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Empregada doméstica chegou a Salvador aos 17 anos sem registro de nascimento e sem saber ler ou escrever, pegava ônibus pela cor, juntou dinheiro por dois anos para conseguir se registrar e, depois de faltar dinheiro para livros, comida e transporte, manteve os estudos até se formar em Direito quase quatro décadas depois

Empregada doméstica chegou a Salvador aos 17 anos sem registro de nascimento e sem saber ler ou escrever, pegava ônibus pela cor, juntou dinheiro por dois anos para conseguir se registrar e, depois de faltar dinheiro para livros, comida e transporte, manteve os estudos até se formar em Direito quase quatro décadas depois

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Empregada doméstica chegou a Salvador aos 17 anos sem registro de nascimento e sem saber ler ou escrever, pegava ônibus pela cor, juntou dinheiro por dois anos para conseguir se registrar e, depois de faltar dinheiro para livros, comida e transporte, manteve os estudos até se formar em Direito quase quatro décadas depois

Escrito por Alisson Ficher

Publicado em 10/08/2026 às 00:00

Atualizado em 10/08/2026 às 00:01

Curiosidades

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Empregada doméstica supera analfabetismo, falta de documentos e dificuldades financeiras até conquistar diploma em Direito na Bahia.

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Aos 17 anos, Marinalva de Deus Barbosa chegou a Salvador para trabalhar como empregada doméstica sem possuir registro de nascimento e sem saber ler ou escrever.

Como não conseguia identificar os letreiros dos ônibus, aprendeu a reconhecer os veículos pela cor.

Entre jornadas de trabalho e dificuldades que começavam nas tarefas mais básicas do cotidiano, guardou dinheiro durante dois anos até conseguir retornar a Maragogipe, no Recôncavo da Bahia, para providenciar o próprio registro.

Regularizar os documentos representou apenas uma das primeiras etapas de um percurso muito mais longo.

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Já vivendo na capital baiana, Marinalva passou a frequentar a escola no período noturno e precisou começar praticamente do início.

Enquanto outros estudantes copiavam as atividades do quadro, ela ainda enfrentava dificuldade para segurar o lápis e formar as primeiras letras.

A ajuda de uma professora foi decisiva naquele processo de alfabetização.

Aos poucos, a trabalhadora doméstica avançou na leitura e na escrita, continuou estudando e percorreu as demais etapas da educação básica.

O ensino médio seria concluído anos depois, abrindo espaço para um objetivo que parecia distante de sua realidade quando desembarcou em Salvador: chegar a uma faculdade.

Segundo o Brasil de Fato, que relatou detalhadamente a trajetória de Marinalva após sua graduação, as dificuldades financeiras atravessaram praticamente todas as fases dessa caminhada.

O salário obtido no trabalho doméstico precisava atender às despesas diárias, enquanto alimentação, transporte e materiais escolares disputavam espaço em um orçamento limitado.

Foi ainda durante o trabalho em uma casa de família que surgiu outro elemento importante de sua história.

Enquanto preparava o almoço, Marinalva ouviu no rádio uma entrevista sobre o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas da Bahia, o Sindoméstico, anotou as informações divulgadas e decidiu procurar a entidade.

Empregada doméstica supera analfabetismo, falta de documentos e dificuldades financeiras até conquistar diploma em Direito na Bahia.

A aproximação, inicialmente motivada pela busca por conhecimento sobre direitos trabalhistas, acabaria influenciando também sua escolha profissional.

Dentro do sindicato, ela passou a acompanhar de perto situações envolvendo trabalhadoras domésticas, conflitos trabalhistas e dificuldades para acessar direitos básicos.

Com o tempo, deixou de ser apenas associada, integrou a direção da entidade e posteriormente assumiu a presidência por dois mandatos.

O contato frequente com questões jurídicas fez crescer o interesse pelo Direito.

Em algumas ocasiões, Marinalva acompanhava trabalhadoras chamadas a delegacias, inclusive em situações nas quais eram acusadas de furto, mas encontrava limites para permanecer ao lado delas durante determinados procedimentos.

A experiência reforçou a intenção de buscar uma formação que lhe permitisse compreender melhor aquele sistema.

Chegar à universidade, entretanto, exigiria uma nova sequência de tentativas.

Mesmo depois de concluir o ensino médio, ela ainda passou anos procurando condições para iniciar uma graduação.

A oportunidade surgiu em uma instituição particular, onde começou o curso de Direito sem contar com uma bolsa que cobrisse integralmente as mensalidades.

O ingresso na faculdade não eliminou as dificuldades que já acompanhavam sua trajetória.

Cerca de um ano depois do início do curso, Marinalva perdeu a renda fixa que tinha e passou a depender principalmente da ajuda de custo relacionada à atuação sindical.

A mudança atingiu diretamente sua capacidade de manter as despesas acadêmicas em dia.

Livros, cópias, alimentação e transporte passaram a pesar cada vez mais no orçamento.

Em diferentes momentos, o dinheiro disponível não era suficiente para arcar simultaneamente com as necessidades básicas e os custos da graduação, situação que provocou dívidas e interrupções no curso.

Uma dessas pausas durou aproximadamente um ano e meio.

Longe das salas de aula, Marinalva chegou a considerar a possibilidade de não conseguir voltar, mas posteriormente retomou a matrícula e precisou reorganizar disciplinas, horários e pagamentos para continuar avançando.

Voltar à faculdade também significava reencontrar uma rotina acadêmica alterada pelas interrupções.

Algumas matérias tiveram de ser reorganizadas, enquanto o tempo para estudar continuava dividido entre compromissos profissionais, atividades sindicais e a necessidade de garantir renda para permanecer no curso.

Muito antes dessa fase, porém, o trabalho doméstico já havia financiado uma conquista essencial.

Foram as economias reunidas durante os primeiros anos em Salvador que possibilitaram a viagem até Maragogipe para regularizar seu registro de nascimento, documento que ela não possuía ao chegar à capital baiana.

Naquele mesmo período, deslocar-se pela cidade exigia soluções próprias.

Incapaz de ler os destinos indicados nos ônibus, Marinalva memorizava características visuais dos veículos e utilizava as cores como referência para saber qual transporte deveria pegar.

A estratégia cotidiana tornou-se um dos símbolos mais marcantes da distância percorrida entre a chegada à capital e a formação universitária.

Conforme avançava nos estudos, a participação no Sindoméstico ganhava mais espaço em sua vida.

As reuniões e os atendimentos colocavam a trabalhadora diante de discussões sobre legislação, relações de emprego e proteção de direitos, temas que depois seriam aprofundados durante a graduação.

O curso de Direito começou em 2013, mas o percurso universitário levou quase uma década por causa das sucessivas dificuldades financeiras.

Sem condições de manter uma trajetória acadêmica contínua, Marinalva precisou alternar períodos de estudo com pausas impostas pela falta de recursos.

A conclusão chegou em dezembro de 2022.

Depois de aprender a ler e escrever já adulta, terminar a educação básica e enfrentar interrupções na faculdade, ela recebeu o diploma de bacharel em Direito, encerrando uma etapa iniciada muito antes de entrar em uma sala de aula universitária.

Obter o diploma, contudo, não significava autorização automática para exercer a advocacia.

Após a graduação, Marinalva afirmou que pretendia continuar estudando para realizar o Exame da Ordem e buscar a inscrição profissional na OAB, além de manter a atuação ligada à defesa de trabalhadoras domésticas.

A formação jurídica passou a integrar uma história profissional construída a partir do próprio trabalho doméstico.

Foi nesse ambiente que ela sustentou parte dos estudos, conheceu o sindicato que mudaria sua trajetória e começou a conviver diretamente com situações que despertaram o interesse pelo Direito.

Antes de alcançar a universidade, Marinalva precisou vencer etapas que normalmente antecedem qualquer discussão sobre ensino superior: obter documentos, aprender a ler, aprender a escrever e concluir a escola.

Décadas depois de chegar a Salvador identificando ônibus pela cor, saiu da faculdade com um diploma de Direito.

Qual parte dessa trajetória mais chama sua atenção: aprender a circular pela cidade sem saber ler, trabalhar para conseguir o próprio registro de nascimento ou retomar a faculdade mesmo depois de uma longa interrupção por falta de dinheiro?


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

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