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Ele largou Engenharia Civil por falta de dinheiro e virou vigilante de um colégio: passou quase 20 anos no portão fazendo o turno das 19h às 7h e entrando na aula às 7h30, trocou o curso por Pedagogia, formou-se cum laude aos 38 e hoje dá aula para o segundo ano na mesma escola cujo portão ele guardou
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 11/08/2026 às 13:48
Atualizado em 11/08/2026 às 13:56
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Erwin Valmoria Macua cursou um semestre de Engenharia Civil e desistiu por pobreza. Entrou como segurança do Saint Theresa’s College, em Cebu, nas Filipinas, em 2000. Matriculou-se em Educação Primária na mesma instituição em 2013 e passou no exame de licenciamento em novembro de 2017.
Na véspera da própria formatura ele estava de uniforme, no portão de entrada, cumprindo o turno da noite. O vigilante Erwin Valmoria Macua não quis folgar porque, nas palavras dele, sem trabalho não há pagamento, e o salário sustentava tanto os estudos quanto a família, conforme reportagem assinada por Michelle Joy L. Padayhag e publicada pelo Cebu Daily News em 25 de março de 2017.
No dia seguinte, ele subiu ao palco do auditório do Saint Theresa’s College, em Cebu, nas Filipinas, e recebeu o diploma de bacharel em Educação Primária com distinção cum laude, entre 97 formandos. Trabalhava naquele mesmo colégio desde 2000. Um ano e quatro meses depois, voltaria ao prédio numa terceira condição: nem aluno, nem segurança, mas professor.
Engenharia Civil durou um semestre e acabou por pobreza
Antes do portão, houve uma primeira tentativa de faculdade. Macua cursou Engenharia Civil no Divine Word College de Tagbilaran, hoje chamado Holy Name University, na cidade de Tagbilaran.
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Durou um semestre. Ele precisou abandonar o curso por falta de condições financeiras, e o motivo tem raiz familiar: os pais são pequenos agricultores de Trinidad, na província de Bohol, e não tinham como bancar os estudos do filho. A desistência não foi por desempenho. Ele havia se formado primeiro colocado da turma tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio, na escola pública de Trinidad.
Vigilante entrou no colégio em 2000 e ficou quase duas décadas
O emprego de segurança no Saint Theresa’s College começou em 2000, na unidade da Avenida General Maxilom, em Cebu. A guarita virou o que as reportagens locais descrevem como a segunda casa dele.
Foi ali que ele recebeu alunas, pais e professores por quase vinte anos, e foi ali também que passou a fazer as tarefas da faculdade, ainda de uniforme. A rotina de trabalho ficou registrada em detalhe: turno noturno das 19h às 7h, com as aulas começando às 7h30 e indo até as 16h, de segunda a sexta, sem faltar. Sobrava o intervalo entre uma coisa e outra para dormir, e era nesse arranjo que ele criava três filhos.
Curso só abriu para ele quando a escola passou a aceitar homens
A matrícula em Educação Primária aconteceu em 2013, cerca de 17 anos depois de ele largar Engenharia Civil. Havia uma razão concreta para não ter sido antes.
O Saint Theresa’s College era uma instituição exclusivamente feminina, e só passou a aceitar alunos homens naquele período. Quando a regra mudou, o vigilante que trabalhava no portão se inscreveu. Ele precisou se adaptar a ter colegas de turma bem mais jovens, e conta que, no primeiro dia de aula, entrou na sala com uma camisa comum e surpreendeu a classe. Segundo o relato dele, não sofreu discriminação de colegas nem de professores, e isso o motivou a se esforçar mais.
Mensalidade caiu pela metade e doadores anônimos pagaram o resto
A conta do curso não fechava só com o salário de segurança. A administração do colégio concedeu a ele desconto de 50% na mensalidade, que custava normalmente entre 25 mil e 35 mil pesos filipinos por semestre.
O restante veio de onde ele não esperava. Em diversas ocasiões, Macua só descobria depois que a mensalidade daquele período já havia sido quitada por doadores anônimos. Ele afirma dever muito a essas pessoas e diz que foram elas que realizaram o sonho dele. A esposa, Irenea, mantinha uma mercearia dentro de casa, no bairro de Kalunasan, para complementar a renda da família.
Formatura reuniu mãe, esposa e a filha de dez meses
A cerimônia foi às 15h, no auditório do colégio. Ele chegou acompanhado da esposa Irenea, então com 38 anos, que carregava no colo a filha caçula de dez meses, e da mãe, Aproniana, de 60.
A fala da mãe é a que mais pesa no registro daquele dia. Com os olhos marejados, ela disse estar muito feliz porque ele se esforçou, e triste porque não conseguiu ajudá-lo. Aproniana também contou que repetia ao filho, sempre que ele confessava estar cansado demais de conciliar trabalho, estudo e o sustento da própria família, uma frase curta em cebuano pedindo que mantivesse o espírito de luta. A família decidiu não fazer festa: para a esposa, uma refeição simples em casa bastava para marcar a data.
Ele continuou no portão mesmo depois de formado
O detalhe que mais surpreende no desfecho imediato é que nada mudou logo após a formatura. Macua não pediu demissão e seguiu no turno da noite.
Havia dois motivos. O primeiro era prático: ainda precisava estudar para o Exame de Licenciamento para Professores, marcado para setembro daquele ano, e o salário continuava sendo necessário. O segundo era declarado como dívida moral. Ele disse que não podia deixar o colégio naquele momento porque queria retribuir à instituição que lhe deu a oportunidade de estudar. Fez a preparação para a prova enquanto continuava escalado à noite no portão.
Aprovação no exame chegou em 27 de novembro de 2017
O resultado saiu enquanto ele trabalhava. Na tarde de segunda-feira, 27 de novembro de 2017, Macua estava no portão da garagem do colégio quando recebeu a ligação de uma professora avisando que ele havia passado.
Não acreditou de imediato e perguntou várias vezes se era verdade. Ele foi um dos 70.824 aprovados na edição de setembro de 2017 do exame, cujos resultados foram divulgados pela comissão reguladora profissional das Filipinas. Tinha 39 anos. Contou que não dormira na noite anterior, checando o site atrás da lista, e que chorou ao ver o próprio nome. Nas semanas seguintes, ele e a esposa ainda avaliavam se lecionaria em escola pública ou particular, mas ele já dizia que, se fosse na rede privada, não pensaria duas vezes antes de escolher o colégio onde trabalhava.
Primeira aula foi em 1º de agosto de 2018
A transição se completou no meio do ano seguinte. Em 1º de agosto de 2018, Macua entrou pela primeira vez em uma sala de aula do Saint Theresa’s College na condição de professor, com camisa polo azul-clara e calça preta no lugar do uniforme de segurança.
Ele passou a lecionar para turmas do segundo ano do ensino fundamental, com crianças de oito anos, nas disciplinas de estudos sociais e educação para o trabalho, esta última antes conhecida como economia doméstica. A avaliação que fez da mudança foi honesta: disse que a sala de aula era mais desafiadora que o trabalho de segurança, por causa das adaptações que precisou fazer. Costuma começar a aula tocando violão e só continua quando a turma inteira está cantando junto.
Alunos sabem que ele guardava o portão, e ele não esconde
A condição anterior nunca virou segredo dentro do colégio. Muitos dos alunos e dos pais sabem que aquele professor foi o segurança da escola por quase duas décadas.
Ele responde às perguntas das crianças de forma direta, confirmando que sim, era o vigilante, e que agora é o professor delas. A escolha do curso, aliás, tinha esse objetivo desde o começo: ele disse que optou por Educação Primária porque queria inspirar os jovens a estudar e a mudar de vida, e que a melhor recompensa possível seria eles retribuírem aos próprios pais.
História virou comercial de TV e continua rendendo
A repercussão foi imediata e ultrapassou Cebu. No primeiro dia após a publicação da reportagem original, o texto foi compartilhado quase 30 mil vezes no site do jornal, e a versão publicada na página do veículo no Facebook alcançou 692 mil pessoas, com 2.117 compartilhamentos e 13 mil reações.
O alcance não parou ali. Ele foi entrevistado por programas de televisão nacionais nas Filipinas e chegou a estrelar um comercial de uma marca de café. A informação mais recente que localizei sobre ele é de 2024, ainda registrando a atuação como professor no mesmo colégio. Não há indicação pública de que tenha mudado de escola ou de função desde então.
Conta nos comentários: você conhece alguém que trabalha dentro de uma instituição de ensino e estuda lá mesmo, aproveitando desconto de funcionário? E na sua opinião, o que pesou mais nessa história, a disciplina dele de vinte anos ou o fato de a escola ter reduzido a mensalidade pela metade?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

