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Enquanto árvores invasoras sugavam a água antes que ela chegasse aos rios e represas, África do Sul começou a derrubar pinheiros, eucaliptos e acácias em mais de 41 mil hectares e passou a recuperar 18,77 bilhões de litros por ano, transformando o corte de vegetação numa arma inesperada para proteger uma região castigada pela seca

Enquanto árvores invasoras sugavam a água antes que ela chegasse aos rios e represas, África do Sul começou a derrubar pinheiros, eucaliptos e acácias em mais de 41 mil hectares e passou a recuperar 18,77 bilhões de litros por ano, transformando o corte de vegetação numa arma inesperada para proteger uma região castigada pela seca

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Enquanto árvores invasoras sugavam a água antes que ela chegasse aos rios e represas, África do Sul começou a derrubar pinheiros, eucaliptos e acácias em mais de 41 mil hectares e passou a recuperar 18,77 bilhões de litros por ano, transformando o corte de vegetação numa arma inesperada para proteger uma região castigada pela seca

Escrito por Ana Alice

Publicado em 07/08/2026 às 21:30

Ciência e Tecnologia

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Cidade do Cabo remove árvores invasoras e recupera até 18,77 bilhões de litros de água por ano para reforçar rios, represas e aquíferos. (Imagem: Ilustrativa)

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Uma estratégia de restauração ambiental nas montanhas que abastecem a Cidade do Cabo mostra como retirar determinadas árvores invasoras pode alterar o balanço hídrico e devolver bilhões de litros ao sistema de abastecimento.

Cortar árvores para conseguir mais água parece contraditório, mas uma operação em andamento nas montanhas que abastecem a Cidade do Cabo mostra por que essa lógica pode funcionar quando a vegetação removida é invasora.

Desde abril de 2019, equipes retiraram plantas exóticas de dezenas de milhares de hectares e, segundo a prefeitura, a intervenção já representa aproximadamente 18,77 bilhões de litros adicionais de água por ano.

O volume equivale a cerca de 51 milhões de litros por dia.

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Não se trata de água produzida artificialmente nem armazenada em um novo reservatório.

O ganho ocorre porque pinheiros, eucaliptos e acácias invasoras consomem mais água do que a vegetação nativa e reduzem a quantidade que chega a rios, represas e sistemas subterrâneos.

O número atual também ajuda a atualizar a dimensão apresentada no título.

Em outubro de 2023, a The Nature Conservancy estimava que o trabalho já recuperava cerca de 15,2 bilhões de litros por ano.

Em março de 2026, a Cidade do Cabo elevou esse cálculo para 18,77 bilhões de litros anuais.

A estratégia ganhou força depois da crise hídrica que colocou a metrópole sul-africana perto do chamado “Dia Zero”, em 2018, quando autoridades chegaram a se preparar para a possibilidade de interromper o fornecimento residencial regular de água.

Desde então, a recuperação das bacias passou a integrar um conjunto mais amplo de medidas para reduzir a vulnerabilidade da cidade a novas secas.

Árvores invasoras alteraram o balanço hídrico das montanhas

A região montanhosa ao redor da Cidade do Cabo abriga o fynbos, vegetação nativa formada principalmente por arbustos adaptados ao clima mediterrâneo do extremo sul da África.

Ao longo dos séculos 19 e 20, porém, espécies estrangeiras foram introduzidas para diferentes finalidades, inclusive produção de madeira.

Entre elas estavam pinheiros, eucaliptos e acácias, frequentemente chamadas localmente de pine, gum e wattle.

Parte dessas árvores escapou das áreas onde havia sido plantada e começou a ocupar encostas, vales e áreas de captação.

O problema não está simplesmente em serem árvores.

A questão é que algumas dessas espécies crescem rapidamente, desenvolvem raízes extensas e apresentam consumo de água muito superior ao da vegetação nativa que substituem.

A água absorvida pela vegetação retorna em parte à atmosfera pela evapotranspiração.

Quando espécies de grande porte e alto consumo ocupam áreas que originalmente eram dominadas por plantas menores e adaptadas a ambientes relativamente secos, menos água pode permanecer disponível para alimentar cursos d’água, reservatórios e recarga subterrânea.

É por isso que retirar determinadas árvores pode aumentar a disponibilidade hídrica, embora o mesmo raciocínio não possa ser aplicado de maneira indiscriminada a florestas nativas.

Equipe remove vegetação exótica invasora na bacia de Wemmershoek, uma das áreas responsáveis pelo abastecimento de água da região da Cidade do Cabo. Crédito: Ashraf Hendricks/GroundUp.

Mais de 41 mil hectares receberam a primeira limpeza

Em 17 de março de 2026, a Cidade do Cabo informou que 41.306 hectares de plantas exóticas invasoras haviam sido removidos desde abril de 2019 nas sub-bacias consideradas prioritárias para o abastecimento dos grandes reservatórios metropolitanos.

O trabalho não termina quando uma árvore é cortada.

Muitas espécies invasoras produzem grandes quantidades de sementes, e novas mudas podem aparecer após a primeira intervenção.

Por isso, as equipes retornam às áreas tratadas.

No mesmo período, foram contabilizados 50.644 hectares de operações de acompanhamento, destinadas principalmente a controlar rebrotas e novas plântulas e impedir que a vegetação invasora recupere o espaço perdido.

Esses números não significam necessariamente que 91.950 hectares diferentes tenham sido limpos.

Parte da área aparece mais de uma vez porque um mesmo trecho precisa receber manutenção depois da retirada inicial.

A repetição é fundamental para que o benefício hídrico não desapareça alguns anos depois.

Equipes usam cordas para alcançar árvores em encostas íngremes

Algumas áreas prioritárias ficam em regiões montanhosas de acesso difícil.

A The Nature Conservancy relata operações nas quais técnicos especializados em trabalho em altura precisam entrar nas montanhas, permanecer vários dias no campo e utilizar cordas para alcançar pinheiros instalados em encostas íngremes.

Em determinados pontos, equipes e equipamentos são transportados de helicóptero.

O desafio é justamente remover árvores capazes de espalhar sementes por longas distâncias em terrenos nos quais máquinas convencionais não conseguiriam operar.

O projeto concentra esforços em diferentes bacias das Cape Mountains que alimentam reservatórios utilizados pela região metropolitana.

A meta originalmente analisada pelo Greater Cape Town Water Fund abrangia 54.300 hectares em sete áreas de captação prioritárias.

Técnicos especializados em trabalho com cordas atuam nas montanhas próximas à Cidade do Cabo para controlar pinheiros invasores em áreas de difícil acesso. Crédito: Roshni Lodhia/The Nature Conservancy.

Crise do “Dia Zero” acelerou a recuperação das bacias

A urgência ficou evidente durante a grande seca que atingiu a Cidade do Cabo entre 2015 e 2018.

Os níveis dos reservatórios caíram tanto que o município desenvolveu planos para o chamado “Day Zero”, momento em que o sistema convencional de abastecimento residencial poderia ser severamente restringido.

O cenário extremo acabou não se concretizando.

Restrições rígidas ao consumo, redução de água destinada à agricultura, novas fontes de abastecimento e a volta das chuvas permitiram que a cidade escapasse do pior cenário.

A crise, porém, expôs a dependência dos reservatórios e acelerou a busca por alternativas.

Foi nesse contexto que, no fim de 2018, surgiu o Greater Cape Town Water Fund, parceria que reúne setor público, organizações ambientais, financiadores privados e outros participantes.

A iniciativa é liderada pela The Nature Conservancy em colaboração com parceiros de conservação, enquanto a Cidade do Cabo participa das operações por meio de sua Diretoria de Água e Saneamento.

Recuperar água sem construir uma nova represa

A lógica econômica foi uma das razões para a estratégia receber atenção internacional.

Um estudo elaborado para o Greater Cape Town Water Fund em 2018 concluiu que recuperar as áreas de captação por meio da remoção de invasoras poderia ser várias vezes mais barato, por metro cúbico obtido, do que determinadas alternativas de infraestrutura pesada.

A comparação envolve abordagens muito diferentes.

Uma usina de dessalinização precisa de obras, sistemas de tratamento e energia para transformar água do mar em água adequada ao consumo.

Poços dependem da disponibilidade e gestão dos aquíferos.

Novas barragens exigem locais adequados, licenciamento, grandes investimentos e anos de construção.

A remoção de invasoras tenta atuar antes disso.

Em vez de criar uma nova fonte, o objetivo é impedir que parte da água existente seja perdida antes de chegar ao sistema.

Isso não significa que a Cidade do Cabo esteja apostando exclusivamente nas montanhas.

A própria prefeitura afirma que a recuperação das bacias complementa projetos de extração de água subterrânea, recarga controlada de aquíferos, reutilização de água tratada e futuras iniciativas de dessalinização dentro do New Water Programme.

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Como o ganho de bilhões de litros é calculado

Os 18,77 bilhões de litros não devem ser interpretados como um reservatório no qual alguém tenha contado diretamente cada litro recuperado.

O benefício é calculado a partir da área tratada, das características da vegetação removida e de dados hidrológicos utilizados para acompanhar como os cursos d’água respondem à intervenção.

A The Nature Conservancy mantém um sistema chamado Decision Support System, que reúne informações operacionais das equipes e dados de monitoramento das bacias.

Em locais experimentais, equipamentos eletrônicos registram continuamente o fluxo de água.

Pesquisadores comparam áreas e acompanham a resposta dos rios depois da remoção das invasoras para verificar se os ganhos previstos nos modelos realmente aparecem no ambiente.

Segundo a organização, essas medições vêm sustentando a hipótese de que a retirada das espécies aumenta o fluxo disponível.

Por isso, a expressão “recuperar água” significa, tecnicamente, reduzir uma perda provocada pela vegetação invasora e aumentar o volume que permanece no sistema hidrológico.

Estimativa subiu de 15,2 para 18,77 bilhões de litros por ano

Os resultados foram aumentando conforme novas áreas receberam intervenção.

A The Nature Conservancy informou que, em outubro de 2023, mais de 46 mil hectares haviam sido trabalhados no âmbito mais amplo do programa e que o benefício calculado alcançava cerca de 15,2 bilhões de litros anuais, ou 42 milhões de litros por dia.

Já a atualização oficial da prefeitura, publicada em março de 2026, aponta 18,77 bilhões de litros por ano e aproximadamente 51 milhões de litros por dia.

As diferenças entre números de hectares divulgados em relatórios distintos decorrem também do período analisado, do tipo de operação contabilizada e do escopo de cada programa.

O relatório anual integrado de 2024/25 da Cidade do Cabo, por exemplo, registrava 63 mil hectares de vegetação invasora removida dentro de seu acompanhamento e um retorno estimado de 48 milhões de litros por dia ao sistema.

Para o dado mais recente específico sobre o esforço publicado em março de 2026, a referência da prefeitura é 18,77 bilhões de litros por ano.

Sem controle, espécies invasoras poderiam consumir ainda mais água

O problema poderia crescer caso as plantas fossem deixadas sem manejo.

Estudos anteriores da Cidade do Cabo estimaram que a expansão das invasoras já reduzia significativamente a quantidade de água que alcançava rios e barragens e que o prejuízo aumentaria com o avanço dessas espécies.

O estudo de viabilidade do Water Fund projetou que a remoção das invasoras nas áreas prioritárias poderia recuperar dezenas de bilhões de litros por ano ao longo do programa.

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Ana Alice

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A estimativa inicial chegava a aproximadamente 55 bilhões de litros anuais nos primeiros anos, com potencial de benefícios ainda maiores no longo prazo caso as áreas permanecessem livres das espécies invasoras.

Essas projeções não devem ser confundidas com os resultados já alcançados.

Os 18,77 bilhões de litros por ano divulgados em 2026 representam o benefício calculado na fase atual, enquanto números como 55 bilhões ou 100 bilhões correspondem a cenários projetados para uma implantação mais ampla e contínua.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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