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Espanha importou 2 toneladas de um lagostim dos Estados Unidos em 1974 para impulsionar a economia rural; 50 anos depois, a espécie domina rios, ameaça a biodiversidade, movimenta milhões de euros e especialistas dizem que ela nunca mais poderá ser eliminada
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 04/08/2026 às 12:52
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Cinco décadas após a introdução de apenas duas toneladas do lagostim-vermelho-americano no sul da Espanha para estimular a economia regional, pesquisadores confirmam que a espécie se tornou uma das invasões biológicas mais impactantes da Europa, alterando ecossistemas, afetando a fauna nativa e criando uma atividade econômica que hoje movimenta milhões de euros todos os anos.
Há exatamente cinco décadas, uma decisão que parecia promissora para o desenvolvimento econômico do sul da Espanha acabou produzindo um dos maiores desastres ambientais da história do país. Em 1974, cerca de 2 toneladas do lagostim-vermelho-americano (Procambarus clarkii) foram importadas do estado da Louisiana, nos Estados Unidos, para abastecer projetos de aquicultura na região da Andaluzia. Segundo informações publicadas pelo Times of India, especialistas afirmam que a espécie se espalhou de forma irreversível pela bacia do rio Guadalquivir e, atualmente, sua erradicação é considerada tecnicamente impossível.
O que começou como uma aposta para fortalecer a economia rural rapidamente se transformou em uma invasão biológica de enormes proporções. Hoje, o crustáceo ocupa rios, canais de irrigação, áreas agrícolas e zonas úmidas protegidas, altera o equilíbrio ecológico, ameaça espécies nativas e, ao mesmo tempo, sustenta uma indústria milionária baseada em sua captura e processamento.
A trajetória do lagostim-vermelho-americano demonstra como uma única decisão pode provocar impactos ambientais que atravessam gerações e obrigam governos, cientistas e comunidades locais a conviver com consequências praticamente irreversíveis.
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Como apenas 2 toneladas deram início a uma invasão sem precedentes
Na primavera de 1974, o aristocrata e pecuarista Andrés Bores Saavedra importou aproximadamente 2.000 quilos da espécie diretamente da Louisiana. O objetivo era relativamente simples: criar um animal de rápido crescimento em viveiros controlados próximos ao município de La Puebla del Río, impulsionar a economia da Andaluzia e apresentar um novo produto gastronômico ao mercado espanhol.
Entretanto, o plano saiu completamente do controle.
O lagostim conseguiu escapar rapidamente dos viveiros de criação e encontrou condições ideais para se estabelecer na natureza. Ao contrário do que muitos imaginavam, a espécie possui características extremamente favoráveis à sobrevivência.
Entre elas estão:
- capacidade de caminhar sobre terra firme durante longos percursos;
- habilidade para cavar galerias subterrâneas com mais de um metro de profundidade;
- resistência a ambientes com baixa concentração de oxigênio;
- sobrevivência durante longos períodos de seca;
- reprodução extremamente acelerada.
Cada fêmea pode produzir até 500 ovos em uma única postura. Como praticamente não existiam predadores naturais capazes de controlar sua população naquele momento, o crescimento ocorreu em velocidade impressionante.
As enchentes sazonais da bacia do rio Guadalquivir ajudaram a transportar milhares de indivíduos para canais de irrigação, arrozais e áreas úmidas do famoso Parque Nacional de Doñana, considerado um dos ambientes naturais mais importantes da Europa.
As primeiras tentativas de conter o avanço incluíram armadilhas e tratamentos químicos. No entanto, sempre que parte da população era eliminada, os sobreviventes voltavam a se reproduzir rapidamente, recolonizando as áreas afetadas em pouco tempo.
Outro fator decisivo para o sucesso da invasão é sua extraordinária resistência.
Durante os meses mais secos do verão espanhol, quando muitas lagoas praticamente desaparecem, os lagostins entram em tocas profundas escavadas na lama. Ali permanecem por vários meses em estado de atividade metabólica reduzida até que as chuvas do outono restabeleçam os corpos d’água.
Essa estratégia permite que sobrevivam mesmo em condições ambientais extremamente adversas, tornando praticamente impossível sua eliminação completa.
O impacto sobre a biodiversidade foi devastador
Os efeitos ecológicos apareceram rapidamente.
Além de competir por alimento com diversas espécies locais, os lagostins chegaram carregando um perigoso fungo aquático conhecido como Aphanomyces astaci, responsável pela chamada “peste do lagostim”.
Enquanto o invasor praticamente não sofre efeitos da doença, o patógeno devastou populações do lagostim-branco-europeu (Austropotamobius pallipes), espécie nativa que praticamente desapareceu da bacia do Guadalquivir.
O problema, porém, não parou por aí.
Como são animais onívoros extremamente agressivos, passaram a consumir grande parte da vegetação submersa existente nos lagos e rios. A redução dessas plantas diminuiu significativamente a oferta de alimento e abrigo para peixes, anfíbios, insetos aquáticos e diversos outros organismos.
Estudos realizados pelo Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC) identificaram fortes reduções nas populações de besouros aquáticos, libélulas e peixes nativos, incluindo o raro fartet (Aphanius iberus), depois da rápida expansão da espécie invasora.
Além disso, enquanto procuram alimento, esses crustáceos revolvem constantemente o sedimento do fundo dos rios. Como consequência, a água antes cristalina torna-se turva, dificultando a entrada de luz solar, reduzindo a fotossíntese das plantas aquáticas e favorecendo grandes florações de microalgas.
Outro problema importante está relacionado às galerias subterrâneas escavadas pelos animais.
Os túneis enfraquecem diques utilizados para proteger arrozais e sistemas de irrigação, aumentando perdas de água e elevando os prejuízos agrícolas. Nos primeiros anos da invasão, produtores relataram danos significativos às plantações após os lagostins cortarem brotos jovens de arroz e comprometerem a estabilidade das margens inundadas.
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A natureza encontrou uma forma de adaptação
Apesar dos enormes prejuízos ambientais registrados nas primeiras décadas da invasão, a própria natureza começou, aos poucos, a responder à presença do lagostim-vermelho-americano.
Diversas espécies de aves passaram a utilizá-lo como uma importante fonte de alimento. Garças-reais, colhereiros, cegonhas-brancas e até a ameaçada águia-imperial-ibérica passaram a capturar grandes quantidades desses crustáceos, principalmente durante períodos prolongados de seca, quando outras presas se tornam escassas.
Mamíferos carnívoros também alteraram seus hábitos alimentares. A lontra-europeia e o ameaçado lince-ibérico incorporaram o lagostim à dieta, aproveitando a enorme disponibilidade da espécie ao longo dos rios e áreas alagadas da Andaluzia.
Embora essa adaptação tenha reduzido parte dos impactos sobre a cadeia alimentar, ela não foi suficiente para controlar a expansão da população invasora.
Pelo contrário: especialistas afirmam que a espécie continua amplamente distribuída e permanece como um dos maiores desafios ambientais enfrentados pela Espanha.
De praga ambiental a indústria milionária
Enquanto cientistas buscavam formas de conter a invasão, as comunidades locais encontraram uma oportunidade econômica.
O município de Isla Mayor, localizado na província de Sevilha, transformou-se no principal centro europeu de captura e processamento do lagostim-vermelho-americano.
Na década de 1980, a atividade já havia se consolidado como uma importante cadeia produtiva. Atualmente, milhares de toneladas são capturadas todos os anos, abastecendo tanto o mercado espanhol quanto diversos países do norte da Europa.
Grande parte da produção segue para Suécia e Finlândia, onde o crustáceo é consumido nas tradicionais festas de verão dedicadas ao lagostim, realizadas anualmente.
A indústria instalada em Isla Mayor movimenta milhões de euros, gera centenas de empregos diretos e indiretos e sustenta pescadores, operadores de armadilhas, embarcações e fábricas responsáveis pelo beneficiamento do produto.
Esse crescimento econômico acabou criando um cenário bastante incomum.
Ao mesmo tempo em que o lagostim é considerado uma das espécies invasoras mais prejudiciais da Europa, ele também representa uma das principais fontes de renda para diversas famílias da região.
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A batalha judicial mudou o futuro da espécie
O conflito entre conservação ambiental e economia chegou aos tribunais em 2016.
Naquele ano, a Suprema Corte da Espanha incluiu oficialmente o Procambarus clarkii no Catálogo Espanhol de Espécies Exóticas Invasoras.
Na prática, a decisão proibia a venda, o transporte e a posse de exemplares vivos, ameaçando paralisar completamente toda a cadeia econômica construída ao longo de décadas.
A reação foi imediata.
Empresários, pescadores e moradores das áreas alagadas alertaram que milhares de empregos poderiam desaparecer caso a decisão fosse mantida integralmente.
Diante da forte pressão social e econômica, o Parlamento espanhol promoveu alterações na Lei do Patrimônio Natural.
As mudanças passaram a permitir a captura comercial do lagostim-vermelho, desde que fossem obedecidas rígidas normas sanitárias e industriais.
Uma das principais exigências determina que os animais vivos sejam processados imediatamente após a captura, evitando seu transporte para regiões onde ainda não estão presentes e reduzindo o risco de novas introduções.
Cientistas reconhecem que a erradicação é impossível
Cinquenta anos após a importação das primeiras duas toneladas vindas da Louisiana, pesquisadores e órgãos responsáveis pela gestão ambiental chegaram praticamente ao mesmo consenso.
Eliminar completamente o lagostim-vermelho-americano da bacia do rio Guadalquivir deixou de ser uma meta viável.
A extraordinária capacidade de reprodução, a resistência a condições ambientais extremas, a facilidade de dispersão e a ampla ocupação dos ambientes aquáticos fazem com que qualquer tentativa de erradicação seja considerada tecnicamente inviável.
Hoje, o desafio consiste em reduzir seus impactos ecológicos enquanto se administra uma atividade econômica que depende diretamente da presença da espécie.
O caso tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos do mundo sobre como a introdução de uma espécie exótica pode provocar consequências permanentes para a biodiversidade, a economia e a gestão ambiental de um país.
Conforme destacou a reportagem publicada pelo Times of India, o lagostim-vermelho-americano deixou de ser apenas uma espécie invasora. Meio século depois de sua chegada à Espanha, tornou-se parte de uma realidade que especialistas consideram irreversível: um delicado equilíbrio entre conservação da natureza e sobrevivência econômica das comunidades locais.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

