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Engenheiros querem enterrar reservatório de concreto com até 20 milhões de litros sob o fundo do mar e conectá-lo a uma bexiga gigante que será espremida pela pressão do oceano para armazenar eletricidade

Engenheiros querem enterrar reservatório de concreto com até 20 milhões de litros sob o fundo do mar e conectá-lo a uma bexiga gigante que será espremida pela pressão do oceano para armazenar eletricidade

7 min de leitura

Engenheiros querem enterrar reservatório de concreto com até 20 milhões de litros sob o fundo do mar e conectá-lo a uma bexiga gigante que será espremida pela pressão do oceano para armazenar eletricidade

Escrito por Ana Alice

Publicado em 07/08/2026 às 05:30

Atualizado em 07/08/2026 às 05:31

Ciência e Tecnologia

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Ocean Battery usa a pressão do mar e reservatórios de até 20 milhões de litros para armazenar energia de parques eólicos offshore. (Imagem: Ilustrativa)

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Um projeto holandês tentou transformar o fundo do oceano em parte de um gigantesco sistema de armazenamento de energia, combinando engenharia submarina, pressão da água e uma solução inspirada nas hidrelétricas reversíveis.

Imagine uma hidrelétrica sem montanha, sem rio represado e praticamente inteira escondida sob o mar.

Em vez de aproveitar a água caindo de uma barragem, engenheiros holandeses projetaram um sistema capaz de usar a própria pressão exercida pelo oceano para armazenar eletricidade produzida por parques eólicos offshore.

Batizado de Ocean Battery, o conceito foi desenvolvido pela Ocean Grazer, empresa criada a partir da Universidade de Groningen, nos Países Baixos.

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A proposta previa enterrar no fundo marinho um reservatório rígido de concreto capaz de receber até 20 milhões de litros de água doce, conectado por bombas e turbinas a uma enorme bolsa flexível instalada sobre o leito oceânico.

Quando sobrasse eletricidade produzida por turbinas eólicas ou outras fontes renováveis, bombas retirariam água do reservatório subterrâneo e encheriam essa estrutura flexível.

Quando a rede precisasse novamente de energia, o processo seria invertido.

A enorme coluna de água do oceano pressionaria a bolsa por fora e forçaria seu conteúdo a retornar ao reservatório enterrado, passando antes por turbinas que transformariam o movimento da água novamente em eletricidade.

A ideia chegou a avançar para protótipos e planos de demonstração nos Países Baixos.

Pressão do oceano faria o trabalho de uma barragem

O princípio físico lembra o armazenamento hidrelétrico por bombeamento, tecnologia usada há décadas em terra.

Nas instalações tradicionais, quando existe eletricidade sobrando, bombas elevam água de um reservatório inferior para outro localizado em uma altitude maior.

Quando surge demanda, a água desce novamente, passa por turbinas e devolve parte da energia à rede.

No Ocean Battery, não seria necessário encontrar duas represas separadas por uma montanha.

A diferença de pressão entre a bolsa situada no fundo do mar e o reservatório enterrado e mantido em baixa pressão faria o papel da diferença de altura de uma hidrelétrica reversível.

O reservatório rígido ficaria abaixo do leito marinho.

Sobre ele, uma bolsa flexível permaneceria submetida à pressão da água do oceano.

Quando carregado, o sistema teria água armazenada principalmente na bolsa.

Quando descarregado, a pressão externa do oceano comprimiria essa estrutura e empurraria a água para baixo, em direção ao reservatório.

No caminho, o fluxo atravessaria turbinas hidráulicas.

Em outras palavras, a eletricidade não ficaria armazenada dentro da água como acontece em uma bateria química.

Ela seria convertida em energia hidráulica associada à diferença de pressão e recuperada quando necessário.

Esta é a “Ocean Battery” (Bateria Oceânica), um sistema de armazenamento de energia desenvolvido pela empresa holandesa Ocean Grazer para funcionar no fundo do mar.

Reservatório submarino poderia guardar 20 milhões de litros

A versão apresentada publicamente em 2022 previa um reservatório subterrâneo com capacidade de até 20 milhões de litros, ou cerca de 20 mil metros cúbicos de água doce.

A Ocean Grazer estimava capacidade de armazenamento em torno de 10 MWh para uma unidade desse porte.

Na prática, 10 MWh representam energia suficiente para fornecer 10 MW durante uma hora, 1 MW durante dez horas ou outras combinações equivalentes, desconsiderando perdas.

A empresa defendia uma arquitetura modular.

Em vez de aumentar indefinidamente um único reservatório, seria possível instalar várias unidades subterrâneas.

Bombas e turbinas também poderiam ser acrescentadas de acordo com a potência necessária.

Essa diferença entre energia e potência é importante.

O tamanho dos reservatórios determina principalmente quanto pode ser armazenado, enquanto a quantidade e a capacidade das máquinas hidráulicas influenciam a rapidez com que o sistema consegue receber ou devolver eletricidade.

Um parque eólico poderia, em tese, combinar diversas unidades para acumular uma quantidade maior de energia durante períodos de vento forte.

Bexiga gigante usaria a própria pressão do mar

A imagem de uma bolsa gigante sendo esmagada pelo oceano pode sugerir que ela precisaria funcionar como um enorme tanque pressurizado.

O conceito é um pouco diferente.

Por ser flexível, a estrutura teria sua pressão interna próxima à pressão da água ao redor.

Isso evita que sua membrana tenha de resistir sozinha à diferença completa existente entre o fundo do mar e a atmosfera.

O componente submetido à diferença mais relevante seria o sistema que conecta essa água ao reservatório subterrâneo de baixa pressão.

É justamente essa diferença que faz a água querer retornar para baixo quando uma válvula é aberta.

Quanto maior a coluna de água sobre o sistema, maior pode ser a pressão disponível.

Por outro lado, instalar, construir e fazer manutenção em equipamentos em águas mais profundas também tende a aumentar a complexidade.

Um roteiro técnico divulgado pela Ocean Grazer previa testes em águas rasas e uma demonstração offshore ligada a parques eólicos, inicialmente em profundidades inferiores a 100 metros.

Energia excedente encheria a bolsa no fundo do mar

Parques eólicos enfrentam um problema que não depende apenas do tamanho das turbinas.

O vento pode produzir muita eletricidade em um momento em que o consumo está baixo ou a rede não possui capacidade suficiente para receber tudo.

Nessas situações, parte da geração pode precisar ser reduzida.

O Ocean Battery foi concebido para ficar próximo da fonte geradora e absorver parte desse excedente.

Quando houvesse eletricidade disponível, os motores acionariam as bombas e moveriam a água do reservatório enterrado para a bolsa flexível.

Esse movimento seria a etapa de carregamento.

Horas depois, com pouco vento ou maior consumo, válvulas permitiriam o retorno da água.

A pressão hidrostática exercida pelo oceano faria a bolsa diminuir de volume e empurraria a água pelas turbinas.

O sistema então devolveria eletricidade ao parque ou à rede.

A proposta também foi associada a instalações solares flutuantes e outras fontes marítimas de geração, embora a energia eólica offshore tenha sido sua aplicação mais evidente.

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Ocean Battery projetava eficiência entre 70% e 80%

Nenhum sistema de armazenamento devolve exatamente toda a eletricidade utilizada para carregá-lo.

Bombas, turbinas, tubulações, motores e geradores apresentam perdas.

A Ocean Grazer estimava para o Ocean Battery uma eficiência de ciclo completo entre 70% e 80%.

Isso significaria recuperar aproximadamente 70 a 80 unidades de energia para cada 100 utilizadas no carregamento, segundo as projeções da própria desenvolvedora.

A companhia também projetava vida operacional superior a 20 anos e destacava que o princípio hidráulico evitaria várias limitações relacionadas à degradação química encontrada em baterias eletroquímicas.

Protótipo do Ocean Battery foi testado em Eemshaven

A Ocean Battery não permaneceu apenas em desenhos de computador.

A Ocean Grazer desenvolveu um protótipo e realizou trabalhos de teste em Eemshaven, importante área portuária e energética no norte dos Países Baixos.

A Groningen Seaports registrou a preparação de uma estrutura experimental de aproximadamente 1.500 quilos para testes na região.

Em julho de 2021, a empresa apresentou publicamente resultados e o protótipo da tecnologia no porto.

Posteriormente, o projeto recebeu apoio europeu.

Em março de 2023, a Ocean Grazer anunciou a obtenção de € 2,5 milhões do EIC Accelerator, programa do Conselho Europeu de Inovação.

O projeto previa demonstrar um sistema operacional em escala real em um lago e validar instalação, funcionamento e manutenção.

Havia ainda um plano mais diretamente ligado à geração eólica offshore.

Documentos do governo holandês ligados ao parque Hollandse Kust West mencionaram uma Ocean Battery experimental de 2,5 MW de potência e 3 MWh de capacidade entre as tecnologias que seriam avaliadas na integração do sistema energético.

Era uma instalação menor do que a configuração de 10 MWh apresentada como referência para unidades maiores.

Parte do protótipo do Ocean Battery permanece submersa durante a fase experimental destinada a avaliar o funcionamento hidráulico do sistema. Crédito: Ocean Grazer/Divulgação.

Armazenamento ficaria perto das turbinas eólicas offshore

Uma vantagem perseguida pelo projeto era instalar armazenamento praticamente no mesmo lugar onde a energia seria produzida.

Os parques eólicos offshore ficam a dezenas de quilômetros da costa e precisam enviar grandes quantidades de eletricidade por cabos submarinos.

Se parte da geração pudesse ser armazenada no próprio ambiente marítimo, a energia poderia ser liberada em horários mais convenientes para a rede.

A proposta também evitava o uso de grandes quantidades de lítio, níquel ou outros materiais associados a determinadas baterias eletroquímicas.

Isso não tornava o projeto livre de impactos.

Reservatórios de concreto de grandes dimensões exigiriam matérias-primas, obras no leito marinho e equipamentos especializados.

As bolsas, tubulações e máquinas também precisariam resistir durante anos à água salgada e ao ambiente submarino.

Além disso, qualquer implementação comercial teria de avaliar interferências na fauna, no sedimento, em cabos, na pesca e em outras atividades marítimas.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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