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Empregada doméstica que trabalhava desde os 5 anos acordava às 5h em Brasília para deixar o almoço dos patrões pronto, atravessava o Eixão correndo depois da escola e só podia pagar duas matérias por semestre; amigas fizeram vaquinha para a matrícula, ela virou advogada e se tornou a primeira secretária de Igualdade Racial do DF
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 11/08/2026 às 22:21
Atualizado em 11/08/2026 às 22:52
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Trajetória marcada por trabalho doméstico desde a infância, dificuldades para estudar, apoio de amigas e obstáculos financeiros revela como Josefina Serra dos Santos construiu uma carreira no Direito e chegou a cargos de destaque ligados à defesa de direitos humanos e igualdade racial.
Josefina Serra dos Santos transformou uma trajetória iniciada no trabalho doméstico ainda na infância em uma carreira no Direito e na defesa de direitos humanos, depois de enfrentar dificuldades para permanecer na escola e pagar a própria formação universitária.
Nascida em uma comunidade quilombola de Cajapió, no Maranhão, filha de lavradores e quebradores de coco babaçu, ela trabalhou em casas de família e chegou à universidade pagando apenas as disciplinas que cabiam no orçamento disponível naquele momento.
Anos depois, a menina que começou a trabalhar ainda criança tornou-se advogada e ocupou o cargo de primeira secretária de Estado de Igualdade Racial do Distrito Federal, reunindo no currículo atuação jurídica, direitos humanos e representação institucional.
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Em entrevista ao Correio Braziliense, Josefina contou que deixou sua região de origem ainda pequena e foi para São Luís aos cinco anos, onde passou a morar na casa de uma prima enquanto trabalhava como empregada doméstica.
Trabalho doméstico começou ainda na infância
Mais tarde, seguiu para o Rio de Janeiro e continuou trabalhando em casa de família, até ser levada pelos patrões para Brasília sob a promessa de que poderia voltar a estudar e retomar uma etapa interrompida de sua formação.
Na capital federal, porém, frequentar a escola exigia conciliar as aulas com uma rotina pesada de serviço doméstico, pois Josefina estudava na 103 Sul e continuava responsável pelas tarefas da casa onde vivia em troca de alimentação e moradia.
Antes de ir para a escola, o dia já começava às 5h, horário em que ela precisava deixar o almoço dos patrões preparado; depois das aulas, em vez de permanecer com os colegas, atravessava o Eixão correndo para retornar ao trabalho.
Manter os estudos, segundo o relato dado ao jornal, significava suportar uma rotina em que a oportunidade de frequentar a escola coexistia com barreiras sociais, constrangimentos e uma divisão muito clara entre a vida dos colegas e a realidade que enfrentava.
Escola, trabalho e barreiras sociais em Brasília
Entre essas dificuldades, Josefina relatou que não costumava ser convidada para trabalhos em grupo ou para as casas dos colegas e que, nos edifícios onde circulava, frequentemente entrava pela porta dos fundos por causa da condição em que trabalhava.
Também pesava o afastamento da própria família, já que ela passou mais de seis anos sem rever a mãe, que nem sequer sabia que a filha estava em Brasília durante aquele período de trabalho doméstico e tentativa de retomar os estudos.
O reencontro ocorreu depois que Josefina participou de um concurso de redação no Distrito Federal e venceu, recebendo como prêmio uma passagem de ida e volta para um destino escolhido pelo ganhador, oportunidade usada para finalmente voltar a encontrar a mãe.
Quando chegou o momento de ingressar no ensino superior, surgiu uma nova barreira financeira, embora Josefina tivesse conseguido aprovação tanto em Direito quanto em Ciências Sociais e estivesse determinada a seguir uma formação universitária apesar das limitações de renda.
Vaquinha de empregadas domésticas garantiu a matrícula
Foi nesse ponto que outras trabalhadoras domésticas passaram a fazer parte diretamente da trajetória acadêmica, organizando uma vaquinha para pagar sua matrícula e permitir que ela desse o primeiro passo formal em direção ao curso de Direito.
Mesmo matriculada, a capacidade de pagamento continuava limitada, e por isso Josefina cursava apenas duas matérias por semestre, quantidade que afirmou conseguir bancar naquele período até obter uma bolsa parcial que ampliou suas condições de permanência na faculdade.
A ajuda reduziu parte do peso financeiro, mas não eliminou outras barreiras enfrentadas durante a graduação, já que Josefina afirmou ter sido a única mulher negra em sua sala e relatou dificuldades para conseguir estágio e o primeiro emprego jurídico.
Ao explicar a escolha profissional, ela relacionou o Direito à própria experiência de vida e ao desejo de atuar com pessoas em situação de vulnerabilidade que muitas vezes desconheciam seus direitos, direcionando a carreira principalmente para direitos humanos e direitos sociais.
Do curso de Direito à atuação em igualdade racial
Com o avanço da trajetória profissional, Josefina passou a ocupar espaços institucionais ligados à mesma agenda e tornou-se a primeira presidente da Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal, ampliando sua atuação pública.
Mais tarde, também assumiu como primeira secretária de Estado de Igualdade Racial do Distrito Federal, levando para a administração pública uma atuação relacionada ao combate à discriminação e à promoção de direitos, segundo a trajetória relatada ao Correio Braziliense.
A chegada a esses cargos contrasta com o início descrito por ela, marcado pelo trabalho em casas de família desde a infância, pela necessidade de correr do colégio para o serviço e pela dependência de ajuda coletiva para entrar na universidade.
Mesmo depois da matrícula, a formação avançou de maneira gradual, porque a limitação financeira aparecia na própria grade curricular, reduzida a duas disciplinas por semestre até que a bolsa parcial permitisse ampliar as possibilidades de permanência e continuidade no curso.
Apoio coletivo acompanhou a formação universitária
Nesse percurso, o apoio das amigas domésticas teve peso concreto, pois foram justamente mulheres que compartilhavam uma realidade profissional semelhante que reuniram recursos para custear a matrícula e evitar que a falta de dinheiro interrompesse o projeto universitário.
Décadas depois, o currículo de Josefina passou a reunir advocacia, atuação em direitos humanos, participação no movimento negro e cargos de representação institucional, enquanto a antiga rotina entre escola e trabalho doméstico permaneceu como parte central de sua trajetória.
Se uma vaquinha para pagar a matrícula e a possibilidade de cursar apenas duas matérias por semestre foram decisivas para manter esse caminho aberto, quantas outras trajetórias profissionais ainda dependem hoje de uma oportunidade concreta para que alguém consiga continuar estudando?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

