e que ficou pendente por mais de sessenta anos, segundo reportagem publicada pelo g1 Goiás em 10 de novembro de 2024, assinada por Gilmara Roberto. Ele entrou na faculdade em 2018, aos 84 anos, depois de estudar três anos seguidos para o vestibular, e se formou junto com os colegas de turma mesmo tendo sofrido um AVC antes do fim do curso.

A trajetória até esse diploma passa por profissões que não têm nada a ver com consultório. Valdomiro foi carpinteiro, serralheiro, carroceiro e servente de pedreiro. Depois virou sócio de um frigorífico, se formou em Direito aos 65 anos e só então voltou ao objetivo original. Ele resumiu o sentimento em uma frase da própria biografia: o que para muitos é apenas mais um dia de aula, para ele é uma vitória.

O menino que ficou órfão antes dos dois anos

A origem da história está em uma perda precoce. Valdomiro perdeu o pai com menos de dois anos de idade, e isso definiu o resto da infância dele. Começou a trabalhar muito cedo, e a necessidade de sustento tornou difícil manter concentração nos estudos.

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A lista de ofícios que ele exerceu ao longo da vida diz muito sobre o percurso. Carpintaria, serralheria, carroça e obra. São quatro trabalhos braçais que exigem corpo, não diploma, e todos eles antecederam qualquer sala de aula universitária na vida dele. Em nenhum desses períodos, segundo o próprio relato, o desejo de ser médico foi abandonado.

A admiração pela profissão veio da infância e não passou. É esse detalhe que separa a história de um caso de reinvenção tardia: não houve mudança de rumo aos 84 anos, houve retomada de um plano antigo que nunca chegou a ser cancelado.

As duas reprovações no Rio de Janeiro

Carroceiro e servente de pedreiro, ele reprovou duas vezes em Medicina nos anos 1950, passou aos 84 e virou médico aos 90 anos em Goiânia.

No fim dos anos 1950, Valdomiro chegou a se mudar para o Rio de Janeiro para fazer um curso pré-vestibular de Medicina. A tentativa foi séria e envolveu deslocamento, custo e tempo, o que já indica a dimensão do compromisso naquela altura.

Ele prestou o vestibular duas vezes e não passou em nenhuma delas. Duas reprovações no fim dos anos 1950 empurraram o sonho para um intervalo de quase sessenta anos. Não houve terceira tentativa naquele momento. A vida seguiu por outro caminho, e o objetivo ficou guardado.

De volta a Goiânia, ele fez curso técnico comercial e técnico em contabilidade. Em 1962, parou de estudar para trabalhar em um frigorífico, onde acabou se tornando sócio. Foi ali que a carreira empresarial começou, e o projeto de ser médico entrou em suspensão por décadas.

O diploma de Direito aos 65 anos

Carroceiro e servente de pedreiro, ele reprovou duas vezes em Medicina nos anos 1950, passou aos 84 e virou médico aos 90 anos em Goiânia.

A pausa não significou desistência dos estudos. Aos 65 anos, quando a maior parte das pessoas está encerrando a vida profissional, Valdomiro se formou em Direito. Foi a primeira graduação dele, obtida em uma idade em que a média dos formandos já se aposentou.

Ele mesmo trata esse diploma como etapa, não como conclusão. No livro que escreveu, afirma que nada do que enfrentou o impediu de ir adiante, e coloca a formatura em Direito aos 65 anos e a de Medicina aos 90 na mesma sequência de conquistas. A faculdade de Direito não foi um substituto para a Medicina, foi um ensaio de que ainda dava tempo.

O título do livro dele resume a leitura que faz da própria vida: “Difícil foi a estrada por onde andei, mas com a graça de Deus venci”. A obra estava marcada para ser lançada em 17 de novembro de 2024, em Goiânia, poucos dias depois da reportagem sobre a formatura.

Três anos estudando para o vestibular, aos 81

O retorno ao objetivo original não foi impulsivo. Antes de tentar novamente, Valdomiro estudou para o vestibular durante três anos seguidos. Contando de trás para frente a partir da aprovação, isso significa que ele começou a se preparar por volta dos 81 anos.

A aprovação veio em 2018, em uma universidade particular de Goiânia, quando ele tinha 84 anos. Um homem que havia sido reprovado duas vezes aos vinte e poucos anos passou no mesmo vestibular seis décadas depois. Não houve atalho, houve preparação longa e aprovação em processo seletivo regular.

O que ele descreve sobre a rotina na faculdade tem tom de estranhamento positivo. Contou no livro que ia estudar como se estivesse chegando em outro mundo, e que se emocionava toda vez que subia os degraus da escada da escola em direção à sala de aula, ao perceber que algo tão distante havia se tornado realidade.

A pandemia e o ensaio de “meio médico”

O curso de Valdomiro atravessou a covid-19. Em 2020, ele passou a assistir às aulas e a fazer provas em casa, como toda a turma, no período em que as universidades suspenderam as atividades presenciais.

Naquele mesmo ano, ele cumpriu uma tradição que existe nos cursos de Medicina: o ensaio fotográfico chamado de “meio médico”, feito por quem chega à metade da graduação. Aos 87 anos, ele posou para o registro que marca o meio do caminho de um curso de seis anos. As imagens circularam e a história dele ganhou repercussão já naquela etapa, antes mesmo da formatura.

O detalhe mostra que ele não passou pela faculdade de forma isolada ou simbólica. Participou dos rituais da turma, cumpriu o calendário e viveu o curso como qualquer outro estudante, com a diferença da idade.

O AVC antes da formatura

Faltando pouco para terminar, veio o obstáculo mais sério. Valdomiro sofreu um acidente vascular cerebral antes de concluir a faculdade de Medicina. Em uma pessoa de quase 90 anos, esse tipo de evento costuma encerrar planos, não apenas adiá-los.

A recuperação surpreendeu quem o acompanhava. Ele contou que os médicos ficaram encabulados com a melhora e que se recuperou em tempo recorde. O futuro médico virou paciente na reta final do curso e voltou a tempo de colar grau com os colegas. Não houve trancamento, não houve turma diferente, não houve formatura separada.

Esse é o dado que fecha a narrativa da forma mais improvável possível. Depois de sessenta anos de espera, três anos de cursinho, seis anos de faculdade e um AVC pelo caminho, ele recebeu o diploma junto com todos os outros formandos.

O que a família diz

Para os familiares, ele virou referência. O afilhado, Matheus Marcus, o descreve como exemplo de vida e de ser humano, e resume a lição em uma frase direta: o que você quer, você pode, com luta, dedicação e honestidade.

A avaliação da família ajuda a entender por que a história repercutiu. Não se trata apenas do feito acadêmico. O que impressiona não é um homem de 90 anos com diploma de médico, é um homem que passou sessenta anos sem desistir de uma ideia. A distância entre a primeira reprovação e a colação de grau é maior que a vida adulta inteira da maioria das pessoas.

A biografia lançada em novembro de 2024 registra essa leitura na voz do próprio Valdomiro. Ele escreve que se emociona com o que para os outros é rotina, e classifica o simples fato de estar em sala de aula como vitória, dádiva e prazer.

Uma trajetória contada em datas

Colocadas em ordem, as datas dessa história formam um mapa incomum. Fim dos anos 1950: pré-vestibular no Rio de Janeiro e duas reprovações em Medicina. Início dos anos 1960: cursos técnicos em Goiânia. 1962: parou de estudar para trabalhar no frigorífico, onde virou sócio.

Décadas depois, a retomada. Aos 65 anos, diploma de Direito. Por volta dos 81, começo dos três anos de preparação para o vestibular. Em 2018, aos 84 anos, aprovação em Medicina em uma universidade particular de Goiânia. Em 2020, aulas remotas na pandemia e o ensaio de “meio médico”. Depois, o AVC, a recuperação e a formatura aos 90 anos.

E você, acha que existe idade limite para começar uma faculdade, ou a história dele prova que a conta é outra? Conta nos comentários que sonho antigo você ainda pretende tirar da gaveta.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

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