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Enquanto escavava o chão para levantar 581 torres de energia entre Paraná e São Paulo, uma obra de 275 km acabou atravessando milhões de anos de história e desenterrou 2.655 rochas recheadas de fósseis, ossos de Mesosaurus, conchas e plantas preservadas em cinco formações geológicas
Escrito por Ana Alice
Publicado em 06/08/2026 às 23:01
Ciência e Tecnologia
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Uma obra de transmissão de energia entre Paraná e São Paulo revelou milhares de amostras fossilíferas, abrindo uma sequência rara de janelas para ambientes marinhos, rios e paisagens preservadas ao longo de milhões de anos.
A abertura de fundações para erguer centenas de torres de transmissão entre Paraná e São Paulo acabou expondo algo muito mais antigo do que a própria paisagem atual.
Entre abril de 2025 e janeiro de 2026, paleontólogos acompanharam as escavações e recolheram 2.655 amostras de rochas com fósseis, algumas capazes de guardar vários vestígios em uma única peça.
O material apareceu durante a implantação da Linha de Transmissão Ananaí 500 kV Ponta Grossa–Assis, empreendimento controlado pela Taesa.
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São 275 quilômetros de extensão, 581 torres e 13 municípios atravessados entre os dois estados, em um traçado que corta terrenos conhecidos pelo potencial paleontológico.
A quantidade não significa que apenas 2.655 organismos tenham sido encontrados.
Cada amostra corresponde a um fragmento de rocha catalogado e pode conter um fóssil isolado ou diversos vestígios microscópicos e macroscópicos.
Entre os materiais relatados pelas equipes estão peixes, invertebrados, conchas, plantas e outros organismos preservados em rochas formadas há centenas de milhões de anos.
A paleontóloga Joyce Celerino de Carvalho, que participou do trabalho de campo, também relatou fragmentos atribuídos a ossos de Mesosaurus.
O acervo foi encaminhado à Universidade Estadual de Ponta Grossa, a UEPG, onde passa por catalogação e análise no Laboratório de Estratigrafia e Paleontologia.
A universidade informa que a maior parte das amostras preserva organismos de ambientes marinhos antigos, além de registros de peixes e materiais de água doce encontrados em áreas como Ibaiti.
Escavações das torres abriram janelas para milhões de anos
Para instalar uma torre de transmissão, a obra precisa intervir no terreno e abrir fundações capazes de sustentar estruturas de grande porte.
Em áreas sedimentares, esse movimento pode remover camadas que permaneceram enterradas e praticamente inacessíveis durante milhões de anos.
Foi justamente nesses pontos que os paleontólogos concentraram parte do acompanhamento.
O traçado da linha atravessa cinco formações geológicas com potencial fossilífero: Furnas, Ponta Grossa, Teresina, Rio do Rasto e Botucatu.
Cada uma registra capítulos diferentes da história geológica da Bacia do Paraná.
Na prática, uma obra linear com centenas de quilômetros funciona de maneira diferente de uma escavação concentrada em um único sítio paleontológico.
Conforme as equipes avançam, elas encontram sucessivas exposições de rochas, permitindo comparar materiais preservados em diferentes locais.
Henrique Zimmermann Tomassi, paleontólogo que coordenou o salvamento, explicou que mapas geológicos permitem identificar antecipadamente trechos com maior chance de conter fósseis.
A presença de rochas sedimentares não garante que um fóssil aparecerá em cada escavação.
No entanto, conhecer a geologia do percurso permite planejar onde o acompanhamento precisa ser mais atento.
Uma amostra pode esconder dezenas ou centenas de fósseis
O número de 2.655 precisa ser entendido como quantidade de amostras coletadas, e não como contagem definitiva de fósseis individuais.
Uma pequena placa de rocha pode preservar inúmeras estruturas.
Em outros casos, o material encontrado é um fragmento isolado de concha, osso, planta ou impressão deixada por algum organismo.
Isso significa que a quantidade real de fósseis presentes no conjunto pode ser muito superior ao número de peças retiradas do campo.
Reportagens sobre o programa citam trilobitas, braquiópodes, moluscos bivalves, gastrópodes, tentaculites, peixes, plantas primitivas e marcas produzidas pela atividade de organismos nos sedimentos.
A diversidade também dificulta uma identificação imediata no canteiro.
O trabalho de campo serve para reconhecer, registrar e retirar o material sem perder informações essenciais.
A determinação precisa da espécie, idade e ambiente normalmente exige preparação e estudo posterior em laboratório.
Por isso, cada peça é associada aos dados do ponto onde foi encontrada.
A localização pode ser tão importante quanto o próprio fóssil.
Sem saber de qual camada e de qual região veio determinado vestígio, parte significativa de seu valor científico desaparece.
Assista o vídeo
Peixes e conchas revelam antigos mares da Bacia do Paraná
Hoje, Ponta Grossa está a centenas de quilômetros do Oceano Atlântico.
As rochas da região, porém, registram épocas em que a geografia da América do Sul era completamente diferente.
A UEPG informa que boa parte do novo acervo contém fósseis ligados à vida marinha, incluindo invertebrados e peixes.
Henrique Zimmermann destaca que as próprias características das rochas ajudam a mostrar que a região de Ponta Grossa esteve no fundo de um mar por volta de 390 milhões a 400 milhões de anos atrás.
A universidade aponta materiais dos períodos Devoniano, Carbonífero e Permiano.
Esses nomes representam intervalos enormes da história terrestre.
O Devoniano começou há mais de 400 milhões de anos, enquanto o Permiano terminou há cerca de 252 milhões de anos, muito antes do aparecimento dos primeiros seres humanos.
Foi nesse intervalo de tempo que diferentes ambientes marinhos e continentais deixaram marcas nas rochas da Bacia do Paraná.
Uma concha fossilizada, portanto, não é apenas uma concha antiga.
Quando analisada junto ao sedimento, à camada geológica e aos demais organismos encontrados ao redor, ela pode ajudar a reconstruir temperatura, profundidade, salinidade e condições ambientais de um ecossistema desaparecido.
Ibaiti surpreendeu com fósseis de plantas
Entre os locais citados pelos pesquisadores, Ibaiti, no Paraná, chamou atenção pela quantidade de fósseis vegetais.
Joyce Celerino de Carvalho relatou que o volume de plantas preservadas superou o que a equipe esperava encontrar com base no conhecimento disponível anteriormente para aquela área.
Um dos exemplares que mais chamou sua atenção parecia, à primeira vista, apenas uma rocha coberta por pequenos pontos escuros.
Sob ampliação, os pontos revelavam estruturas fossilizadas relacionadas à parte reprodutiva de uma planta.
A UEPG também destacou a ocorrência de materiais de ambientes de água doce na região de Ibaiti, especialmente registros associados a algas.
Achados assim podem ampliar o conhecimento sobre uma localidade mesmo quando a formação geológica já é conhecida pelos pesquisadores.
A importância não depende necessariamente de encontrar um animal grande ou visualmente impressionante.
Fragmentos microscópicos podem fornecer informações que um esqueleto maior não preservou.
Mesosaurus viveu muito antes dos dinossauros
Entre os materiais relatados durante o acompanhamento de campo estão fragmentos de ossos atribuídos a Mesosaurus, um pequeno réptil aquático que viveu durante o Permiano.
O animal é especialmente conhecido pela paleontologia porque fósseis de mesossaurídeos encontrados na América do Sul e na África ajudaram a fornecer evidências históricas de que os continentes estiveram unidos no passado.
Mesossauros viveram dezenas de milhões de anos antes dos grandes dinossauros que dominariam os ambientes terrestres durante o Mesozóico.
O material recolhido na linha de transmissão ainda precisa passar pelas etapas de curadoria e estudo antes que cada fragmento possa ser descrito cientificamente em detalhes.
Por isso, a existência do acervo não significa que todas as peças já tenham identificação taxonômica definitiva.
Acompanhamento paleontológico evitou perda de fósseis
A descoberta não foi um acidente completamente inesperado.
Como o empreendimento atravessa terrenos com potencial fossilífero conhecido, o licenciamento ambiental estabeleceu medidas para monitoramento e salvamento durante as intervenções no solo.
A Linha Ponta Grossa–Assis recebeu licença de instalação do Ibama em 27 de novembro de 2024.
No primeiro trimestre de 2026, o projeto Ananaí como um todo apresentava avanço físico de 93,3%, segundo informações financeiras da Taesa.
A MRS Ambiental atuou no acompanhamento ambiental e contou, no programa paleontológico, com a consultoria especializada da Nasor Paleontologia e Geologia.
A própria Nasor registra o projeto Ponta Grossa–Assis entre os trabalhos executados em parceria com a MRS para a Taesa.
Mais de 200 trabalhadores envolvidos no empreendimento também receberam orientação para reconhecer possíveis indícios fossilíferos durante a rotina do canteiro.
Esse treinamento aumenta a chance de uma peça ser identificada antes de sofrer danos provocados por máquinas, escavações ou movimentação de solo.
Assista o vídeo
Salvamento paleontológico protege patrimônio durante obras
No Brasil, a retirada de fósseis é controlada pela Agência Nacional de Mineração.
A ANM define o salvamento paleontológico como uma coleta destinada a reduzir o risco de destruição ou dano irreversível de fósseis em depósitos ameaçados por intervenções.
A autorização ou comunicação da extração é feita pelo sistema de Controle da Pesquisa Paleontológica, o COPAL.
A lógica é simples: quando uma estrada, barragem, mineração ou linha de transmissão vai remover uma camada fossilífera, deixar o material exatamente onde está pode não representar preservação.
Se a escavação vai destruir aquele ponto, o fóssil precisa ser retirado, documentado e encaminhado para uma coleção científica antes da passagem das máquinas.
Zimmermann resume essa preocupação ao afirmar que um fóssil deixado em uma área que será destruída pela obra pode jamais ser estudado.
Ao mesmo tempo, recolher tudo sem registrar o contexto também reduziria o valor científico.
Por isso, as equipes anotam coordenadas, posição, características das rochas e outras informações associadas às amostras.
UEPG transforma as rochas em coleção científica
Depois do campo, começa uma etapa muito menos visível.
As peças precisam ser limpas quando necessário, identificadas, numeradas, registradas e acondicionadas de forma adequada.
Na UEPG, esse trabalho está ligado ao Laboratório de Estratigrafia e Paleontologia e ao Museu de Ciências Naturais.
O professor Élvio Bosetti, responsável pela curadoria paleontológica na instituição, explicou que o material precisa ser tombado e organizado antes de ficar disponível para a comunidade científica.
A catalogação poderá revelar quais amostras merecem estudos mais aprofundados.
Algumas podem confirmar espécies já conhecidas em determinados estratos.
Outras podem ampliar a distribuição geográfica de organismos ou indicar que um ambiente antigo era diferente do que os pesquisadores imaginavam.
A quantidade de material torna esse processo demorado.
As 2.655 rochas não representam o fim da descoberta, mas o início de milhares de análises possíveis.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

