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Estudante de 24 anos recebe uma ligação dizendo que sua medula é 100% compatível com a de um desconhecido, atravessa 2.199 km de Lins a Recife em plena pandemia e entra no hospital para doar sem sequer saber quem estava do outro lado esperando para viver

Estudante de 24 anos recebe uma ligação dizendo que sua medula é 100% compatível com a de um desconhecido, atravessa 2.199 km de Lins a Recife em plena pandemia e entra no hospital para doar sem sequer saber quem estava do outro lado esperando para viver

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Estudante de 24 anos recebe uma ligação dizendo que sua medula é 100% compatível com a de um desconhecido, atravessa 2.199 km de Lins a Recife em plena pandemia e entra no hospital para doar sem sequer saber quem estava do outro lado esperando para viver

Escrito por Valdemar Medeiros

Publicado em 26/08/2026 às 10:25

Curiosidades

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Giovanna esperou quatro anos no REDOME até descobrir um paciente compatível, viajou mais de 2 mil km até Recife e doou medula a uma desconhecida. – unisalesiano

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Giovanna esperou quatro anos no REDOME até descobrir um paciente compatível, viajou mais de 2 mil km até Recife e doou medula a uma desconhecida.

Em 2021, a estudante de Psicologia Giovanna Venarusso Crosara, então com 24 anos, deixou Lins, no interior de São Paulo, e viajou até Recife, em Pernambuco, para realizar uma doação que havia começado com um simples cadastro quatro anos antes. Conforme relataram as Faculdades Integradas de Bauru e o UniSALESIANO, Giovanna havia entrado para o Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea, o REDOME, em 2016 e só recebeu a ligação decisiva em outubro de 2020: existia um paciente com potencial compatibilidade genética.

Depois de novos exames, a compatibilidade foi confirmada em dezembro. Em janeiro de 2021, em plena pandemia de Covid-19, Giovanna percorreu mais de 2 mil quilômetros entre Lins e Recife, acompanhada pela mãe, foi internada no dia 24 e realizou a coleta na manhã de 25 de janeiro. Naquele momento, ela não sabia o nome, o rosto nem praticamente qualquer detalhe sobre a pessoa que receberia suas células. Sabia apenas que, em algum lugar, havia alguém dependendo de um transplante para continuar o tratamento.

Tudo começou com uma campanha que Giovanna encontrou em 2016

A história não começou em um hospital de Recife, mas em uma campanha relativamente simples realizada em Bauru, no interior paulista.

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Em 15 de agosto de 2016, Giovanna viu uma divulgação sobre uma ação de doação de sangue e cadastramento de potenciais doadores de medula organizada pelas Faculdades Integradas de Bauru em parceria com o Hemonúcleo Regional de Jaú, ligado ao Hospital Amaral Carvalho. No dia seguinte, 16 de agosto, ela compareceu para realizar o cadastro no REDOME.

Naquele momento, nada garantia que um dia faria uma doação efetiva. O cadastro significa que características genéticas do voluntário passam a integrar uma base utilizada para localizar possíveis combinações com pacientes que precisam de transplante e não encontraram um doador adequado na família.

O próprio REDOME ressalta que muitos cadastrados passam anos sem receber qualquer ligação e alguns nunca chegam a doar, justamente porque encontrar uma combinação genética apropriada é difícil.

Quatro anos se passaram até o telefone tocar

Depois do cadastro, a vida continuou. Giovanna mudou de endereço mais de uma vez e posteriormente passou a estudar Psicologia no UniSALESIANO, em Lins. Um detalhe aparentemente burocrático, contudo, acabaria sendo fundamental: ela manteve seus dados atualizados no REDOME.

Isso importa porque, quando aparece uma potencial compatibilidade, o registro precisa localizar rapidamente o voluntário. O REDOME recomenda explicitamente que telefone, endereço e demais contatos sejam mantidos atualizados durante todo o período em que o cadastro permanece ativo.

Em outubro de 2020, cerca de quatro anos depois da inscrição, finalmente veio a ligação.

Um representante do registro informou que havia surgido a possibilidade de compatibilidade com um paciente.

A primeira ligação ainda não significava que a doação aconteceria

Ser localizado pelo REDOME não significa que a pessoa partirá imediatamente para um hospital.

A primeira identificação é apenas uma etapa do processo. Quando o sistema encontra uma possível correspondência genética, novos exames são necessários para verificar se a compatibilidade realmente é adequada e se o voluntário permanece em condições de doar.

Foi exatamente o que aconteceu com Giovanna.

Ela precisou realizar uma nova bateria de exames, incluindo coleta de sangue. Conforme seu relato posterior, chegou a se deslocar até o hemocentro de Marília para cumprir parte dessa etapa.

Somente em dezembro de 2020 a compatibilidade foi confirmada.

A notícia transformava uma inscrição feita quase sem expectativa concreta em 2016 em uma decisão muito real quatro anos depois.

Giovanna tinha 24 anos e não sabia quem precisava dela

Havia uma peculiaridade importante: doador e receptor não eram parentes e, naquele momento, não podiam simplesmente trocar informações pessoais.

Giovanna não sabia quem era a pessoa compatível. Não conhecia idade, rosto ou história completa do paciente e tampouco tinha contato direto com quem receberia as células.

As reportagens publicadas na época descreviam a compatibilidade como 100%. O dado reforçava o caráter incomum daquela combinação genética encontrada entre duas pessoas sem vínculo familiar conhecido.

Mesmo diante da distância e da incerteza, a estudante decidiu continuar.

A viagem colocou mais de 2 mil quilômetros entre doadora e hospital

O procedimento não seria realizado em São Paulo.

Giovanna precisava chegar a Recife, onde aconteceria o transplante. O UniSALESIANO registrou uma distância de 2.199 quilômetros, enquanto outras publicações da época mencionaram aproximadamente 2.700 quilômetros conforme a rota considerada. Para evitar distorção, o dado seguro é que a viagem superou 2 mil quilômetros.

O deslocamento aconteceu em janeiro de 2021, quando o Brasil ainda enfrentava uma fase severa da pandemia de Covid-19.

A distância, a bateria de exames e o receio demonstrado por alguns familiares não fizeram Giovanna desistir. Ela viajou acompanhada da mãe, com despesas ligadas ao processo organizadas pelo programa REDOME/SUS.

Ela entrou no hospital em 24 de janeiro

Já em Recife, houve nova avaliação médica antes da coleta.

Giovanna contou posteriormente que foi internada em 24 de janeiro de 2021. Na manhã seguinte, depois de conversar com a equipe médica e com a anestesista, recebeu sedação e foi encaminhada para o procedimento.

A coleta utilizada no caso foi realizada em centro cirúrgico. O INCA explica que uma das formas de doação de células-tronco hematopoéticas ocorre por punções na região da bacia, sob anestesia, com internação hospitalar geralmente curta. Existe também outro método realizado por aférese, cuja indicação depende da avaliação médica.

Quando Giovanna acordou na recuperação, a coleta já havia terminado.

O desconforto não fez a estudante se arrepender

Nos dias seguintes houve dor e incômodo, algo que havia sido explicado previamente pelos profissionais.

Giovanna relatou que sentiu desconforto em alguns momentos, mas considerou a recuperação tranquila e disse que medicamentos ajudaram a controlar os sintomas. Meses depois, afirmou que repetiria a experiência.

Durante os momentos de dor, ela disse ter pensado justamente na pessoa que receberia as células.

Segundo seu relato publicado na época, imaginava que o paciente provavelmente havia enfrentado dificuldades muito maiores ao longo do tratamento. Essa comparação servia como motivação para relativizar o desconforto temporário provocado pela doação.

A avaliação final foi simples: o incômodo era limitado diante da possibilidade de ajudar alguém que necessitava de transplante.

Compatibilidade depende de características genéticas HLA

A raridade da história fica mais clara quando se entende o mecanismo utilizado para ligar doador e receptor.

O transplante depende da compatibilidade de antígenos leucocitários humanos, conhecidos pela sigla HLA. Essas características são determinadas geneticamente e avaliadas a partir de exames laboratoriais.

Em famílias, irmãos biológicos têm chances maiores de apresentar correspondência adequada. Mesmo assim, muitos pacientes não encontram um doador aparentado e precisam recorrer aos registros nacionais e internacionais.

O Ministério da Saúde informa que os dados genéticos dos voluntários são constantemente comparados aos dos pacientes que aguardam transplante. Quando aparece um candidato compatível, começa a sequência de exames confirmatórios, avaliação clínica e preparação da doação.

Foi essa gigantesca busca informatizada que acabou conectando Giovanna, no interior paulista, a uma pessoa que precisava do procedimento em Recife.

REDOME hoje reúne milhões de voluntários

O cadastro que tornou essa ligação possível cresceu significativamente desde que Giovanna se inscreveu.

Atualmente, o REDOME informa possuir mais de 6 milhões de pessoas cadastradas e se apresenta como o terceiro maior registro de doadores voluntários de medula óssea do mundo. A instituição é mantida pelo Ministério da Saúde e tem respaldo do Instituto Nacional de Câncer.

A escala é necessária justamente porque compatibilidade genética não é simples.

Ter milhões de nomes no sistema aumenta as combinações possíveis entre voluntários e pacientes. Além disso, registros de diferentes países cooperam para que a busca não fique limitada às fronteiras nacionais.

Na prática, um cadastro feito em Bauru pode acabar sendo necessário anos depois a milhares de quilômetros de distância.

Foi exatamente o que ocorreu.

A paciente, na verdade, também havia atravessado o país

Há um desfecho que Giovanna ainda não conhecia quando sua história ganhou repercussão em 2021.

Mais tarde, depois do período de confidencialidade, tornou-se público que a receptora era Duda, uma jovem técnica de enfermagem que vivia no Rio de Janeiro e também precisou viajar até Recife para o transplante. Em 2023, uma reportagem registrou que as duas haviam finalmente se conhecido pessoalmente.

Duda havia enfrentado leucemia mieloide aguda secundária a uma mielodisplasia, segundo o relato publicado após o encontro.

Assim, doadora e receptora partiram de estados diferentes para um mesmo hospital pernambucano sem se conhecer.

Em janeiro de 2021, Giovanna sabia que existia uma pessoa do outro lado do processo. Somente muito depois aquele paciente anônimo ganhou nome e rosto.

Um ano e meio depois, o anonimato finalmente terminou

Depois do transplante, as regras de confidencialidade impediram o contato imediato.

Cerca de um ano e meio mais tarde, o REDOME permitiu que as informações fossem compartilhadas conforme as regras aplicáveis e a vontade das duas partes. Duda entrou em contato com Giovanna.

O encontro presencial aconteceu posteriormente no Rio de Janeiro.

Giovanna, que em 2021 havia entrado no centro cirúrgico sem sequer conhecer o rosto da pessoa que receberia suas células, finalmente conseguiu abraçar a mulher para quem havia viajado milhares de quilômetros.

O gesto feito no anonimato havia ganhado uma história concreta.

Um cadastro de poucos minutos levou quatro anos para encontrar seu destino

A sequência inteira começou em 16 de agosto de 2016.

Giovanna viu uma campanha, compareceu às Faculdades Integradas de Bauru, forneceu uma amostra para tipagem genética e entrou no REDOME. Depois voltou à vida normal.

Quatro anos se passaram.

Então, em outubro de 2020, veio uma ligação. Em dezembro, a compatibilidade foi confirmada. Em janeiro de 2021, aos 24 anos e em plena pandemia, Giovanna deixou Lins, percorreu mais de 2 mil quilômetros até Recife, passou por novos exames, entrou no hospital e realizou a doação.

Naquele momento, não havia amizade, parentesco ou promessa feita diretamente entre as duas.

Havia apenas uma combinação genética encontrada por um sistema nacional e a decisão de uma jovem de cumprir o compromisso assumido anos antes.

Mais tarde, Giovanna descobriria que do outro lado estava Duda, uma técnica de enfermagem que enfrentava leucemia e que também havia cruzado o país para chegar ao hospital.

A estudante de Psicologia que viajara sem saber quem encontraria não voltou atrás. E, quando falou sobre a experiência meses depois, resumiu sua posição dizendo que faria tudo novamente, porque o procedimento poderia representar uma nova chance para alguém.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

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